LITERATURA INFANTOJUVENIL


QUE TIPO DE LEITOR VOCÊ É? E QUE TIPO DE LEITOR VOCÊ DESEJA VER PROLIFERAR?

Dizem que quando uma pessoa começa uma conversa justificando, tem grande chance de apresentar um discurso “enroleicho” (uso essa palavra, pois estamos em período de “reboleicho”). Então preciso dizer que a coluna desse mês não tem a pretensão de chegar a nenhum lugar (pelo menos nesse momento). Ela, a coluna, será um espaço de “descarrego” de inúmeras palavras que quem sabe no futuro (eu tu ele nós) possamos discutir e optar por aquela que avaliamos ser a “ideal” (quero dizer se isso for possível!)

 

Quanto mais leio a respeito de leitura, maior fica a listagem onde coleciono adjetivos dado aos leitores. Estes adjetivos aparecem em incontáveis textos, mas nem sempre são acompanhados de uma justificativa, o que nos faz aceitar ou recusar a maioria deles.

 

Recuso por exemplo: leitor competente (eca!), leitor eficiente (eca, duas vezes!), pois essas palavras têm um ranço da teoria behaviorista: estímulo – resposta. Sem dizer que os antônimos delas são – incompetente e ineficiente. Conceitos terríveis para o leitor, tenha ele a dificuldade que tiver. Será que é excesso de pudor da minha parte?

 

Leitor experiente

 

Leitor versátil

 

Leitor crítico

 

Leitor fraco

 

Leitor criativo

 

Outro termo é leitor disciplinado. O que é ser disciplinado? Ser disciplinado é tão relativo! Há tantos leitores indisciplinados, que leem mais de um texto ao mesmo tempo, que não leem um livro até o final, que pulam trechos e/ou começam lendo os últimos parágrafos... Será que isso está errado?

 

Num texto encontrei leitor firme e essa expressão me incomodou e fui ao dicionário ver o antônimo de firme e tava lá: frouxo. Bizarro, né!?

Leitor maduro. Parece-me prerrogativa de quem tenha mais idade? Será que querem dizer velho? Amarelecido? Então o oposto seria verde! Para Ezequiel Theodoro da Silva “leitor maduro é aquele para quem cada nova leitura desloca e altera o significado de tudo o que ele já leu, tornando mais profunda sua compreensão dos livros, das gentes e da vida.” (p. 99).

 

Leitor convicto

 

Leitor hábil

 

Leitor incipiente

 

Leitor ordinário (Cruzes, esse é horripilante!)

 

Outro conceito perigoso é leitor bom. Como se mede um bom leitor? Quantidade de livros lidos no mês ou ano? Número de livros emprestados numa biblioteca?

 

Leitor instituído. Destaco do dicionário dois sinônimos para essa palavra: estabelecido e declarado. Complicado, né?! Posso ser uma leitora estabelecida e não declarada ou artificialmente declarada, mas não estabelecida.

 

Leitor invocado. Será que é um leitor desconfiado? Se sim, me parece bom. Segundo Dominique Maingueneau “pode-se falar de leitor invocado para a instância à qual o texto se dirige explicitamente como a seu destinatário. [Por exemplo] Vede, leitor, que estou no caminho certo e que só caberia a mim fazer-vos aguardar, um ano, dois anos, três anos, pela narrativa dos amores [...].” (p. 34-35).

 

Leitor empírico

 

Leitor atento (capaz de extrair de uma obra o máximo dela e comentá-la)

 

Leitor iniciante

 

Leitor qualificado

 

Leitor ineficaz (assim disse Umberto Eco)

 

Leitor poroso

 

Leitor viajante

 

Leitor aderente

 

Leitor colado

 

Leitor eclético

 

Leitor enciclopédico

 

Leitor participante

 

Leitor virtual

 

Leitor ideal

 

Leitor modelo (assim também disse Umberto Eco)

 

Leitor efetivo

 

Leitor ativo. Teríamos inativo. Em Arquivologia um arquivo inativo é um arquivo morto (Ops, não deveria falar assim, os arquivistas odeiam)

 

Leitor instituído. Para Dominique Maingueneau - é o leitor previsto para um determinado tipo de texto, por exemplo, “existem tipos de romances que supõem um leitor detetive que perscrute o texto ininterruptamente e volte sobre seus passos à procura de indícios [...].” (p. 35).

 

Depois de tantos adjetivos, deixei para o final uma palavra que me parece ser, se não a mais adequada, a mais simpática - leitor cooperativo, ou seja, aquele que constrói o texto a partir das indicações que lhes são fornecidas. As tais pistas... Dominique Maingueneau diz que leitor cooperativo é “aquele que é [...] capaz de construir o universo da ficção a partir das indicações que lhe são fornecidas.” (p. 37).

 

Para finalizar a conversa de hoje, quero fazer uma referência ao leitor etário, o bem pequeno (como meu sobrinho Tiago de três anos) que ainda não sabe mudar as páginas de um livro e acaba amassando todas elas. E o leitor idoso que com as mãos menos ágeis e no desejo de mudar as páginas de um livro, vai soprando página por página. Parece estranho, mas é assim que meu pai, com 84 anos, mata a fome de leitura!

 

Essa página a partir de agora está solta no ar e quem quiser se manifestar estou na expectativa!

 

Referências

 

ECO, Umberto. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

 

MAINGUENEAU, Dominique. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Coleção leitura e crítica).

 

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura & realidade brasileira. 3. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.

 


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.