LITERATURA INFANTOJUVENIL


MEMÓRIA E OS LIVROS INFANTIS

Apesar de algumas pessoas se referirem a um evento como algo passageiro (como o vento, portanto é vento!), em geral, saio de um evento recheada de ideias.

 

Foi isso que aconteceu de 11 a 14 de julho de 2011 quando participei do Curso de Introdução aos Estudos da Memória na USP/SP. De lá voltei abundante de memórias.

 

Memórias não é um assunto novo na minha carreira; estive, em diferentes momentos, ligada a projetos de memória. Porém, nesse evento a abordagem foi multidisciplinar e lá pude ouvir a voz dos professores e do público falando de memória. Entre os profissionais tinham biólogos, jornalistas, antropólogos, professores de literatura, bibliotecários, historiadores, economistas, cineastas e psicólogos.

 

Empolgada com tantos exemplos e projetos de memória, me lembrei de muitos  livros infantis que li e que abordam os diferentes tipos de memória, então resolvi compartilhar com vocês o que penso de alguns deles.

 

O primeiro livro que me veio à memória foi um que ganhei de uma ex-aluna, a Ligia Torino - Guilherme Augusto Araújo Fernandes é isso mesmo, o título do livro é o nome completo de um menino encantador: e seu começo é assim:


Era uma vez um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes e ele nem era tão velho assim.
Sua casa era ao lado de um asilo de velhos e ele conhecia todo mundo que vivia lá.
Ele gostava da Sra. Silvano que tocava piano.
Ele ouvia as histórias arrepiantes que lhe contava o Sr. Cervantes.
Ele brincava com o Sr. Valdemar que adorava remar.
Ajudava a Sra. Mandala que andava com uma bengala.
E admirava o Sr. Possante que tinha voz de gigante.
Mas a pessoa que ele mais gostava era a Sra. Antônia Maria Diniz Cordeiro, porque ela também tinha quatro nomes, como ele.
Ele a chamava de Dona Antônia e contava-lhe todos os seus segredos.
Um dia, Guilherme Augusto escutou sua mãe e seu pai conversando sobre Dona Antônia.
- Coitada da velhinha - disse sua mãe.
- Por que ela é coitada? - perguntou Guilherme Augusto.
- Porque ela perdeu a memória - respondeu seu pai.
- Também, não é para menos - disse sua mãe. - Afinal, ela já tem noventa e seis anos.
- O que é memória? - perguntou Guilherme Augusto.

Bem, vou parar por aqui para não estragar sua leitura, mas dá para perceber que é a história de um menino que vai conversando com vários idosos perguntando o que é memória e com as respostas ele vai, aos poucos, construindo seu sentimento de vida e de memória de vida!

 

O outro é - O prato azul-pombinho um livro fantástico, ele foi escrito por Cora Coralina e ilustrado por Angela Lago. Nesse livro uma bisavó conta para sua bisneta que o prato azul-pombinho fazia parte de um jogo de jantar de 92 peças e que agora só restava uma. A menina passa a cuidar dessa raridade,

 

Mas um dia, por azar,

sem se saber, sem se esperar,

artes do salta-caminho,

partes do capeta,

fora de seu lugar, apareceu quebrado,

feito em pedaços – sim senhor –

o prato azul-pombinho.

 

O que aconteceu? Só lendo para saber!

 

Há também um livro que descobri recentemente e gosto muito, é de Lia Zatz, chamado: Dadá, bordando o cangaço. Nele a própria autora informa logo no início da obra:

 

O que este livro conta sobre o cangaço e a vida de Dadá é baseado na realidade. O resto é ficção: a neta, seu amigo, a equipe de filmagem...

 

Lembrei também do livro - Correspondência de Bartolomeu Campos Queirós. Ele não aborda a memória em si, mas hoje se torna um referencial de memória para a criança brasileira. Digo isso pensando quando e como ele foi construído. Quando foi construído? Na época da redação da nossa nova Constituição. Como? Por meio de troca de correspondências entre pessoas que vão se apresentando umas às outras, diferentes palavras, às vezes tão esquecidas, como: livre, terra, irmão, pátria, trabalho, justiça, violência, opressão, fome, paz, esperança, respeito, verde, amarelo, azul, igualdade, eleitor, expressão, escola, justos, próximos, verdadeiros. Essas palavras intencionalmente propostas em cada carta enviada/recebida referem-se aos acontecimentos brasileiros, que não devem ser esquecido, isto é, devem ficar vivos na lembrança.

 

Não poderia me esquecer também do livro: A mãe da mãe da minha mãe de Terezinha Alvarenga. Que conta como foi o primeiro encontro de uma bisneta com sua bisavó. Começa descrevendo a entrada da menina na casa quando ela vai encontrando: cadeiras de palhinhas, cristaleira, cama de renda, babados de filó, penicos, panelão com água fervendo... A menina vai entrando, meio assustada, as portas vão se alargando; e os móveis e objetos passam a ter um significado na medida em que o laço entre elas vai se estreitando.

 

Tem também o livro Álbum de família de Lino Albergaria. Que é um primor desde a capa! Apresenta a mudança de uma bisavó, por parte de mãe, para a casa de uma simpática menina. Para a menina essa mudança foi maravilhosa e para completar, logo depois também vai morar nessa casa o bisavô paterno. É possível antecipar que a partir disso muitas aventuras vão acontecer...

 

Finalmente preciso destacar que há no mercado vários livros infantis que abordam a temática da perda da memória em virtude do Alzheimer, entre eles destaco: Minha avó tem Alzheimer publicado no Brasil pela Editora Scipione, escrito por Dagmar H. Mueller. Ele relata as dificuldades e as mudanças que alguém com doença de Alzheimer provoca na estrutura familiar.

 

Evidentemente que não me lembrei de todos que li, mas me comprometo a escrever outra coluna: Memória e os Livros Infantis II. Quem sabe você leitor pode me ajudar.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

ALVARENGA, Terezinha. A mãe da mãe da minha mãe. Belo Horizonte: Miguilim, 1988.

 

CORALINA, Cora. O prato azul-pombinho. São Paulo: Global, 2002.

FOX, Mem. Guilherme Augusto Araújo Fernandes. São Paulo: Brinque-Book, 1984.

 

MUELLER, Dagmar H. Minha avó tem Alzheimer. São Paulo: Scipione, 2006.

 

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Correspondência. Belo Horizonte, 1997.

 

ZATZ, Lia. Dadá: bordando o cangaço. São Paulo: Callis, 2004.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.