ORGANIZAÇÕES DO CONHECIMENTO


A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO EM ORGANIZAÇÕES (2)


"O conhecimento do conhecimento obriga.
Obriga-nos a assumir uma atitude de
permanente vigília contra a tentação da certeza,
a reconhecer que nossas certezas
não são provas da verdade,
como se o mundo que cada um vê fosse
o mundo e não um mundo que construímos
juntamente com os outros.
Ele nos obriga, porque ao saber que sabemos
não podemos negar que sabemos"
Maturana e Varela1


A construção de conhecimento pressupõe uma cultura e um clima organizacional favorável. Para exemplificar a importância disso, observemos uma situação muito comum em organizações: quando os executivos chegam ao local de trabalho, geralmente, buscam um café e um jornal. Naturalmente começam a ler as notícias, às vezes de forma aleatória, às vezes focados em questões ligadas à organização. Se nesse momento, o chefe direto ou algum executivo de maior nível, entrar no local em que essa ação está ocorrendo, certamente a pessoa encerrará imediatamente a leitura e, provavelmente, será tomada por um sentimento de vergonha ou de incômodo por estar lendo.

Esta situação exemplifica muito bem o que quero dizer com cultura e clima favorável à construção do conhecimento, porque mesmo que a organização fomente uma atitude e um comportamento positivo em relação a isso, as pessoas precisam realmente apropriar-se desse sentimento, ou seja, se a pessoa acreditasse de fato que a leitura de jornal é importante para que ela possa estabelecer relações entre as suas atividades e o negócio da organização, não sentiria vergonha ou se incomodaria por estar lendo. Ao contrário, estaria absolutamente tranqüila em relação a ação 'ler jornal'.

Além da cultura e clima organizacional favoráveis, a organização também precisa de um ambiente físico favorável, isto é, organizações com muitas paredes/divisórias, mesas/armários etc., sem perceber bloqueiam a socialização do conhecimento. Por exemplo, um setor de trabalho composto por quatro pessoas, com uma única mesa de reunião é mais favorável à construção de conhecimento, do que cada indivíduo possuir uma mesa de trabalho própria.

Socializar conhecimento é fundamental para o processo de construção de conhecimento. Somente é possível socializar conhecimento, quando o indivíduo se apropria de informação (conhecimento explícito), estabelece relações com seu próprio conhecimento (conhecimento tácito) e novamente o socializa ao grupo. Esse movimento é que possibilita a construção do conhecimento organizacional.

Algumas organizações preocupadas com o dinamismo desse movimento, criaram ambientes/espaços físicos que ajudam as pessoas a interagirem entre si. Espaços próprios são criados, visando a integração entre as pessoas e o desenvolvimento da criatividade individual e do grupo. Esses espaços dependem essencialmente do tipo de negócio da organização. Por exemplo, se uma organização atua na área de jogos eletrônicos, será necessário criar espaços que fomentem a criatividade das pessoas. Além disso, o contato com crianças e adolescentes é fundamental, pois serão os consumidores dos produtos gerados, por isso será necessário criar espaços tanto dentro, como fora da organização que possibilitem o contato de forma efetiva e, mais do que isso, possibilitem a troca de informações úteis a criação e construção de novos conhecimentos.

Além da cultura, clima e espaços físicos favoráveis à construção de conhecimento, a organização precisa incentivar de forma efetiva o comportamento positivo das pessoas em relação à socialização de conhecimento. Isso significa, que as pessoas que de fato atuam nesse paradigma, devem de alguma forma serem premiadas pela organização. O tipo de premiação é uma escolha da própria organização, e sempre está de acordo com a cultura organizacional. Pode-se citar como exemplos: viagens nacionais e internacionais, equipamentos eletrônicos, cursos de capacitação, objetos de consumo, aumentos salariais, participação nos lucros, recebimento de ações da empresa etc.

A construção de conhecimento pressupõe atitudes voltadas a: 'aprender a aprender', 'aprender a pensar' e 'aprender a questionar'. Por outro lado, a socialização do conhecimento pressupõe atitudes voltadas a: 'aprender a compartilhar', 'aprender a compreender' e 'aprender a diversidade intelectual'2.

O homem é um ser social, por isso, a construção de conhecimento ocorre na mente humana, a partir de uma cultura/sociedade. Portanto, a construção de conhecimento será sempre uma construção advinda do conhecimento de mundo próprio, mas repleto de signos e símbolos de uma determinada cultura/sociedade. A organização também influenciará na construção de conhecimento, uma vez que ela possui sua própria cultura, naturalmente recortada da sociedade na qual está inserida.

O homem somente constrói conhecimento, porque é capaz de consolidá-lo através da linguagem (signos e símbolos), ou seja, a construção de conhecimento necessita do movimento tácito/explícito, pois é através dele que é possível a geração de um novo conhecimento.


Não é o conhecimento, mas sim o conhecimento
do conhecimento, que cria o comprometimento.
Não é saber que a bomba mata,
e sim saber o que queremos fazer com ela
que determina se a faremos explodir ou não.
Em geral, ignoramos ou fingimos desconhecer
isso, para evitar a responsabilidade que nos
cabe em todos os nossos atos cotidianos,
já que todos estes - sem exceção - contribuem
para formar o mundo em que existimos [...]
Maturana e Varela1


Referências

1 MATURANA, H. R; VARELA, F. J. A árvore do conhecimento: as bases da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2001. 283p.

2 MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 6.ed. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2002. 118p.


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MARTA LIGIA POMIM VALENTIM

Professora Titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Pós-Doutorado pela Universidad de Salamanca (USAL), Espanha. Livre Docente em Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional pela Unesp. Docente de graduação e pós-graduação da Unesp, campus de Marília. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa "Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional". Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Unesp, campus de Marília, gestão 2017-2021. Presidente da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN), gestão 2016-2019.