LITERATURA INFANTOJUVENIL


NARRAR HISTÓRIAS: UMA CAIXINHA DE SURPRESA

Sueli Bortolin e Janaina Mello

 

Utilizo esta frase, nesta Coluna, numa forma de brincadeira sem a pretensão de qualquer aproximação com o futebol, pois o ato de narrar histórias é muito mais criativo, inteligente, sincero e desapegado de competitividade e corrupção.

 

É um ato de muita importância que infelizmente por questões de excesso de trabalho, não tenho exercido. Por isso é que ando tão neurótica, com noites mal dormidas e preocupações desnecessariamente antecipadas.

 

Já coloquei na minha agenda que até setembro vou dar um minicurso para captar recursos para Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN) e também captar energia para finalizar o ano. Acho que o título será: XÔ STRESS, VAMOS CONTAR HISTÓRIAS!

 

Preciso contar que já estava com esta intenção, mas me animei por três motivos. Preparem-se vou babar!

 

Primeiro: fui a Florianópolis e conheci a Clarice Caldin (pesquisadora de Biblioterapia) pessoalmente. Há muito anos queria isto, foi muita emoção.

 

Segundo: fui a Florianópolis e conheci a Felícia Fleck aquela contadora de histórias que atravessa as águas catarinenses narrando histórias no Projeto Barca dos Livros. Para quem não conhece lá vai o link - http://www.youtube.com/watch?v=jkvfkpW4uHs. Há muito anos queria isto, também foi muita emoção.

 

Terceiro: telefonei para minha aluna Janaina Mello que é contadora de histórias. Infelizmente, teve que trancar a matrícula do curso de Biblioteconomia por questões de saúde e sinto muita saudade dela.

 

Conversamos um pouco e tivemos a ideia de escrevermos esta Coluna para que as pessoas vejam quanto é importante contar histórias, mas principalmente que é um ato de muita responsabilidade. Que nos traz surpresas agradáveis, mas também nos marca de maneira negativa. Porém, é nas experiências negativas que aprendemos com maior intensidade.

 

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Relato de uma contadora de histórias

 

Há muito tempo quando eu estava descobrindo a arte de contar histórias, me encontrei em uma situação cruel, pois a história que separei para narrar não foi bem escolhida.

 

Tudo aconteceu em 2003 quando estava no 3º ano do curso de Pedagogia e trabalhava com crianças e adolescentes em situação de risco. Estas crianças e adolescentes, grande parte, tinham sido afastadas do convívio familiar (os motivos eram variados, alguns por abuso e maus tratos, outros por vício de drogas ou porque a mãe não deu conta de sustentá-los e resolveu abandoná-los). Apesar dessa situação, tanto crianças como adolescentes eram alegres e criativos. Alguns pela própria situação de abandono eram agressivos, o número era por volta de 15. Eles eram acompanhados por educadores para não fugir, pois alguns corriam riscos de vida.

 

As oficinas aconteciam no espaço de uma casa. Lembro-me que eu trabalhava com contação de histórias e em uma determinada tarde estava pronta para fazer uma roda, a pedagoga apresentou duas crianças novas. Tratava-se de um casal, o menino era maior e a menina menor, eles estavam com o educador da Casa Abrigo que os deixou e voltaria para buscá-los depois do lanche, por volta das 15h30. Depois de todos terem conhecimento de seus nomes e com a roda de contação pronta, me apresentei, cantei uma cantiga e iniciei a história escolhida que era João e Maria. Levei o livro para apresentar as gravuras. Tudo parecia perfeito até a parte em que os pais abandonam as crianças na floresta. Nisso os dois irmãos (que ali estavam pela primeira vez) saíram. A irmã chorava e queria de toda forma ir embora. A pedagoga imediatamente foi para junto deles e eu sem saber ao certo o que fazer, continuei a contação sem entender o que estava acontecendo. Terminada a contação e com os irmãos mais calmos fomos para o café, eu e a pedagoga ficamos com as crianças. A assistente social, que fazia estágio, foi buscar o pão com mortadela e refrigerante para lanche. Todos comeram depois jogamos dominó e jogo do mico. Os educadores vieram buscar o casal de irmãos. Todos se despediram e fomos embora. Quando estava somente eu, a pedagoga e a assistente social, elas me informaram que a reação das crianças foi por conta de que eles tinham sido abandonados naquela semana por sua mãe em uma Casa Abrigo alegando que retornaria um dia, pois naquele momento eles corriam risco de vida por ela ser usuária de drogas e ter dívidas com os traficantes. Quanto ao pai das crianças ela alegava não saber onde o mesmo se encontrava. Tudo naquele momento tornou-se claro: - ao contar uma história devo saber primeiramente para que público irei narrar, pois isso me ajudará na escolha da história.

 

Entrou por uma porta saiu pela outra quem quiser que conte outra...

 

NARRAR HISTÓRIAS: UMA CAIXINHA DE SURPRESA, mesmo triste, é imprescindível para o desenvolvimento emocional das crianças e dos contadores de histórias.

 

Em meu nome e em nome das crianças, obrigada Clarice, Felícia e Janaina pelo trabalho de vocês!


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.