LITERATURA INFANTOJUVENIL


BIBLIOTECAS E SEUS FANTASMAS

Rosemari Alves

 

Recentemente, surpreendi-me com uma conversa que tive com uma amiga. Ela contou que o marido teve que ir trabalhar em Santa Catarina por duas semanas e que a filhinha do casal ficou muito triste com a viagem do pai. Para alegrar a filha, ela resolveu planejar um dia diferente: em vez de levar a garota para a escola, iria “matar” aula e passear no centro. O lugar escolhido para o passeio foi a Biblioteca Pública de Londrina. Enquanto ela contava como haviam ficado maravilhadas com a biblioteca, eu ria sozinha, pois acabei de ler o livro infantil que conta história de fantasmas em bibliotecas e fiquei pensando: “será que tem fantasmas na Biblioteca Pública de Londrina também?”.

 

Resolvi investigar e descobri que a bibliotecária municipal Marli Meisen Bleinroth pesquisou algumas das lendas urbanas perpetuadas no norte do Paraná. A coletânea com as histórias mais curiosas chegou a ser publicada e está disponível para consulta na Biblioteca Pública Municipal. Entre muitas lendas ela conta um caso acontecido em 1980, quando dois vigias da biblioteca tiveram que trabalhar até mais tarde. Enquanto os dois conversavam um barulho alto e assustador ecoou pelo prédio. Era como se fosse uma bola de ferro rolando pela escada. Os guardas garantem que o barulho só pode ter sido de fantasmas de presos mortos no prédio da biblioteca, na época em que o local ainda abrigava o Tribunal do Júri. Nos porões, os presos aguardavam pelo julgamento e alguns deles chegaram a morrer. Para os vigias, arrastando as correntes, eles ainda assombram o local.

 

Adoro bibliotecas. Lembro que, na adolescência, eu visitava a Biblioteca Pública com frequência. Era lá o ponto de encontro com minhas amigas. Ali peguei bons livros emprestados.

 

Voltando à visita da minha amiga a Biblioteca Pública de Londrina, o leitor deve estar perguntando por que eu ria, enquanto minha amiga contava sua ida à Biblioteca? Onde está a graça de tudo isto? A graça está no fato de que, coincidência ou não, eu fiquei relembrando o livro que acabei de ler, seu título é Ludi e os fantasmas da Biblioteca Nacional” (ilustrações de Eduardo Albini), de Luciana Sandroni.

 

Esta autora já escreveu vários livros para crianças e este integra a série de livros de muito sucesso, destacando “Ludi na revolta da vacina”, com o qual a autora recebeu o prêmio Carioquinha da Prefeitura do Rio de Janeiro e o prêmio O Melhor para Criança da FNLIJ e “Minhas Memórias de Lobato”, que conquistou o prêmio Jabuti.

 

Em “Ludi e os fantasmas da Biblioteca Nacional”, o pequeno leitor poderá pegar uma carona na assombrosa visita da família Manso à maior biblioteca da América Latina. A família Manso é constituída pelo casal Marcos e Sandra, pelos filhos Ludi, Rafa e Chico, além da funcionária da casa, a Marga. Sábado foi o dia escolhido para visitar a Biblioteca Nacional. Enquanto tomavam café, Dona Sandra começou a falar sobre as relíquias guardadas na biblioteca. Todos ouviam com atenção. No início, não havia nenhum interesse das crianças em passar um sábado numa biblioteca, até ouvirem a palavra Fantasma, um gatilho que despertou a curiosidade da criançada. Os pequenos, com a imaginação a todo vapor, encasquetaram que naquele prédio antigo devia habitar fantasmas mesmo e já começaram a bolar aventuras com esses seres cheios de mistérios.

 

Este livro é uma homenagem da Luciana Sandroni aos 200 anos da Biblioteca Nacional, completados em 29 outubro de 2010. A visita da família Manso tem início com a descrição da biblioteca, um extraordinário prédio, que ocupa um quarteirão, é repleto de janelas e é uma mistura de vários estilos da arquitetura – clássico, medieval, barroco. Logo na entrada, o painel com uma pintura de caveira montada em um cavalo voador que chama a atenção da garotada. O guia da visita foi o senhor Botelho, descrito no livro como um senhor gordinho, de gravata borboleta, que parecia saído de um filme da década de 1940. Sobre o painel da entrada, ele esclarece que é uma pintura de George Biddle, de 1942, que se chama “Ignorância”. Ele explica que a caveira é uma figura da morte e representa que um mundo sem livros, sem conhecimento, leva à ignorância e à violência.

 

No acervo da biblioteca, além de muitos e muitos livros, há outras preciosidades que a família Manso vai descobrindo aos poucos. Depois da descrição do prédio, o que mais chamou a atenção dos visitantes foi o salão enorme, todo de mármore e cheio de colunas, uns lustres muito bonitos e uma escadaria coberta por tapete vermelho. É um prédio de quatro andares e no teto se avista um vitral todo colorido, vindo da França.

 

Na Sala dos Periódicos, há várias estantes e aparelhos de microfilme. Lá, encontram-se jornais antigos e contemporâneos, microfilmados e alguns digitalizados. É possível, por exemplo, ler o exemplar número 1 do “Jornal do Brasil” e também o número 1 do “Diário de Pernambuco” que tem a data de 1825, considerado o jornal mais antigo da América Latina.

 

Na Sala de Iconografia, se encontram desenhos, caricaturas e gravuras de artistas famosos, como Debret e Rugendas. Há, também, fotos de Marc Ferrez e de muitos fotógrafos que registraram imagens do Brasil de um tempo passado, além do menor livro do mundo, que é do tamanho de uma unha de bebê.

 

A sala 3, também chamada de “Sala de Obras Gerais”, é a mais visitada da biblioteca. Ali, qualquer cidadão pode pegar um livro, uma monografia ou uma tese para ler. Uma curiosidade desta sala é que, quando o poeta Carlos Drummond de Andrade a visitava, sempre se sentava na mesa 4. Se outra pessoa estivesse ocupando sua mesa, ele pedia ao funcionário que a fizesse mudar de lugar.

 

Na sala 4, chamada de “Sala dos Manuscritos e Cartografia”, há manuscritos importantíssimos, como o projeto da Lei Áurea, o processo criminal de Tiradentes, as cartas de D. Pedro I para a Marquesa de Santos e os preciosos manuscritos de Machado de Assis e Euclides da Cunha, além da partitura original de “O Guarani”, de Carlos Gomes.

 

Todas essas preciosidades não podem ser manuseadas, sendo possível conhecê-las apenas pela internet.

 

Só contei um pouquinho da história do livro para dar água na boca do leitor, mas tem muito mais. A visita da família Manso a Biblioteca Nacional é marcada pela presença de fantasmas de escritores, apagões de luzes, barulhos e vozes estranhas, ranger de uma porta se abrindo, corrente se arrastando... dá até arrepio.

 

Arrepios duplos, quando eu penso que estive lá em julho de 2013 e que andei por aqueles corredores e corri o perigo de ter encontrado algum fantasma-escritor ou quem sabe fantasma-leitor. Pensando bem até que seria divertido ter visto de perto o Carlos Drummond de Andrade na mesa 4.

 

E você acredita em fantasmas? Já ouviu falar na Bíblia de Mogúncia, no Livro das Horas e de Um cemitério de livros?

 

Segundo Célia Maria Portella (2010) a Biblioteca Nacional foi primeiramente instalada “nas casas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, à Rua Direita [hoje: Primeiro de Março], entre a igreja do Carmo e a Capela Imperial [antiga Catedral]”, por insuficiência do espaço físico, foi redirecionada para acomodar seu acervo nas “catacumbas” dos seus religiosos, no mesmo imóvel. Mais tarde foi transferida para Rua do Passeio, onde atualmente está instalada a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), chegando à Avenida Rio Branco n.219-39, sendo esse seu domicílio fixo, desde 29 de outubro de 1910.

 

Quer conhecer a história da Biblioteca Nacional? Então leia essa nova aventura de Ludi e embarque nesta animada e assombrada visita da família Manso à maior e mais antiga biblioteca do Brasil. É diversão na certa!

 

Olha gente, não é só a Luciana que acha que tem fantasma na Biblioteca Nacional, achei uma matéria do Roberto Kaz publicada na Revista da História, do dia 17/09/2007 com o título “Os fantasmas da Biblioteca Nacional”, onde ele relata histórias de um funcionário da biblioteca que afirma que já presenciou várias aparições...

 

BUUUUU...Vale à pena dar uma conferida!!

 

 

Sugestões de Leitura:

 

KAZ, Roberto. Os fantasmas da Biblioteca Nacional. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/por-dentro-da-biblioteca/os-fantasmas-da-biblioteca-nacional>. Acesso em: 10 dez.2014.

 

PORTELLA, Célia Maria. Reeleitura da Biblioteca Nacional. Estudos Avançados, v.24, n.69, 2010. Disponível em: <http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/celiaMaria.pdf>. Acesso: 09 dez. 2014.

 

SANDRONI, Luciana. Ludi e os fantasmas da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Manati, 2011.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.