INFORMAÇÃO E SAÚDE


A NECESSIDADE INFORMACIONAL E O USO DA INFORMAÇÃO POR PÓS-GRADUANDOS DO CAMPO DA PATOLOGIA

 

Camila de Luca Zambonini Gimenes

Maria Cristiane Barbosa Galvão

 

 

Introdução

 

Este texto aborda a necessidade informacional e o uso da informação pelos pós-graduandos do campo da patologia, incluindo a forma com que buscam informação em bases de dados bibliográficas.

 

A patologia é entendida como o estudo das causas estruturais e funcionais das doenças humanas. Os quatro aspectos das doenças que formam o cerne da patologia são: as suas causas (etiologia), os mecanismos de seu desenvolvimento (patogenia), as alterações estruturais induzidas nas células e nos tecidos (alterações morfológicas) e as consequências funcionais das alterações morfológicas (significado clínico). (MITCHELL et al., 2012). A patologia, assim como as demais áreas de saúde, é estudada por diversos profissionais (médicos, biólogos, biomédicos etc.) que demandam por informação confiável e atualizada.

 

Pode-se afirmar que o campo da patologia é ainda pouco explorado internacionalmente pelos estudos relacionados ao uso e à necessidade informacional. As referências encontradas com foco em pós-graduandos são em sua maioria do campo de educação (CASARIN; OLIVEIRA, 2012; OMOTE; PRADO; CASARIN, 2009), humanidades (GARCIA; SILVA, 2005); campo da enfermagem e medicina em geral (HODGENS; SENDALL; EVANS, 2012); multidisciplinar (GASQUE, 2011). Todavia, buscas realizadas em bases de dados relevantes (Web of Science, Medline, Base de Dissertações e Teses do IBICT, SCIELO etc.) não encontraram estudos sobre uso e necessidade informacional no campo da patologia.

 

Conceitualmente, entende-se neste trabalho que a necessidade informacional é uma condição para que informações adequadas e corretas possam contribuir para a realização de um propósito de informação genuíno ou legítimo (DERR, 1983). Dessa forma, a necessidade informacional é despertada não apenas pela falta de informação, mas da necessidade de se possuir a informação para alcançar um objetivo maior. Além disso, a necessidade informacional deve ser real e não apenas uma curiosidade por parte do usuário da informação. A partir do momento que a necessidade informacional é identificada, pode-se iniciar um processo para sanar esta necessidade, ou seja, buscar a informação desejada.

 

A busca informacional consiste na tentativa intencional de encontrar informação como consequência da necessidade de satisfazer um objetivo. Essa necessidade nem sempre é suprida se a informação é inadequada, contem erros, é muito abrangente ou mesmo insuficiente para os fins a que se pretende (MARTINEZ-SILVEIRA, ODDONE 2007).

 

Para Casarin e Oliveira (2012), comportamento informacional é a maneira como lidamos com a informação, incluindo o modo como a buscamos (ou a evitamos) e a utilizamos.

 

No caso da pós-graduação, para o desenvolvimento de uma dissertação de mestrado e/ou tese de doutorado, é de extrema importância a busca por informações provenientes de fontes mais confiáveis, como aquelas existentes nas bases de dados Medline, Pubmed, Cinahl etc (GALVÃO, 2010; GALVÃO, 2012).

 

METODOLOGIA

 

Este estudo foi de caráter qualitativo e exploratório composto por 30 entrevistas com mestrandos e doutorandos de um programa de pós-graduação em patologia de uma universidade pública localizada no Estado de São Paulo, Brasil, a partir de um roteiro de entrevista previamente testado com dois sujeitos de pesquisa. A metodologia para composição da amostra foi por saturação de respostas.

 

O projeto foi submetido e aprovado por um comitê de ética em pesquisa. Para tanto, foi elaborado o termo de consentimento livre e esclarecido, e obtida a autorização para o recrutamento dos sujeitos de pesquisa.

 

Para a realização das entrevistas, os pós-graduandos foram contatados pessoalmente para agendar a data, o local e o horário de conveniência para o entrevistado. O local utilizado para a realização das entrevistas foi uma sala cedida pelo próprio programa de pós-graduação. As entrevistas foram gravadas e transcritas como forma de garantir a segurança e correta captura dos dados. Conforme a metodologia estabelecida, para garantir a anonimidade dos entrevistados, seus nomes foram substituídos por números sequenciais, partindo do número 1 nas transcrições das entrevistas.

 

RESULTADOS

 

As entrevistas foram transcritas na íntegra. Foram, então, realizadas 3 leituras das transcrições para a análise dos temas recorrentes nas falas dos entrevistados que serão descritos a seguir. A metodologia de análise qualitativa dos dados seguiu a proposta de Bardin (1977).

 

A maioria dos 30 entrevistados disse que busca a informação não científica ou informação genérica, na internet, mais especificamente no site de busca Google, conforme as falas seguintes falas:

 

Sujeito 2: “Google.”

 

Sujeito 5: “Quando é assunto genérico eu começo pelo Google.”

 

Sujeito 8: “Eu jogo no Google.”

 

Entretanto, com relação à busca de informação para uso na pesquisa científica, a maioria dos entrevistados disse que busca esse tipo de informação em bases de dados reconhecidas. Dentre as bases citadas, destaca-se o uso da base de dados do Pubmed, conforme as falas seguintes:

 

Sujeito 1: “É mais Pubmed mesmo.”

 

Sujeito 3: “Durante o mestrado, eu pesquisei muito na LILACS e no MEDLINE que para a Enfermagem são considerados bases de dados confiáveis. Só que no doutorado, eu percebi que é mais utilizado o Pubmed, que tem artigos mais recentes e em inglês. Então, eu estou mudando um pouco o perfil.”

 

Sujeito 5: “O Pubmed, os periódicos da CAPES. Eu sempre começo pelo Pubmed.”

 

Mais da metade dos entrevistados declarou que não conhece as terminologias específicas das bases de dados em saúde. Além disso, alguns entrevistados declararam conhecer, mas não fazer uso das terminologias em suas estratégias de busca. As seguintes falas ilustram este ponto:

 

Sujeito 1: “Não, não sei o que é isso.”

 

Sujeito 2: “Não, nem conhecia.”

 

Sujeito 6: “Não. Eu uso as palavras-chave. (...) Desculpe, mas eu não sabia disso. Ninguém nunca me ensinou isso, desculpe. Para mim, você coloca as palavras-chave que tem mais a ver com o seu trabalho.”

 

Nota-se que os entrevistados que não utilizam as terminologias adequadas para realizar a busca por informação, se queixam por recuperar muita informação desnecessária, conforme destacam as falas seguintes:

 

Sujeito 1: “Na verdade, quando eu ponho lá a palavra-chave, aparecem diversos artigos, né? Então, como restringir isto, né? Colocar mais palavras-chave.”

 

Sujeito 6: “Ah sim, quando faço a busca recupera muitos artigos. Com as palavras-chave que eu coloco, vem muita coisa.”

 

Sujeito 10: “Me deixa pensar, o que mais me atrapalha... É que, às vezes, eu não coloco muito filtro. Aparece muita coisa, a pesquisa fica suja, sabe? Muita coisa.”

 

Observou-se que os entrevistados que conhecem as terminologias da área de saúde e fazem uso do Medical Subject Headings (MESH) e/ou dos Descritores em Ciências da Saúde (DECS), já realizaram algum tipo de treinamento para usar as bases de dados, conforme as falas seguintes:

 

Sujeito 3: Eu entro na Biblioteca Virtual de saúde, vou em descritores e tento achar algum termo próximo daquilo que eu quero buscar. Quando eu comecei o Mestrado, às vezes, eu procurava e não encontrava nada. Aí eu procurei o bibliotecário da minha faculdade e ele me instruiu que primeiro eu tinha que colocar lá o descritor”.

 

Sujeito 12: Eu busco mais por palavras-chave. Mas o Pubmed tem o jeito todo próprio de procurar. Sobre treinamento, eu fiz a disciplina da Biblioteca”.

 

Sujeito 14: É. Eu uso o MESH. E no Pubmed eu também uso o single citation que também facilita bem para achar um artigo pontual mesmo, quando você sabe o nome do autor, a data.”

 

CONCLUSÃO

 

Observou-se que os entrevistados, embora conheçam algumas bases de bibliográficas, possuem dificuldade para encontrar informações por não empregarem descritores adequados em suas estratégias de busca. Observou-se também que os entrevistados que passaram por algum tipo de treinamento para o uso de fontes de informação bibliográficas mencionam ter maior sucesso durante o processo de busca informacional nas bases de dados. Dessa forma, entende-se que há uma necessidade de treinamento dos pós-graduandos da área de patologia para o uso das bases de dados bibliográficas, incluindo suas ferramentas de busca e o uso de terminologias adequadas para o estabelecimento das estratégias de busca e para a recuperação da informação mais precisa.

 

Disso decorre que as instituições e unidades de saúde que desenvolvem pesquisas e que promovem o ensino de graduação e/ou pós-graduação devem ofertar treinamentos que incrementem a competência informacional de seus estudantes e profissionais. Certamente, o profissional bibliotecário pode contribuir bastante a fim de que estes usuários da informação tenham mais êxito na busca, seleção e uso da informação em saúde.

 

Finalmente, entende-se que as conclusões deste estudo não podem ser extrapoladas, pois os sujeitos de pesquisa foram recrutados em um único programa de pós-graduação em patologia.

 

Referências

 

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

 

CASARIN, H. C. S.; OLIVEIRA E. S. O uso da informação no âmbito acadêmico: o comportamento informacional de pós-graduandos da área de educação. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da informação, v. 17, n. esp. 1, p.169-187, 2012. Disponível em: <https://journal.ufsc.br/index.php/eb/article/view/1518-2924.2012v17nesp1p169>. Acesso em: 12 mar. 2015.

 

DERR, R. L. A conceptual analysis of information need. Information Processing and Management, v. 19, n. 5, p. 273-278, 1983.

 

GALVAO, M.C.B. O levantamento bibliográfico e a pesquisa científica. In: Franco, L. J.; Passos, A. D. C. (Orgs.). Fundamentos de epidemiologia. 2ed. São Paulo: Manole, 2010.

 

GARCIA, R. M.; SILVA, H. C. O comportamento do usuário final na recuperação temática da informação: um estudo com pós-graduandos da UNESP de Marília. DataGramaZero: Revista de Ciência da Informação, v.6, n.3,  jun 2005. Disponível em: http://www.dgz.org.br/jun05/Art_02.htm. Acesso em: 9 mar. 2015.

 

GASQUE, K. C. G. D. Pesquisa na pós-graduação: o uso do pensamento reflexivo no letramento informacional. Ciência da Informação, v. 40, n. 1, p. 22-37, 2011. Disponível em: http://revista.ibict.br/ciinf/index.php/ciinf/article/viewArticle/1843. Acesso em: 8 mar. 2015.

 

HODGENS, C.; SENDALL M. C.; EVANS L. Post-graduate health promotion students assess their information literacy. Reference Services Review, v. 40, n. 3, p. 408-422, 2012.

 

MARTINEZ-SILVEIRA, M.; ODDONE, N. Necessidades e comportamento informacional: conceituação e modelos. Ciência da Informação, v. 36, n. 2, p. 118-127, 2007. Disponível em: http://revista.ibict.br/cienciadainformacao/index.php/ciinf/article/viewArticle/797. Acesso em: 2 nov. 2014.

 

MITCHELL, R. N. et al. Robbins & Cotran. Fundamentos de patologia: bases patológicas das doenças. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

 

OMOTE, S.; PRADO, P. S. T.; CASARIN, H. C. S. Padrões de busca e uso de artigos científicos: um estudo com pós-graduandos em educação brasileiros. Brazilian Journal of Information Science, v.3, n.2, p.32-57, jul./dez. 2009. Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/bjis. Acesso em: 12 mar. 2015.

 

Como citar este texto

 

GIMENES, C.L.Z.; GALVAO, M.C.B. A necessidade informacional e o uso da informação por pós-graduandos do campo da patologia. 30 de julho de 2015. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2015. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=917


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.