BIBLIOCONTOS


MARIDO DE BIBLIOTECÁRIA – I: FASHION

Seria um dia como outro qualquer, de um mês de novembro. Um sábado quente de verão. Dia ideal para lavar o carro em um lava-rápido. Ler o jornal tranquilo e divagar, refletindo sobre as notícias. Assim imaginava o marido da bibliotecária, naquela manhã. Ela, porém, tinha outros planos para uma manhã ensolarada. Iria aproveitar para fazer compras no Bom Retiro (Bairro paulista onde se localizam lojas e fabricantes de roupas). Ele, o marido, tinha um planejamento, ela, a mulher, toda uma programação estruturada.

No planejamento dele, ela não está incluída. Na programação dela, ele é peça essencial. Ele não quer ir, mas é persuadido por ela. Afinal, independentemente de ser ou não bibliotecária, as mulheres, em geral, sabem convencer os homens, basta ameaçarem discutir a relação.

O Marido, porém, de uma coisa não abre mão (afinal, o homem precisa demonstrar que é senhor de qualquer situação), leva o jornal. Certamente não terá como ler, mas mesmo assim leva por uma questão de honra. Ademais, leitor é leitor em qualquer situação. E lá se vão.

Antes, porém, uma parada no Ceasa – Centro de Abastecimento, para as compras da semana de verduras e frutas. Na oportunidade, ele aproveita para comprar uma caixa de batata-doce, que a muito lhe foi solicitada por sua mãe.

Sob o sol das 11 horas da manhã, chegam na “muvuca” do Bom Retiro. Carro estacionado. Começam a bater pernas em um entra e sai de lojas. Olha aqui, escolhe ali. Para ele seria melhor correr a São Silvestre, sem preparo físico, do que andar por um espaço de gente ensandecida para andar na moda, ou simplesmente consumir.

As lojas deveriam ter catálogos para rápida localização do material. Um display de apresentação no qual as pessoas visualizassem as vestimentas. Um FRBR para modelar o dado da estilista, da costureira, da estampa, da dimensão do corpo e da alma da usuária, além do valor.

Nenhum marido merece este tipo de enfrentamento. Pior que o calor mesclado ao suor, são as sacolas de compras penduradas nas mãos de um falso equilibrista. Chateia mais que o cartão de crédito (dele!) rodando nas maquininhas “sugadoras” de créditos.

A cabeça vai esquentando. A mulher quer entrar em uma loja já congestionada na porta. Ele sente-se como um cachorro vira-lata encurralado, mostra os dentes e grita – Ai! Eu não entro. E fica na porta. Em frente a entrada, se posta encostado diante de um carro estacionado. Ao lado, um marreteiro vende óculos escuros dispostos sobre um caixote.

A calçada parece uma passarela de zumbis se esbarrando entre idas e vindas como em um desfile carnavalesco, fora de época. Para melhor se acomodar, coloca algumas das sacolas entre as pernas, e outras mantêm penduradas nos ombros. Ajeita o boné, limpa os óculos escuros do suor. Tira o celular do bolso da bermuda para uma olhada. Depois, pousa o olhar no movimento, e a mente no desejo de estar sentado em sua casa lendo o seu jornal. Aliás, jornal que ficou no carro. Está contemplativo com seus pensamentos, quando desperta meio que no susto com dois policias lhe interpelando:

 – Você tá vendendo o quê?

- Como? Eu não estou vendendo nada! – Responde meio sem entender o absurdo da pergunta.

Os policias insistem. – Você não sabe que é proibido mascatear na rua? É ilegal! Tem licença?

Ele olha para o lado. O marreteiro dos óculos agora está sentado no caixote encostado no poste, olhando e se divertindo com a cena.

- Olha! Policiais! Eu não estou vendendo nada, estou apenas acompanhando minha mulher.

- Mas onde esta sua mulher?

- Ela está na “muvuca” desta loja, é só vocês aguardarem que ela já chega.

Em realidade aquela situação era irreal. Sente-se constrangido. Em seu entorno uma aglomeração de pessoas se forma. Aqueles zumbis acompanham a interpelação policial. Uma velhinha para ao lado e comenta em tom de censura:

- Que vergonha! Um moço forte deste, vai trabalhar e deixa de vagabundagem.

Outros passantes gritam:

- Leva pra cadeia!

O mascate continua encostado no poste, braços cruzado, e tudo acompanha do drama. Um dos policias ainda pergunta:

- Se não está vendendo cadê as notas fiscais? Você tem?

- Claro que tenho! – O marido da bibliotecária busca nos bolsos e puxa um papel de cor amarela.

O policial olha o documento e questiona:

- Oh! Cara, você tá me tirando? Que negócio é este de batata doce? Vamos conversar na delegacia.

- “Pera”! É das batatas que comprei no mercado. As notas devem ter ficado com minha mulher.

A coisa vai se complicando quando ele tira da carteira sua identidade funcional e apresenta aos policiais.

- Olha! Policiais, eu não sou mascate, sou professor.

Os policias olham e entreolham-se rindo, e comentam algo que ele não escuta.

- Bem cidadão, está liberado. Vê-se que você é pessoa de bem, trabalhador. Um professor lutando pela sobrevivência.

Eles seguem naquele passo militar. O mascate de imediato abre o caixote, e segue na venda dos óculos. A rua segue no ritmo dos zumbis. A bibliotecária sai da loja. Ele comenta a situação, e que por pouco ela não vai buscá-lo na cadeia. Fato que ela contesta:

- Se você acompanhasse a esposa isto não acontecia!

E seguem rua abaixo, ela olhando as vitrines e ele se equilibrando com as sacolas, agora ressabiado na multidão.

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.