ANTÔNIO CÂNDIDO
[Dezembro/2004]
(Antônio Cândido - professor universitário)
"Em nossa casa havia a boa biblioteca de meus pais.
Morávamos no interior de Minas e desde pequeno me habituei a lidar com aqueles
livros, mesmo antes de os ler. Meu pai era médico e extremamente culto. Quando
freqüentou o ginásio do Estado em campinas, até 1903, comprou muito livro na
excelente Casa Genoud. Depois continuou a comprar no Rio, onde se formou, e na
Europa, onde fez entre 1911 e 1912 um primeiro estágio de aperfeiçoamento e onde
sempre teve um livreiro correspondente, que fazia a assinatura de revistas e a
remessa de livros encomendados por catálogo.
Além da medicina predominante, havia filosofia,
história, literatura, política, estudos sociais. Sem contar que minha mãe tinha
os seus livros próprios, onde avultavam biografias, memórias, diários,
correspondências (Quando li mais tarde o verso para alguns misterioso de Manuel
Bandeira - 'Abaixo Amiel e nunca lerei o diário de Maria Bashkirtsef' - fiquei à
vontade, porque em casa ambos eram lidos e comentados).
Outra biblioteca particular que me valeu muito
(depois de 1930) foi a de minha grande professora Dona Maria Ovídia Junqueira,
que me orientou para certos clássicos da juventude e diversos autores ingleses,
inclusive Shakespeare, cuja obra possuía numa bela edição em 15 ou 16 pequenos
volumes. Como em nossa casa dominavam os livros franceses, foi uma experiência
nova e estimulante a familiaridade com aqueles livros diferentes, cartonados, e
sua sobrecapas coloridas.
Quanto a bibliotecas públicas, a primeira que
freqüentei foi a Municipal de Poços de Caldas (onde moramos a partir de 1930).
Ocupava uma sala da Prefeitura e tinha uma bibliotecária encarregada sobretudo
de outras tarefas burocráticas; de modo que me confiavam a chave e eu ficava só,
- porque não me lembro de ter visto outro consulente entre 1932 e 1934. Aí,
precisaram instalar na sala um desenhista de obras públicas e as consultas foram
suspensas.
Essa biblioteca era notável e tinha pertencido a um
médico ilustre, de imensa cultura, até hoje o homem de maior relevo que a cidade
teve; Pedro Sanches de Lemos. Além de medicina, havia nela coleções de
filosofia, psicologia, história, sociologia, antropologia, política, literatura,
muitas com uma bela encadernação especial trazendo as iniciais do possuidor. Ele
morrera fazia mais de vinte anos, mas naquela altura a biblioteca, doada pela
família, ainda estava mais ou menos intacta. Deveria ter sido iniciada nos anos
de 1870 e continha o que se poderia querer de melhor (Pedro Sanches de Lemos
aparece transposto para a ficção como o Dr. Lino, em Água de Juventa, de Coelho
Neto).
Quando vim para São Paulo, em 1936, freqüentei duas
bibliotecas. Na antiga Municipal, Rua Sete de Abril, entre outras coisas li os
clássicos gregos em traduções francesas que já tinha folheado na de Poços de
Caldas. Na da Faculdade de Direito, lembro que travei conhecimento sistemático
com a crítica francesa tradicional: Saint-Beuve, Taine, Brunetière, Faguet e
outros.
Na da Faculdade de Filosofia, onde primeiro estudei
e depois ensinei, num total de trinta e nove anos, li intensamente a partir de
1939 filosofia, sociologia, história e literatura, em especial nos livros da
excelente doação feita pelo governo francês em 1934. Depois de 1944 lidei na
coleção Lamego, para o preparo de uma tese e a seguir do meu livro Formação da
Literatura Brasileira. Com o mesmo fim trabalhei durante anos na nossa Municipal
(já na Consolação) e na Nacional do Rio, sobretudo nas respectivas secções de
Livros Raros. Em São Paulo, com o gentil auxílio das bibliotecárias Dona Rose e
Dona Augusta.
E aí estão as bibliotecas que me ajudaram mais nos
períodos decisivos para a vida mental. Só mais tarde freqüentei algumas
monumentais, no estrangeiro."
(Fonte: CÂNDIDO, Antônio. Depoimento. A biblioteca de cada um. Palavra Chave, São Paulo, n.1, p.6, maio 1982)
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