GERAL


JOSÉ SARAMAGO

"Aprendi depressa a ler. Graças aos lustros da instrução que havia começado a receber na minha primeira escola, a da Rua Martens Ferrão, de que apenas sou capaz de recordar a entrada e a escada sempre escura, passei, quase sem transição, para a frequência regular dos estudos superiores da língua portuguesa na figura de um jornal, o Diário de Notícias, que meu pai levava todos os dias para casa e que suponho lhe era oferecido por algum amigo, um ardina dos de boa venda, talvez o dono de uma tabacaria. [...] Obviamente, eu não podia ler de corrido o já então histórico matutino, mas uma coisa era para mim clara: as notícias do jornal estavam escritas com os mesmos caracteres (letras lhes chamávamos, não caracteres) cujos nomes, funções e mútuas relações eu andava a aprender na escola. De modo que, mal sabendo ainda soletrar, já lia, sem perceber que estava lendo. Identificar na escrita do jornal uma palavra que eu conhecesse era como encontrar um marco na estrada a dizer-me que ia bem, que seguia em boa direção. [...] Ora, aconteceu que nessa casa onde não havia livros, um livro havia, um só, grosso, encadernado, salvo erro, em azul-celeste, que se chamava A Toutinegra do Moinho e cujo autor, se a minha memória ainda esta vez acerta, era Émile de Richebourg, de cujo nome as histórias da literatura francesa, mesmo as mais minuciosas, não creio que façam grande caso, se é que algum fizeram, mas habilíssima pessoa na arte de explorar pela palavra os corações sensíveis e os sentimentalismos mais arrebatados. A dona dessa jóia literária absoluta, por todos os indícios também resultante de prévia publicação em fascículos, era a Conceição Barata, que o guardava como um tesouro numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, com cheiro a naftalina. Este romance iria tornar-se na minha primeira grande experiência de leitor. Ainda me encontrava muito longe da biblioteca do Palácio das Galveias, mas o primeiro passo para lá chegar havia sido dado. E graças a que a nossa família e a dos Baratas viveram juntas durante um bom par de anos, o tempo mais que me sobrou para levar a leitura até o fim e regressar ao princípio. [...] anos depois viria a descobrir, com a maior das surpresas, que também havia lido Molière no sexto andar da Rua Fernão Lopes. Um dia, meu pai apareceu em casa com um livro (não sou capaz de imaginar como o teria obtido ele) que era nada menos que um guia de conversação de português-francês, com as páginas divididas em três colunas, a primeira, à esquerda, em português, a segunda, central, na língua francesa, e a terceira, ao lado desta, que reproduzia a pronúncia das palavras da segunda coluna." (p.89-91)

Fonte: SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 138p

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.