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LER É MAIS IMPORTANTE DO QUE ESTUDAR

Há mais de 10 anos venho falando pelo Brasil afora sobre a importância primordial do aprendizado completo e total da leitura no ensino fundamental. Saí por aí, com meus cartazes, repetindo: ''Ler é mais importante do que estudar''. O ministro Paulo Renato, com quem tive a satisfação de colaborar, concordou com minha opinião e seu ministério encampou essa teoria da minha professora muito maluquinha e, nos seus discursos de despedida, jamais deixou de mencionar que todos nós, que trabalhávamos com seus projetos, sonhávamos em fazer do Brasil um país de leitores.

Semana passada o país se viu diante de mais uma olimpíada internacional de fracassos, pior do que a de Sidney. De 41 países escolhidos a esmo para ser testados sobre o aproveitamento da leitura e do conhecimento colegial adquirido por seus jovens, o Brasil só ficou à frente da Mauritânia, da Indonésia, da Albânia e do Peru.

Na minha opinião, são várias as razões que nos deixaram nessa situação, todas elas decorrentes de erros conceituais. A mais recente e grave delas, esta: a discutida promoção automática. Tenho dito em artigos escritos, aqui e em outros jornais, que o que está errado não é o automatismo da promoção, mas o conceito de promoção em si. A criança na escola não é um soldadinho num quartel. Ela não tem que ser promovida nem premiada por aprender. Ela tem que ser avaliada e acompanhada em toda a sua trajetória escolar - ou seu tempo de escolaridade será um desperdício.

A idéia de promoção automática fez com que o despreparado e mal pago professor brasileiro, desestimulado e só, lavasse suas mãos no acompanhamento de seu promovível aluno. E lá foi a criança sem deixar culpa no mestre. Era a lei!

Viajando pelo interior do Brasil, de cidade em cidade, de escola em escola, há mais de 20 anos, não canso de ver crianças completamente analfabetas ''cursando'' a quarta série de primeiro grau.

Tem que mudar tudo! Tem que mudar tudo no ensino fundamental! No programa Fantástico, da TV Globo, a professora finlandesa - do país de maior aproveitamento escolar do grupo mencionado - explicou o segredo do êxito de seu ensino. Curiosamente é tudo o que tenho falado por aí e há tempos. A escola brasileira, no seu início, tem que ser formativa e não informativa.

Repito aqui as palavras de Mário Henrique Simonsen, citado pelo secretário Tito Ryff, que li há algum tempo nesta página do JB e que me inspirou a começar a publicar aqui meus artigos sobre o assunto. E repito o que falei à época: é na escola que o homem vai, criança, iniciar-se no processo de ordenar a massa de informação com que a vida o espera. Dominar os códigos para esse ordenamento da informação deve ser o correto começo de tudo.

Em qualquer esporte coletivo, por exemplo, o atleta só poderá praticar plenamente todo o jogo se dominar seus fundamentos. Ele jamais será, por exemplo, um bom jogador de basquete se não souber como não andar ao entrar na bandeja, como quicar uma bola sem olhar para ela ou como cobrar um lance livre. Da mesma forma, nenhum ser humano poderá ser educado (ordenar a informação e o conhecimento a receber) se não dominar seus fundamentos. Sem saber ler o suficiente pra entender o que lê, e sem saber escrever para expressar-se plenamente, como é que ele vai estudar?

A escola teria, então, que desenvolver, no seu começo, o fundamento da leitura e da escrita, e mais, apenas, os fundamentos aritméticos (as quatro operações).

Convencionou-se que são quatro os anos necessários para que a criança esteja preparada para o chamado segundo período. Nesses quatro anos, pois, a escola ideal deveria entregar ao ciclo seguinte uma criança sabendo ler e escrever como quem respira. E, logicamente, dominando totalmente as quatro operações (sem angústias ou castigos), sabendo como respeitar o próximo, na convivência diária (e sabendo a regra de três simples, pra poder desenhar o caminho de volta a casa).

Os quatro anos primários seriam divididos em tantos ciclos quantos fossem necessários para essa plenitude e a criança poderia completá-los com quatro anos - ou mais, ou menos - de escolaridade conforme suas potencialidades, devidamente acompanhada pelo atento professor. Ou professora, como é o mais comum. E isso, sem problemas de passar de ano (promoção) ou - helás! - de repetência!

Gostaria imensamente de que o ministro Cristóvam Buarque, que foi a indicação mais aplaudida, quando Lula anunciou o ministério, aproveitasse o vexame que deram os estudantes do país em que ele é o ministro da Educação e, imediatamente, começasse uma revolução no ensino fundamental.

Pára tudo, Cristóvam, pára tudo! É o meu pedido patético!

Façamos, por favor, com que nos próximos anos a escola fundamental brasileira passe a cuidar apenas de que suas crianças dominem o código vital da leitura e da escrita.

Sejamos radicais: apenas ler, escrever e gostar de ler!

Uma criança de 10 anos que lê como quem respira, que gosta de ler, que lê como quem está usando mais um, além dos seus cinco sentidos, estará preparada pra receber toda a informação de que vai necessitar para enfrentar a vida.

Cristóvam, meu amigo, reforma já! Não podemos perder mais tempo. Nem olimpíadas escolares.

Autor: Ziraldo
Fonte: Jornal do Brasil

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.