A CRISE DA BIBLIOTECONOMIA NÃO É ONOMÁSTICA; É ESTRUTURAL
Há alguns anos, é perceptível o declínio de vagas de Biblioteconomia nos órgãos públicos e na iniciativa privada. Em Brasília, sede de diversos órgãos federais, as aposentadorias de bibliotecárias e bibliotecários não têm sido repostas em proporção; ao fenômeno se soma o fechamento epidêmico de bibliotecas e centros de documentação especializados. Enganam-se os que creem ser este um movimento localizado na capital federal. Em 2023, o Ministério Público, sob o argumento de reestruturação e melhorias, decretou o fechamento de dezenas de bibliotecas país à fora. Ora, o que acontece à Biblioteconomia brasileira?
Relatos de colegas que participam de fóruns biblioteconômicos internacionais como a IFLA (em português, Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias) e suas subdivisões regionais dão conta que outros países enfrentam problemas na área, mas de outras naturezas. A situação caseira revela certas peculiaridades. Em referência a Millôr Fernandes, é lúcido afirmar a Biblioteconomia brasileira possui um longo passado pela frente; mazelas que antecedem em séculos a profissionalização do campo, no país, durante a aurora do século XX.
Das incursões jesuítas ao advento da Família Real no Rio de Janeiro de 1808, as bibliotecas, aqui definidas de maneira mais rudimentar apenas como coleções de livros, estavam quase que restritas a ambientes eclesiásticos de ensino. É a partir da assunção da corte de D. João VI que se estabelece a criação da Biblioteca Nacional do Brasil, a então Real Biblioteca, seguido, em 1811, pela instituição da atual Biblioteca Central do Estado da Bahia, configurando-se as primeiras bibliotecas de caráter público.
A gênese das bibliotecas públicas com caráter próximo ao que se conhece hoje, voltadas para camadas diversas da população, pode ser remontada à emergência da classe operária oriunda da Revolução Industrial em países como França e Inglaterra. A complexa realidade brasileira do século XIX, calcada em exploração de mão-de-obra escravizada num panorama predominante rural dominado por oligarquias agrárias, fazia com que o acesso à leitura e, antes disso, à alfabetização, estivesse restrito à elite prevalecente e a poucos profissionais liberais, homens sobretudo.
Passado um século da criação da Biblioteca Nacional, tendo ocorrido a abolição da escravatura e a ascensão da República, pouca coisa mudara em relação aos indicadores de desenvolvimento humano brasileiros, submersos em um mar de analfabetismo. Em paralelo, o exercício profissional da Biblioteconomia aprimorava-se nos países em graus mais avançados de desenvolvimento, refletindo-se na conjuntura nacional: a primeira metade do século XX assistiu a eclosão das primeiras escolas de formação bibliotecária, que se consagrariam como cursos de Educação Superior e, finalmente, levariam a profissão ao status de regulamentada em 1962.
O ensino da Biblioteconomia parecia ter atingido velocidade de cruzeiro quando, entre as décadas de 1970 e 1980, surgiram os primeiros programas de pós-graduação em Ciência da Informação, a área do conhecimento que daria verniz e direcionamento às pesquisas biblioteconômicas, dedicadas à explosão informacional e aos desafios impostos pela informatização dos catálogos e digitalização dos acervos nos mais variados suportes. Sem esquecer a menção, naturalmente, dos motores de busca e dos dados, ali, indefectíveis, na base da pirâmide informacional. E as bibliotecas?
As bibliotecas multiplicaram-se para além do Rio de Janeiro e Salvador ainda que, em 1990, a taxa de analfabetismo compreendesse cerca de 25% da população adulta. Foi apenas a partir da Constituição de 1988 que a educação passou a ser um direito devido a todos. Se as bibliotecas especializadas viveram o seu apogeu no período subsequente à evolução da formação e à regulamentação profissional da Biblioteconomia, as bibliotecas públicas e as escolares, em especial aquelas mantidas pelo Estado, não passaram a existir em número e qualidade suficientes; o melhor da prática bibliotecária permanecia acessível a uma parcela muito pequena da população.
A profissão, construída obsessivamente sobre paradigmas tecnicistas, colocou-se numa disputa inglória com as disciplinas do campo tecnológico, enquanto enfrentava imensa dificuldade em estabelecer elos com a realidade brasileira mais crua que, de sua parte, passava ao largo das bibliotecas. Se, nas novelas da Globo, a boa turma do Leblon chegava a frequentar vernissages, nunca se viu vivalma em alguma biblioteca carioca. Também não deve haver registros de alguma mocinha bibliotecária; vilãs, tampouco.
Em 2010, a Lei Federal 12.244 definiu que cada estabelecimento escolar do país deveria dispor de, pelo menos, uma biblioteca em até dez anos. Passado o prazo, das mais de 700 escolas do Distrito Federal, cerca de 470 possuem bibliotecas, sendo que o número de bibliotecárias e bibliotecários contratados para administrá-los pode ser contado apenas com o auxílio dos dedos das mãos. As bibliotecas escolares seguem como quimeras intangíveis, inalcançáveis aos profissionais e, principalmente, aos estudantes.
Neste ponto, é quase um acinte não recorrer à velha indagação: pra que serve um bibliotecário? Entre arrumar prateleiras e colar etiquetas, há mais coisas do que sonha a vã filosofia: produzir repertórios bibliográficos, estruturar conteúdos em páginas web, gerir repositórios digitais, organizar fluxos informacionais, empreender pesquisas de fontes de informação, normatizar publicações, produzir conteúdo para redes sociais, atuar como gestor cultural, atuar com mediação da leitura, e, claro, catalogar. O bibliotecário, a bibliotecária podem sobreviver e passar bem fora das bibliotecas, mas as bibliotecas não sobrevivem sem orçamento e sem público.
Como nem tudo está perdido, em ritmo de ciranda, enquanto as bibliotecas especializadas viram gabinetes à revelia de gestores pouco afeitos à sua presença, as bibliotecas públicas sobrevivem da caridade alheia e as escolares não admitem bibliotecários, a Academia volta os seus olhos para ela, a Ciência da Informação, a fim de agregá-la à nomenclatura das graduações. Biblioteconomia e Ciência da Informação parece soar bem; parece revelar os meandros da profissão e adiar qualquer trágico desfecho. Desta feita, vestida de gala, os problemas estruturais que acompanham a Biblioteconomia e as bibliotecas brasileiras possam, enfim, ser superados.
Raphael Cavalcante é integrante da 20. Gestão do Conselho Regional de Biblioteconomia - 1. Região (CRB-1), Gestão 2024-26. É Graduado em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestre em Ciência da Informação também pela UnB. Exerce o cargo de analista legislativo - bibliotecário da Câmara dos Deputados desde 2011. É idealizador e produtor do Biblioteco Podcast, programa voltado para temas ligados à Biblioteconomia e à cultura informacional. E-mail para contato: xrapha@gmail.com
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