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VANDALISMO EM BAGDÁ

Historiador norte-americano discute o significado da "destruição cultural" ocorrida na capital iraquiana

Aconteceu aqui, também. Os britânicos queimaram nossa biblioteca nacional em 1814. É verdade que ela não era grande coisa -apenas uma coleção de cerca de 3.000 volumes reunida para o uso dos senadores e deputados no novo capitólio que estava sendo construído no meio da mata de Washington. Mas, ao destruí-la, os invasores britânicos acertaram um golpe no próprio coração daquilo que mais tarde iria se desenvolver e se transformar numa identidade nacional.

Será que as bibliotecas realmente têm importância para a identidade própria de uma nação? Está claro que os iraquianos sentiram a destruição de sua biblioteca, de seus arquivos e de seu museu nacionais como perda do vínculo que têm com um passado coletivo, algo como uma memória nacional.

Indagado sobre o que o Museu Nacional do Iraque significava para ele, um guarda do museu respondeu entre lágrimas: "Era belo. O museu era civilização". Até mesmo alguns dos saqueadores estão começando a devolver os objetos que levaram embora, como se reagissem à necessidade de curar uma ferida que eles próprios se infligiram.

Primórdios da civilização
As grandes coleções de Bagdá continham testemunhos dos primórdios do que boa parte do mundo enxerga como a civilização. Alguns de seus tesouros datavam de 7.000 anos atrás e continham evidências sobre a primeira e possivelmente a maior conquista da história humana -a invenção da escrita, que aconteceu há 5.000 anos, em algum lugar entre o Tigre e o Eufrates. É verdade que os danos talvez tenham sido menores do que se temeu num primeiro momento e que os arqueólogos podem estudar outros tabletes de argila escavados das ruínas das primeiras bibliotecas do mundo, os tempos sumerianos da Mesopotâmia antiga. Mas não sobrou nada da Biblioteca Nacional do Iraque, que foi queimada até o chão, juntamente com a sede do Ministério de Assuntos Religiosos e sua coleção inestimável de Alcorões, alguns com mais de mil anos de idade.

A biblioteca queimada pelos ingleses na Guerra de 1812 tinha sido criada apenas quatro anos antes. Mesmo assim, sua perda causou um trauma nacional, ou pelo menos foi essa a impressão que teve Thomas Jefferson, que tinha forte consciência da contribuição que as bibliotecas podem fazer ao espírito cívico de uma nação. Já em 1791 ele deplorara os danos provocados pela guerra revolucionária ao registro histórico dos Estados Unidos. Numa carta a Ebenezer Hazard, que estava prestes a publicar dois volumes de documentos de Estado tirados dos arquivos coloniais, Jefferson escreveu: "O tempo e o acidente estão causando estragos diários aos originais guardados em nossos gabinetes públicos. A última guerra fez o trabalho de séculos no que diz respeito a isso. As perdas não podem ser recuperadas, mas salvemos o que restou: não com cofres e trancas que o proteja dos olhos e do uso públicos, consignando-o ao desgaste do tempo, mas por meio de uma multiplicação tamanha de suas cópias que o colocará fora do alcance do acidente".

Assim que tomou conhecimento da perda da primeira biblioteca do Congresso, Jefferson se ofereceu a vender à instituição a sua própria, que era duas vezes maior -uma coleção magnífica de 6.487 volumes que seria avaliada, de maneira conservadora, em US$ 23.950. A proposta suscitou alguns discursos partidários sobre "as bobagens filosóficas e vistosas" -boa parte das quais em francês- que Jefferson tinha colecionado, e a compra foi aprovada pelo Congresso por uma maioria de apenas quatro votos. Mas a Biblioteca do Congresso resiste até hoje como materialização de nossa memória nacional. Imagine uma horda de vândalos queimando e destruindo os Arquivos Nacionais, enquanto um exército estrangeiro estivesse protegendo a sede do FBI e do Departamento do Tesouro, e você pode ter alguma noção de como os iraquianos se sentiram quando as tropas americanas estenderam um cordão protetor em volta dos ministérios do Petróleo e do Interior, ao mesmo tempo em que permitiam que saqueadores destruíssem a Biblioteca Nacional e pilhassem o Museu Nacional por completo. Como muitos observaram, a invasão mongol de 1258 prejudicou a civilização iraquiana menos do que a invasão americana de 2003.

Mas talvez Jefferson estivesse enganado. Serão as bibliotecas e os arquivos realmente vitais para a memória de um país? Pode sua destruição provocar uma espécie de amnésia nacional ou até mesmo o fim de uma civilização?

Biblioteca de Alexandria
O caso mais famoso é o da biblioteca de Alexandria, aquela que teria tido como meta incluir todos os livros do mundo -o mundo helenístico do século 3 a.C.- e cuja destruição assinalou o fim do mundo da Antiguidade. É difícil separar os fatos dos mitos que cercam sua história, mas alguns pontos parecem estar claros: não, Marco Antônio não cortejou Cleópatra com a promessa de lhe dar a biblioteca rival de Pérgamo, nem a coleção de Alexandria, em seu auge, chegou a incluir 900 mil rolos de papiro, embora seja verdade que ela representou o maior cabedal de conhecimento que podia ser encontrado em qualquer parte do Império Romano. Júlio César não a queimou até o chão em 47 a.C., e os muçulmanos não acabaram de dar cabo dela, num acesso de fanatismo, depois de conquistarem Alexandria, em 642. Ela provavelmente já tinha se desintegrado muito antes, não em razão de violência, mas do apodrecimento dos papiros.

Em outras palavras, a biblioteca de Alexandria não teve um final dramático, nada comparável ao que aconteceu com a Biblioteca Nacional em Bagdá.

Mas o fogo e os saques sempre marcaram a história das bibliotecas em momentos cruciais de virada, a começar pelo saque de Atenas, em 86 a.C., quando os romanos pilharam o que restara da biblioteca de Aristóteles, a maior da Grécia, que servira de modelo para a biblioteca de Alexandria. No estudo mais recente feito sobre a biblioteca alexandrina, Luciano Canfora evoca uma série de catástrofes -Atenas, Roma, Pérgamo, Antióquia e Constantinopla- e conclui, com tristeza: "Em meados do século 4º, Roma estava praticamente destituída de livros. (...) Contemplando essa série de fundações, refundações e desastres, seguimos um fio condutor que interliga os diversos e, em sua maioria, vãos esforços do mundo helenístico-romano para preservar seus livros". A perda dos livros significava a perda de uma civilização. Os estudiosos do classicismo conseguiram juntar os pedaços que restaram e montar quadros da Antiguidade, mas é provável que saibamos apenas uma pequena fração do que poderíamos saber se as bibliotecas tivessem sobrevivido.

A obliteração de civilizações não pode limitar-se ao passado distante, onde podemos deplorá-la desde uma distância segura e em tom melancólico: "À glória que foi a Grécia,/ E à grandiosidade que foi Roma".

Vândalos depredam culturas o tempo todo. Eles o estão fazendo hoje, nas selvas da América Central e do sudeste asiático. Grandes extensões de civilização desapareceram de maneira irrevogável alguns anos atrás, quando as bibliotecas de Sarajevo e Bucareste se consumiram em chamas. E o Khmer Vermelho talvez tenha obliterado a maior parte do que se podia saber sobre a civilização do Camboja quando destruiu a Biblioteca Nacional de Phnom Penh.

Aniquilando o passado
Era exatamente esse, de fato, o objetivo do Exército de Pol Pot: aniquilar o passado e recomeçar outra vez a partir do que o Khmer Vermelho chamou de o "ano zero". Não contentes em queimar os livros (pelo menos 80% foram destruídos), eles mataram também os bibliotecários (sobreviveram apenas três dos 60 que havia no país). Os livros mais valiosos eram escritos sobre folhas de palmeira. Como as folhas se decompõem na umidade tropical, elas tinham que ser recopiadas a cada poucos anos por monges budistas. Mas o Khmer Vermelho também destruiu os monges, de modo que não sobrou ninguém para salvar o que restara da biblioteca -que, desde então, apodreceu em meio às ruínas.

Poucas pessoas se dão conta da fragilidade das civilizações e do caráter fragmentário dos conhecimentos que temos a seu respeito. A maioria dos estudantes acredita que aquilo que lê nos livros de história corresponde ao que a humanidade viveu no passado, como se tivéssemos recuperado todos os fatos e os enfileirado na ordem correta, como se tivéssemos tudo sob controle, escrito em preto e branco e embalado em segurança entre as capas de um livro didático. A ilusão se dissipa rapidamente para qualquer pessoa que já tenha trabalhado numa biblioteca ou num arquivo.

Desconhecimento
Você encontra uma pista numa fonte publicada, vai atrás de uma referência num catálogo, segue uma trilha de papel, passando por caixas de manuscritos -mas o que encontra no final? Apenas alguns poucos fragmentos que, de alguma maneira, conseguiram sobreviver para servir de evidência do que outros seres humanos viveram em outros tempos e outros lugares. Quanto desapareceu sob os escombros? Não conhecemos nem sequer a extensão de nosso desconhecimento.

Assim, por imperfeitos que sejam, bibliotecas, arquivos, museus, escavações arqueológicas, pedaços de papel e fragmentos de cerâmica constituem tudo o que podemos consultar para tentar reconstruir os mundos que perdemos. A perda de uma biblioteca ou de um museu pode significar a perda de contato com um traço vital da humanidade. Foi isso o que aconteceu em Bagdá. Quando a perda lhe foi relatada, o secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, não parece ter se abalado. "Já tivemos saques neste país", explicou, num briefing no Pentágono. "Já vimos tumultos em partidas de futebol em vários países do mundo." Próxima pergunta.
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Robert Darnton é professor de história européia na Universidade Princeton, autor, entre outros, de "O Grande Massacre dos Gatos" (Graal), "Edição e Sedição" e "Boemia Literária e Revolução" (ambos pela Companhia das Letras).
Tradução de Clara Allain

Autor: Robert Darnton
Fonte: Folha de São Paulo. 04 de maio de 2003. Caderno Mais, p.10-11

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.