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BIBLIOTECA PÚBLICA: SEU LUGAR NA CIDADE

Cidade é um termo usado, em geral, de forma equivocada, vista como uma coisa homogênea e linear. Uma cidade, antes de tudo, é o produto de suas relações internas e externas que geram modificações constantes e se caracteriza por uma constante divisibilidade.

 

Parece que é uma complicada equação matemática? É muito mais que isso.

 

A biblioteca pública, assim como a escola, a delegacia, o centro de saúde é um serviço público tradicional e conhecido do morador da cidade, isso não significa que seu papel esteja claro e tampouco seja imutável.

 

Qual o papel da biblioteca pública em cidades onde as necessidades de cada região diferem substancialmente? Quais as medidas a serem implementadas que coloquem a biblioteca mais sintonizada com os interesses de uma população heterogênea que tem em seus anseios convergências e contradições?

 

Um sistema democrático de acesso à informação e a leitura deve respeitar a diversidade de interesses e abrir possibilidades de integração do indivíduo no campo decisório desse sistema.

 

Não se trata, portanto, de apresentar ao cidadão mudanças que venham a transformar o sistema das bibliotecas públicas em algo que ele não possa compreender e participar sem paternalismos. Isso já existe e está provado: não funciona.

 

Essas questões que à primeira vista parecem óbvias e redundantes, possivelmente sintetizam os desafios que enfrentamos diariamente na biblioteca pública. A necessidade de mudança é consenso, mas mudar, o quê, e para quem?

 

Uma política para a biblioteca pública, como de resto qualquer política que vise contemplar o interesse público, não pode ser colocada de forma acabada, mas deve respeitar processos e etapas. A clareza, a objetividade são elementos essenciais, a participação democrática, indispensável.

 

O elemento livro ou qualquer suporte que veicule informação é um ingrediente fundamental para compor o imaginário de uma cidade. Relacionar o índice de qualidade de vida ao acesso à leitura e informação é uma decisão que pode mudar o rumo de uma cidade.

 

Tanto se fala em promoção da leitura e formação de leitores, e muitas vezes é esquecido o fato de ser a biblioteca, um dos principais espaços da leitura e da informação.

 

A biblioteca pública durante muitos anos cumpriu o papel de apêndice da escola, suprindo a falta de bibliotecas escolares. Devido ao grande contingente de alunos que a freqüentava ficou firmado no imaginário das pessoas que a biblioteca cumpria apenas essa função.

 

Além do mais, alunos e pesquisas trazem consigo, obviamente, necessidades ligadas ao currículo e ao universo escolar. Biblioteca pública e escola são instituições que não dialogam como podem compartilhar serviços? Esse hiato entre uma instituição e outra agravou o anacronismo dos serviços prestados.

 

Essa condição levou as bibliotecas a uma constante adaptação a situações que lhe eram estranhas. Os alunos compõem um dos públicos da biblioteca, mas a hegemonia desse perfil limitou o espaço de atuação da instituição para atender a outras demandas da população.

 

Nos últimos anos devido ao advento da internet e algumas mudanças curriculares e de postura dos professores em relação a trabalhos escolares, a biblioteca pública vem perdendo muito rapidamente, também, esse público para o qual tentou adaptar seus serviços durante muitos anos.

 

Descrita assim, pode nos trazer a impressão que a biblioteca pública seja um aparelho totalmente sem função na vida da sociedade. Será verdade? Sim e não.

 

Justamente no momento em que a informação ocupa um papel muito importante na correlação de forças da sociedade, a biblioteca aparece como uma instituição totalmente sintonizada com os interesses mais prementes da população.

 

A demanda por informação, a formação de leitores e a necessidade de fruição de um espaço cultural são fatores que colocam a biblioteca e seus mediadores (bibliotecários e demais funcionários) como itens de vital importância para a vida de uma cidade.

 

Porém, para fazer jus a essa condição a biblioteca pública precisa passar por correções de rumo e pela adequação de seus serviços.

 

A condução da biblioteca pública rumo aos interesses e necessidades da população passa principalmente por uma análise do perfil dessa população. Questões como:

 

1 - quem é essa população;

 

2 - como a população vê a biblioteca pública nesse momento;

 

3 - quais suas demandas informacionais e também suas necessidades de fruição;

 

4 - que biblioteca essa população quer para si?

 

A partir do conhecimento das pessoas que freqüentem e que potencialmente possam freqüentar a biblioteca começa-se a delinear seu verdadeiro perfil e identidade. Conhecer a cidade e conhecer o citadino.

 

Sendo assim, esse período transitório de crise (assim esperamos) e a busca por um novo público podem ser encarados como um momento de transformar a biblioteca pública em um verdadeiro organismo vivo para e com a cidade.

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Ricardo Queiroz Pinheiro é bibliotecário em São Bernardo do Campo.

Autor: Ricardo Queiroz Pinheiro

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.