TEXTOS GERAIS


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REFLEXÕES ANGUSTIADAS SOBRE A CATALOGAÇÃO

Acabei de ler há uns quinze dias um belíssimo livro intitulado “As cruzadas vistas pelos árabes”, de Amin Maalouf (1). Além de uma obra fundamentada em textos históricos, a narrativa flui suave e bem escrita pelas mãos do autor. Fica-nos da leitura a impressão de que os ocidentais conseguiram estabelecer-se em parte do Oriente Médio, durante dois séculos na Idade Média, pela absoluta desunião entre os povos árabes. Fanatismo de um lado, brigas de poder o mais das vezes e ganância de todos permitiram que etnias mais despreparadas e incultas, como os franceses, ingleses e outros europeus medievais, dominassem civilizações mais antigas e detentoras de muito maior conhecimento. Tais fatos literariamente retratados, com as devidas proporções, remetem à Biblioteconomia e em especial à área da Representação em nosso país. 

 

Na catalogação brasileira de hoje, vivemos um momento de fanatismo, disputas de poder e alguma ganância, o que sempre, historicamente, redunda em perda para todos. Bibliotecários carentes de uma identidade profissional (2) catalogadores sem identidade e com muitas crenças diferentes, até mesmo opostas, debatem a catalogação e entre si. Há anos Gorman (1975)(3) já levantava o problema, em texto referente ao de Osborn (1941)(4), distinguindo quatro tipos de catalogadores (não necessariamente nesta ordem): o decadente, o piedoso, o mecanicista inflexível e o funcionalista. Vale relembrá-los.

 

O decadente, ou perfeccionista da representação, para nossa sorte, encontra-se em vias de extinção (nada a ver com a poluição ambiental, porém com a documental). O acúmulo e a diversidade de registros do conhecimento não mais permitem que qualquer ser catalográfico se perca em minúcias da descrição bibliográfica. Nem mesmo os catálogos mais automatizados e bem feitos do mundo atingem a perfeição.

 

O piedoso é aquele nosso sobejamente conhecido, cujo texto sagrado são as AACR2 (5). Segundo Gorman: “Há evidências convincentes de que a catalogação seja uma forma de religião para algumas pessoas”. Agora, devido a novas tendências, mudará automaticamente para o código RDA (6), porém continuará a inclinar-se e a genufletir sempre para o norte, em direção à ALA (7) e à Library of Congress dos Estados Unidos da América do Norte (que participa ativamente da elaboração dos códigos para língua inglesa, mas também cria suas próprias regras e interpretações).

 

O mecanicista inflexível, se algum dia foi um catalogador, hoje freudianamente se projeta como um analista de sistemas. Existe um momento ainda a ser pesquisado na Biblioteconomia (pelo menos na nossa), em que os bibliotecários chegam ao nível mais baixo de auto-estima, considerando-se menores do que os analistas de sistemas, os engenheiros, os economistas, os professores de Letras e Lingüística, os jornalistas, enfim, de que quaisquer uns não bibliotecários. E o catalogador mecanicista inflexível acreditou, tão fanaticamente quanto o piedoso e seu código, que a máquina resolveria todos os problemas e que um novo “sistema de informações”, um novo “software”, um novo “banco de dados” foi, é e será sempre a solução de todos os registros do conhecimento acumulados à espera da fada com sua varinha mágica. Todavia, a fada há muito se desencantou; e a varinha mágica, quiçá transformada em computador mágico, tornou-se a vassoura da bruxa, que leva os seres, os registros do conhecimento e os catálogos a se tornarem perdidos no ciberespaço. Volto já ao tema, objeto central desta reflexão um tanto cáustica e muito angustiada, porém de coração aberto.

 

O funcionalista do qual falava Gorman, ah! este também não mais existe. Extinguiu-se por falta de espaço no meio biblioteconômico. Resolver problemas, administrar bibliotecas, atender seu usuário da melhor forma possível, buscar novos usuários? Não. Precisamos fazer estatísticas, demonstrar custos-benefícios, desenvolver estudos de usuários (na verdade, estudos de uso de coleções existentes), comprar menos, gastar menos, usar estratégias mercadológicas, atrair “clientes”, gerir “informações” (e até conhecimentos, dizem alguns!), enfim, gerenciar uma biblioteca como se fosse uma empresa lubrificada e lucrativa. Não há lugar para funcionalistas, nem para idealistas. Estes, definitivamente, se não se aposentaram, foram enterrados vivos, menosprezados pelos demais como sendo “apenas bibliotecários”.

 

Se a isso chegamos a ponto de perdermos nossa identidade, sem sabermos o que somos e a que viemos, alguns grupos de estudos, no Brasil e no exterior, preocupam-se com o tema e, provavelmente, porque educação se faz a longo prazo, esperam-se novas gerações que compreendam a Biblioteconomia em todo seu valor e potencial.

 

Minha preocupação maior se volta à catalogação, não por ela em si mesma, porque vai  relativamente bem e renovada, obrigada; mas por seu papel e pelo que perderemos irreversivelmente a continuarmos no caminho ora trilhado.

 

Uma digressão necessária: sou bibliotecária e professora de biblioteconomia (precisamente catalogação), agora aposentada, nos últimos trinta anos. Cansei de ser chamada de “referencial teórico”, porque na verdade só escrevi dois textos realmente teóricos na área de catalogação: minha dissertação de mestrado que, graças à pessoa e orientadora maravilhosa Profa. Cordélia Robalinho Cavalcanti, saiu melhor que a encomenda; e algumas (poucas) partes da minha tese de doutorado, das quais gosto particularmente. Da segunda derivaram-se dois artigos teóricos, que acredito serem praticamente desconhecidos. Todos os outros trabalhos se dirigem à graduação, ao ensino de catalogação, sem maiores pretensões. Sinto-me triste quando me citam com relação a esses textos menores, porque significa que não consegui, absolutamente, passar minha mensagem. Ensinei o que pude e pensava, mas não convenci ninguém (exceto uns dois ou três, que não chegam aos cinco dedos de uma das mãos). E, cada vez mais, nisso acredito e disso me apercebo. Agora aposentada, sinto-me livre para os desabafos e para escrever o que penso. (Sempre podem dizer que fiquei “gagá”.)

 

Primeiro, a guerra entre clãs, semelhante àquelas guerras árabes ao tempo das cruzadas. Fulano pode traduzir o código, Beltrano não pode; Cicrano faz isso ou fez aquilo e assim por diante. Tal pessoa, ao despender seu tempo traduzindo um texto para uso geral, cometeu um lapso “na quarta palavra da terceira linha do vigésimo parágrafo” e, com isso, “a tradução não é digna de confiança”. E vão por aí afora as críticas, as picuinhas, as mediocridades e, em conseqüência, nada avança; seja pela crítica, seja pelo medo de ser criticado. Os clãs nunca se juntam para um objetivo comum. Em resumo, os FRBR estão disponíveis e em uso há dez anos, as ISBDs há mais de trinta e... não existem traduções em português do Brasil. As AACR2 saíram em 1978, constantemente atualizadas, e a tradução brasileira, apenas em 1983-1985. Depois das mudanças de 1988, nossa edição só veio a público em 2004, baseada no texto de 2002. Andamos sempre atrás da carruagem, sem sequer pensar nas necessárias adequações ao contexto brasileiro. Aí vem a segunda guerra: o código precisa ser traduzido e entendido “ipsis litteris” e “ipsis verbis”. Não importa o uso no Brasil, mesmo que fruto de acordos (o Brasil sempre está em apêndice ou nota de rodapé).

 

Não bastassem as guerras entre os clãs de catalogadores fiéis e piedosos, iniciam-se as sublevações locais: “uso o código, com adaptações”, “uso o código, mas com referências bibliográficas”; “não uso o código, porque não gosto dele”; “não uso o código, porque meu sistema não permite” (como se nos dias de hoje isto fosse admissível); “uso o código, mas com as restrições do meu sistema”; ou a melhor de todas: “não uso o código, porque não atende ao meu usuário”.  É preciso dizer que: se seu sistema não permite, exige adaptações, cria restrição, seu sistema é que não serve. Não há essa de adaptações, referências bibliográficas e assemelhados. Apenas quem desconhece o código e todas as outras normas internacionais se permite aquelas assertivas. Se conhecesse, saberia que existe um elenco mínimo de informações para identificação do registro do conhecimento e um elenco mínimo de informações para recuperação por meio de pontos de acesso. Cada um escolhe o tamanho de seu registro. Porém, como em todas as linguagens, inclusive as de automação, existe uma semântica e uma sintaxe. Isso faz lembrar a música de Noel Rosa:

 

“você que atende ao apito de uma chaminé de barro”,

por que não atende ao grito tão aflito da buzina do meu carro?”

 

Pois é, todo mundo atende ao apito de seu micro, com todas as sintaxes exigidas no mais conversacional dos programas; porém, ao grito aflito da sintaxe catalográfica, essas mesmas pessoas nada ouvem e se recusam a atender!

 

E agora chegamos ao problema maior: a mania, desde a década de 1970 (aliás, acho que isso é moda ainda dos anos 70, como se esses anos nos trouxessem boas lembranças), de cada um desenvolver seu sistema! Pensei que o surto epidêmico tivesse acabado, que as pessoas finalmente percebessem que o melhor sistema é aquele em que se pode cooperar com seus iguais, seja em áreas multidisciplinares, seja em áreas especializadas. Qual o melhor sistema para Medicina? Aquele que permite o diálogo com a BIREME, a OMS, a OPAS, outras bibliotecas/centros de informação latino-americanos na área de saúde e, até, com a National Library of Medicine. Qual o melhor sistema para bibliotecas universitárias? Aquele que permite dialogar, trocar figurinhas (isto é, registros bibliográficos), com o maior número possível de outras bibliotecas universitárias. E para bibliotecas públicas e escolares? O sistema gratuito da Biblioteca Nacional, pelo volume e atualidade dos registros bibliográficos brasileiros da BN. E para as Bibliotecas Nacionais? Os sistemas das próprias Bibliotecas Nacionais. Não há cabimento algum em desenvolver sistemas novos para algo que já existe e está gratuitamente disponível!!!

 

Não tenho nada contra todos os profissionais bibliotecários empreendedores ganharem rios de dinheiro em consultorias diversas. Consultem à vontade, ganhem muito, valorizem a profissão, organizando acervos com sistemas já existentes. Parece um pouco tarde para reinventar a roda e um pouco cedo para criação de novos paradigmas por quem desconhece a área.

 

Por favor, queiram ter a gentileza de raciocinar: por que gastar novamente dinheiro público, que já foi gasto, para constituir um novo sistema, certamente imperfeito como o são todos os outros? Por que gastar dinheiro público com recatalogações muitas vezes pessimamente realizadas e intermináveis, se estas já se encontram prontas e disponíveis na internet? Não entendo e não posso avalizar tais idiossincrasias.

 

E é por tudo isso que não me considero “referencial teórico”. Sou apenas uma bibliotecária velhota aposentada, enquanto todos aqueles que conviveram comigo continuarem a desenvolver e a vender “novos sistemas”. Uma circunstância deprimente.

 

Para revertê-la, basta uma única iniciativa: COOPERAR. (Bom, na verdade duas: também acalmar as pulsões egotistas). Cooperação, mais do que uma atividade, é um pensamento, uma reflexão, uma atitude. E isso é o que importa, no fim de tudo.

 

NOTAS

 

(1) MAALOUF, Amin. As cruzadas vistas pelos árabes. São Paulo: Brasiliense, 2007._

 

(2) Um dos mais importantes sobre o tema:

Oliveira, Zita Catarina Prates de. O bibliotecário e sua auto-imagem. São Paulo: Pioneira, 1983. 98 p.

Entre os mais recentes, selecionaram-se apenas três sobre a questão da identidade, entre muitos de literatura significativa:

WALTER, Maria Tereza M. T. Bibliotecários no Brasil: representações da profissão.  2008. Tese (doutorado)—Universidade de Brasília, Departamento de Ciência da Informação e Documentação, 2008. Disponível em: <http://bdtd2.ibict.br/index.php?option=com_wrapper&Itemid=40>. Acesso em: nov. 2008.

SOUZA, Francisco das Chagas de. O ensino de biblioteconomia no Brasil e aspectos de sua dimensão curricular: um exame dos ditos e não ditos na coleção documentos ABEBD. In: ENANCIB, 9., 2008, São Paulo. [Anais]. Disponível em: < >. Acesso em: nov. 2008.

GUIMARAES, J. A. C. (Org.) ; FUJITA, Mariângela Spotti Lopes (Org.) . Ensino e pesquisa em Biblioteconomia no Brasil: a emergencia de um novo olhar. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2008. 264 p.

 

(3) GORMAN, Michael. Osborn revisited, or, The catalog in crisis; or, Four catalogers, only one of whom shall save us. American Libraries, v. 6, n. 10, Nov. 1975.

(4) OSBORN, Andrew D. The crisis in cataloging. In: CARPENTER, M.; SVENONIUS, E. (eds.). Foundations of cataloging. Littleton: Libraries Unlimited, 1985. p. 92-103.

 

(5) AACR2: Anglo-American cataloguing rules.

 

(6) RDA: Resource description and access. Volto ao tema em texto próprio.

 

(7) ALA: American Library Association. Editora e detentora dos direitos autorais dos códigos anglo-americanos._

 

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Eliane Serrão Alves Mey (elimey@ufscar.br) - Graduação em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília (1978), mestrado em Ciências da Informação pela Universidade de Brasília (1986) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1999). Atualmente é professora adjunta aposentada da Universidade Federal de São Carlos. Publicou seis livros, vários artigos em periódicos nacionais e internacional, assim como apresentações em congressos nacionais e internacionais, o último na Índia em dezembro de 2008.

 

Autor: Eliane Serrão Alves Mey

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.