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MANISFESTO EM DEFESA DA BIBLIOTECA ESCOLAR

  • Autor não informado
  • Abril/2009

No contexto do projeto de ensino-aprendizagem, a biblioteca escolar apresenta-se como um centro de aprendizagem cuja função pedagógica está relacionada a: a) uma ação em prol da leitura, do incentivo à criação do gosto de ler; b) a pesquisa escolar  e ao trabalho intelectual que proporcionarão ao educando meios para melhor desempenhar seus papéis sociais; e c) a ação cultural com vistas a favorecer o entendimento de identidade do cidadão no espaço em que vive. A biblioteca escolar não somente lida com as demandas do aluno, mas, sobretudo, atua no contexto do projeto político-pedagógico da escola, através do trabalho conjunto com o professor e a gestão escolar.


Segundo o Manisfesto da UNESCO, a biblioteca escolar é o espaço que “[...] promove serviços de apoio à aprendizagem e livros aos membros da comunidade escolar, oferecendo-lhes a possibilidade de se tornarem pensadores críticos e efetivos da informação, em todos os formatos e meios”, ou seja, competentes em informação.


As entidades e pessoas físicas que assinam este Manifesto expõem sua preocupação com o momento pelo qual passa a educação no Brasil, com baixos índices de aprendizagem dos alunos, mensurados tanto pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), quanto pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), demonstrando que os estudantes brasileiros não possuem competência em leitura e escrita. Diante deste fato, acredita-se que se as instituições de ensino investirem na criação de espaços de bibliotecas bem equipadas, com acervos que atendam ao projeto político pedagógico das escolas e administradas por profissionais bibliotecários, esta triste realidade poderá sofrer significativa transformação.


Alguns documentos elaborados pelo Ministério da Educação apontam para a importância da biblioteca na prática da leitura e escrita, um dos maiores problemas da educação atualmente, dentre estes citam-se os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN's), que, no módulo de Língua Portuguesa cita a biblioteca como um espaço apto a influenciar e incentivar a prática da leitura e escrita.


O Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) distribui acervos para bibliotecas escolares. No que pese ser esta a única iniciativa desenvolvida o âmbito da federação para as bibliotecas escolares1, é tácito afirmar que tal Programa não atende as expectativas no contexto no qual se inserem as discussões apresentadas, pois, se as escolas não possuem bibliotecas e muito menos bibliotecários, como estão sendo dinamizados esses acervos?


De fato, os diagnósticos existentes no País acerca das condições das bibliotecas escolares, bem como as decisões emanadas do Tribunal de Contas da União (TCU) em seus Acórdãos n.604/2004 e n.1287/2005, apontam que a grande maioria dos responsáveis técnicos e diretores das escolas não tem noção dos serviços que podem ser oferecidos pelas bibliotecas, o que impede a criação de muitas oportunidades e que essas bibliotecas atuem como ambientes de busca e aprimoramento de conhecimentos. Os diretores das escolas e os responsáveis técnicos não têm domínio sobre a concepção do funcionamento de uma biblioteca e se arriscam a apontar a dimensão do espaço físico destinado a leitura como única diferença entre biblioteca e sala de leitura: a biblioteca seria aquela com maior espaço físico, a despeito da constituição do acervo, serviços oferecidos e nível de tratamento e organização das obras. Ainda, é oportuno destacar que, na maioria dos casos, o horário de atendimento não é regular nem suficiente para atender aos estudantes, sendo que os raros frequentadores pouco usam ou têm consciência de suas potencialidades em termos de serviços. Os dados do Censo Escolar 2004 destacam que 51,7% dos alunos do ensino básico e profissional dispõem de bibliotecas escolares, não permitem inferir que estes discentes de fato as usem, ou, pelo menos, reconheçam a existência destes espaços para mediar seu processo de ensino-aprendizagem.


Considerando que uma das atividades a ser desenvolvida pela biblioteca escolar é o incentivo à leitura, o Instituto Pró-Leitura (IPL) efetuou, no primeiro semestre de 2008, a segunda edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que se constitui no principal estudo sobre o comportamento do leitor no País, na expectativa de contribuir para a avaliação dos impactos das políticas públicas que possibilitem o acesso ao livro e à leitura, visando identificar as que efetivamente trouxeram resultados no incentivo ao gosto de ler. Dentre suas conclusões, com relação aos dados levantados sobre o uso  de bibliotecas, a pesquisa aponta para a necessidade de a escola assumir verdadeiramente seu papel de formadora de leitores, intensificando sua ação em todas as direções que se relacionam com o gosto pela leitura.


Ressalta-se que a biblioteca escolar, embora se constitua em um espaço de aquisição e disseminação de cultura e informação, apresenta-se carente das condições adequadas para ofertar um serviço cidadão, no sentido de que está impedida de viabilizar um processo de democratização da informação com amplo acesso aos meios de cultura, uma vez que a sua existência está condicionada única e exclusivamente à presença de acervo, e não à oferta de serviços capazes de promover o acesso aos saberes registrados nos artefatos culturais que a biblioteca escolar deve disponibilizar.


Nessa abrangência, o Sistema CFB/CRB compreende que o trabalho da biblioteca escolar há de ter como ponto de partida o contexto da escola, seu projeto pedagógico e a cultura geral que compõe o conjunto de saberes que fundamentam e dão sentido ao modo de vida e à existência de cada membro da comunidade escolar. Isto implica analisar uma dada realidade, refletindo sobre as condições existentes e prever as formas alternativas de ação para superar as dificuldades ou para alcançar os objetivos desejados pela proposta pedagógica desenvolvida no âmbito da escola.


O gasto de numerário público, como já destacado, em simples aquisição e distribuição de acervo, principalmente composto de livros, sem abranger a existência, organização e manutenção de bibliotecas fere o interesse público, já que em última instância, esses recursos são extraídos dos cofres públicos a partir da arrecadação efetuada através do contribuinte, configurando-se em malbaratação do patrimônio cultural, que falsamente está sendo construído, pois a informação não cumpre o seu potencial de circulação, seja em termos sociais ou geográficos ou melhorando o nível de conhecimento do aluno e dos educadores em geral.


Mais do que propor o exato modelo de bibliotecas escolares, as organizações abaixo-assinadas reivindicam o respeito aos princípios estabelecidos na Constituição Federal (1988), no que tange ao direito do cidadão em ter acesso a um espaço no qual a informação concretiza seu papel social, democratizante, vez que não se pode pretender que o acervo não processado de forma técnica, científica, atenda a essa função que, por ser social é garantia da construção da cidadania. É exatamente, diga-se de outro modo, a informação que se organiza, processa e se dissemina, após  receber tratamento adequado, que poderá atender ao cidadão em amplo raio de demandas e níveis de compreensão.

 

 

                   Brasília, 20 de março de 2009.

 

 

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.