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UM TERÇO DAS MULHERES BRASILEIRAS NUNCA FOI AO CINEMA

A mulher brasileira do século XXI não tem uma vida cultural agitada. Prefere se divertir no ambiente doméstico ou procura restringir suas principais atividades de lazer a ambientes familiares e pessoais. Não são muito consumidoras de produtos culturais e grande parte das brasileiras nunca teve acesso a determinadas atividades, como o cinema, por exemplo. Essa é a conclusão a que chegou uma pesquisa nacional realizada pela Fundação Perseu Abramo, intitulada "A Mulher Brasileira nos Espaços Público e Privado".

O trabalho foi desenvolvido pelo Núcleo de Opinião Pública (NOP) da fundação e teve como objetivo principal conhecer como se vêem e o que pensam as mulheres brasileiras. Uma equipe coordenada pelo sociólogo Gustavo Venturi formulou 125 perguntas que foram feitas para uma amostra de 2,5 mil entrevistadas. A pesquisa incluiu mulheres de todas as classes sociais e regiões do país, a partir de 15 anos, residentes nas capitais, regiões metropolitanas e municípios do interior, tanto em áreas urbanas como rurais.

Os temas abordados nas questões puderam revelar como e onde vivem as mulheres brasileiras, em quais condições, qual sua posição no mercado de trabalho, na sociedade, condições de sua saúde, educação, seu posicionamento político, entre outros. "É um trabalho importante porque dá voz a uma classe discriminada e que representa mais da metade da população brasileira", diz Venturi. "Saber como vivem essas mulheres, o que pensam e que tipo de violência ainda sofrem é fundamental para tentar resolver seus problemas."

A amostra da pesquisa representa um universo de 61,5 milhões de mulheres. O levantamento mostrou que a maior parte delas se concentra no Sudeste (44%), seguido pelo Nordeste (27%), Sul, (15%), Norte e Centro-Oeste (7% em cada região). A maioria de 84% vive em regiões urbanas, sendo 61% em cidades do interior e 39% nas capitais e regiões metropolitanas.

No campo de lazer e consumo cultural o que surpreendeu os pesquisadores foi a preferência das mulheres por atividades em seu ambiente doméstico. A pesquisa revelou que as principais atividades de lazer são realizadas no ambiente familiar e principalmente nos fins de semana. Aos sábados e domingos, 31% delas ocupam o tempo livre com o lazer em casa - 16% preferem assistir a televisão, vídeos e novela, 4% dedicam-se à leitura, 3% preferem ouvir música e o restante prefere dormir.

Como a pesquisa foi realizada apenas com mulheres, não é possível saber se elas têm menos acesso aos produtos culturais do que os homens. "Mas, com base em um outro trabalho que realizamos com jovens, em 1999, percebemos que geralmente as mulheres têm menos tempo do que os homens para consumir produtos culturais", explica Venturi. "E isso porque elas se ocupam mais das atividades domésticas."

Os dados do trabalho mostram, ainda, que 30% das brasileiras dedicam seu tempo ao lazer fora de casa, mas, dessas, 10% preferem visitar parentes ou amigos, 6% preferem passear e 5% buscam lazer noturno em danceterias. As atividades religiosas são as preferidas de 12% das mulheres entrevistadas, enquanto 9% optam pelo lazer cultural, ainda que este se limite a atividades realizadas em casa.

Durante a semana, as atividades de lazer praticadas no ambiente doméstico é ainda maior (53%). As atividades culturais são a segunda opção (13%), à frente das atividades religiosas, que são praticadas como lazer por 6% delas. Apenas 5% praticam atividades de lazer ou cultura fora de casa de segunda a sexta-feira.

Os pesquisadores relacionaram algumas atividades culturais para estimular as respostas e conhecer a freqüência com que são praticadas pelas mulheres. Os resultados também foram surpreendentes. Além de indicar a baixa freqüência das mulheres nessas atividades, mostraram que muitas delas nunca sequer praticam algumas delas.

Um terço (ou 19 milhões) das brasileiras nunca foi ao cinema. Mais da metade (55%) já foi, mas não no último ano, e apenas 15% foram ao cinema no último ano. Quando o assunto é teatro, a freqüência é ainda mais baixa. Mais de 39 milhões de mulheres (64%) nunca assistiram a uma peça, 28% já viram alguma vez e só 8% foram ao teatro no último ano. "Esses números podem ser interpretados de duas formas", diz o sociólogo. "Por um lado, mostram que realmente as mulheres não têm muito acesso aos produtos culturais. Por outro, mostram o nível altíssimo de desigualdade do Brasil, uma vez que os números variaram muito de uma região para outra."

As apresentações musicais são um pouco mais freqüentadas. Ainda assim, 34% das mulheres nunca assistiram a um show, ante 31% que foram a uma apresentação no último ano e 35% que já foram pelo menos uma vez. Das entrevistadas, 64% também nunca freqüentaram uma biblioteca e 13% foram a alguma no último ano. O questionário relacionou ainda como atividade de lazer ou cultural a participação em debates públicos. Nesse caso, 70% das mulheres nunca participaram e apenas 12% foram a algum debate no último ano.

Os números revelaram, por outro lado, que uma das atividades preferidas das mulheres é o lazer ao ar livre: 38% praticaram esta atividade no último ano e delas 17% praticaram nos 30 dias que antecederam a entrevista. Logo em seguida, a atividade preferida é o passeio em shopping centers. Quase um quarto das entrevistadas (24%) foram a um shopping no mês que precedeu a pesquisa. Apesar disso, ainda há 34% de mulheres que nunca foram um lugar desses.

As mulheres também freqüentam com mais regularidade festas na casa de amigos: 30% responderam que praticaram essa atividade nos últimos 30 dias e 29% no último ano. Mas os locais de cultos religiosos superaram os shoppings e as festas. Dois terços das mulheres brasileiras compareceram a algum culto no mês que antecedeu a pesquisa. Isso representa 39 milhões de pessoas. Outras 19% foram a um culto no último ano e apenas 3% delas nunca foram a nenhuma igreja ou templo.

A pesquisa mostrou também que 31% das entrevistadas foram a bares com amigos no último ano, mas 45% nunca fizeram isso. Muitas mulheres (39%) também nunca foram a um restaurante, ante 35% que freqüentaram algum também no último ano.

Além de revelar dados sobre a mulher brasileira desconhecidos da sociedade e das autoridades, a pesquisa da Fundação Perseu Abramo conseguiu, segundo o sociólogo Gustavo Ventura, dar dimensão e aferição a outros problemas já conhecidos, mas de difícil solução. "Todos sabíamos, por exemplo, que as mulheres eram vítimas de violência. Mas descobrimos agora que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil", revela o pesquisador. A pesquisa está disponível na internet, no endereço: www.fpabramo.org.br.

Autor: Carolina Juliano
Fonte: Valor Econômico, v.3, n. 461, Quinta-feira, 7 de março de 2002

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.