TEXTOS GERAIS


  • Textos Gerais

O ÚNICO BANCO QUE NÃO DÁ CERTO É O DE TESES

Nos últimos sete anos o Brasil foi governado por um professor da Universidade de São Paulo. Ele tem como ministro da Educação um ex-reitor da Universidade de Campinas e como ministro da Cultura um ex-colega da USP. Pois apesar dessa abundância cerebral nos jantares do Alvorada, armou-se um desastre ecológico com as teses de doutorado e dissertações de mestradoproduzidas em Pindorama. Desde 1995 deixou de existir um arquivo central desses trabalhos. Hoje, a comunidade acadêmica brasileira produz 18.500 dissertações de mestrado e 5.350 teses de doutorado a cada ano. São arquivadas nas instituições onde foram produzidas e ponto final. Não há acervo unificado, muito menos catálogo. Tem gente pesquisando na Biblioteca do Congresso, em Washington, para descobrir o que se produz em Maceió. Os professores Cardoso, Paulo Renato Souza e Francisco Weffort poderiam dizer que isso é produto da herança escravocrata. Infelizmente, é produção do tucanato. Uma velha lei determinava que toda tese defendida em universidade brasileira deveria ter uma cópia remetida à Biblioteca Nacional. No início do século XX esse foi um trabalho fácil, porque tratou-se de guardar menos de 3 mil trabalhos.

Entre 1979 e 1985, a guarda e a catalogação da produção acadêmica dançaram na feira de grandiloqüências da burocracia pedagógica. Teve-se a idéia de criar um Banco de Teses. Fazê-lo ficou a cargo de um pomposo Centro de Informática da Secretaria Geral do MEC. Um ano depois, a tarefa passou para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes. Os trabalhos (ainda em papel) iam para a Universidade de Brasília. Quando faltou espaço, ela capitulou e passou-se a renegociar a guarda com a Biblioteca Nacional, para onde foram 8 mil títulos.

Faltou espaço para guardar a papelada e mão-de-obra para catalogá-la e voltou-se ao ponto de partida. Entre 1987 e 1990 assinaram-se três convênios, com o Ministério da Cultura, com a Fundação Ford e com três empresas privadas. Processaram-se cerca de 10 mil obras, mas continuavam chegando 600 por mês. Em 1995, a Biblioteca Nacional tirou o time. Informou às instituições de ensino superior que a guarda das dissertações e teses ficaria a cargo de cada uma delas, coisa que sempre aconteceu.

A biblioteca jogou n'água a idéia da centralização. Isso aconteceu e continua acontecendo numa época em que as teses não são mais calhamaços. Toda a produção acadêmica nacional ao longo de um ano cabe num disco de 250 gigabytes. Para se ter uma idéia grosseira do custo desse armazenamento, os computadores que se compram em lojas vêm com discos onde cabem 40 gigabytes. Eles valem em torno de R$ 400,00. Custam menos que as estantes onde ficava o papelório. Deu-se uma revolução na informação, mas a turma de Brasília não notou.

A idéia do Banco de Teses reapareceu, agora na Capes. Por enquanto, é apenas uma idéia que leva a uma pergunta: o que é que a Capes, entidade avaliadora de escolas e financiadora de bolsas, tem a ver com um serviço de biblioteca?

É verdade que a Biblioteca Nacional acaba de editar um livro de 3 quilos sobre sua coleção de assuntos brasileiros e nele não há uma só palavra sobre as teses que guarda. Noutro, de 1996, pelo menos havia uma. Se ela não quiser fazer o serviço, a Biblioteca do Senado poderá fazê-lo. Ou o Arquivo Nacional. Montar um Banco de Teses à Capes seria coisa parecida com entregá-lo ao Banco Central. O BC, comprovadamente, tem carinho por bancos.

Evita-se discutir em público a resistência de alunos e professores à colocação de seus trabalhos à disposição da patuléia. Nos casos em que fizeram as pesquisas com o dinheiro dos contribuintes, essa atitude é desonesta. Quem quiser dinheiro da Viúva e não quiser colocar seu trabalho à disposição do público deve ser obrigado a enunciar essa prevenção ao pedir a bolsa. Além disso, pode-se admitir que se faça um banco apenas para as teses de doutorado, deixando-se para as dissertações de mestrado um necessário catálogo.

Segundo a Capes, antes do fim do governo esse assunto estará resolvido, como resolvido esteve ao fim do primeiro mandato de FFHH e de todos os seus antecessores. Até agora, só gogó.
Autor: Elio Gaspari

   30 Leituras


author image
Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.