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MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO A PARTIR DE MANIFESTAÇÕES CULTURAIS: RELATO SOBRE A VIRADA CULTURAL PAULISTA

Há tempos convivemos com o discurso de que as manifestações culturais com todas as suas vertentes, especialmente as artísticas, possuem poder transformador sobre os indivíduos. Essa percepção de transformação através da cultura, em geral, é direcionada as pessoas cujo poder aquisitivo limita naturalmente quanto ao acesso, por exemplo, a eventos culturais, dando a impressão de que quanto mais dinheiro, mais cultura. Concordo em parte, considerando que não raro conhecemos pessoas com alto poder aquisitivo que não possuem conhecimento até mesmo sobre clássicos da leitura brasileira, ou importantes nomes da música nacional, e não se espante se encontrar alguém que estudou a vida toda nas melhores escolas e tiveram disponibilidade de recursos, mas, sequer faz idéia de quem seja Tarsila do Amaral (tão lindo o Abaporu) uma das mais importantes pintoras do movimento modernista Brasileiro.

 

Mas, dando início ao ponto desse texto, qual seja justamente o de considerar as ações culturais com foco social, alguns anos atrás passei a observar um movimento cultural que teve início em 2005 no Estado de São Paulo, evento esse denominado ‘Virada Cultural Paulista’. Esse evento promovido pela Secretaria de Estado da Cultura consiste em oferecer de forma gratuita uma programação cultural variada, que ocorre de forma simultânea em várias cidades do Estado. Durante o período de 24 horas, são apresentados eventos que em uma mesma cidade mesclam atividades em teatros, na rua e em palcos instalados em pontos estratégicos. As atividades artísticas vão desde peças teatrais, shows com artistas renomados, apresentação de filmes, entre outros.

 

Pois bem, apresento agora um relato de como a mediação da informação e a construção do conhecimento podem ser percebidas e identificadas nos mostrando as possibilidades que os movimentos culturais possuem diante desses fenômenos.

 

Na edição de 2008, estava eu na cidade de Assis, minha terra natal. Na ocasião não me atentei da importância do evento. Na verdade, sequer havia buscado informações até saber que o meu namorado na ocasião – empresário na área de prestação de serviços de som, luz e palco – me avisou, de forma bem direta, que iria trabalhar o fim de semana todo e que, portanto, não nos veríamos. Confesso, senti certa mágoa da Virada Cultural. Pensei “poxa, mais um fim de semana sozinha?!” (na verdade não foi um pensamento assim tão sutil...). Como dizia a minha avó “o que não tem remédio, remediado está”, por isso, de posse da programação pensei em aproveitar esse evento para analisar se os efeitos que a proposta da Secretaria da Cultura prega de fato ocorrem, quais sejam o de fornecer o meio para a construção de conhecimento na população, especialmente as classes que possuem menos recursos financeiros.

 

Entre as diversas possibilidades, notei com curiosidade a apresentação de um show de uma artista que até então eu não conhecia e que seria apresentado no teatro municipal. Ná Ozzetti! Uma cantora de MPB cujo repertório inclui músicas leves, de autoria própria e de grandes autores brasileiros. Na noite da apresentação, teatro cheio. Muitos jovens, crianças, famílias inteiras. Comecei a observar a reação das pessoas a minha volta durante o show, assim como os comentários sussurrados (esses são presença certa). Durante a apresentação, Ná Ozetti cantou uma música de nome “Capitu” (olha o Machado de Assis aí gente) cuja letra, ainda que com caráter sedutor, é muito delicada.

 

Ainda atenta aos sussurros, ouvi uma criança questionar a mãe “mamãe o que é Capitu?”, ao que a mãe surpreendida (talvez ela tivesse uma vaga lembrança da personagem) gaguejou e pediu socorro a alguém próximo que prontamente explicou à criança “essa é uma menina que é personagem de um livro de um escritor chamado Machado de Assis” e na seqüência a pessoa indagou a criança “você gosta de ler livros?” e a menina respondeu “eu gosto mas não leio sempre” e a pessoa responde “então você pode ler mais, porque é muito importante ler bons livros”. Legal! Gente, seria essa uma mediação? E também uma construção de conhecimento? Creio que sim, porque logo em seguida a menina se voltou para a mãe dizendo “mamãe quero ler esse livro”. Talvez não seja uma leitura adequada para uma criança que não parecia ter mais que 8 anos, mas, o que importou foi o despertar para a leitura.

 

Na edição mais recente do evento, ocorrida há algumas semanas nos dias 22 e 23 de maio, eu já nem podia mais encarar como “mais um fim de semana sem o meu namorado”, então corri para conferir a programação. Entre as várias possibilidades, a que mais me empolgou foi a apresentação de um show do compositor e cantor Toquinho. Quem não imaginava uma linda gaivota a voar no céu nascida de um pinguinho de tinta caída em um pedacinho azul de um papel? (eu sim!).

 

Bom, voltando à minha participação investigativa - que contou com muita sorte e com os meus bons ouvidos -, antes do início do show ouvi, entre outras coisas, algo vindo de um grupo de jovens acompanhados de uma senhora, o seguinte questionamento: “Que música canta esse Toquinho?” e logo na seqüência mandou: “Véio, podia vir a Banda X né” (Ui!) (Caro leitor, achei por bem criar um nome fictício para a banda mencionada. Tanto melhor!). A senhora que os acompanhava de forma indignada respondeu “vocês não conhecem? Ele canta aquela música aquarela e têm várias outras músicas muito boas, e tem aquela O caderno. E vocês precisam conhecer”. Olha que legal! “Conhecer”. Me lembrei que um pouco antes da minha ida ao evento, ouvi uma prima que é a jovem mãe da Maria Clara, uma bebê de apenas 8 meses, dizer que iria levá-la ao show porque achava bom que a filha já tivesse a oportunidade de conhecer um artista tão importante e estava certa de que as músicas ficariam registradas na memória da criança. Também acredito que sim.

 

A importância desse evento possui vários focos. Está na geração de renda, seja para os artistas, para os técnicos de som, para os vendedores ambulantes, entre outros. Contudo, o que está mais latente é a forma como as informações existentes nas manifestações culturais chegam até as pessoas e de que modo isso promove a construção do conhecimento em cada um. Acredito que ali, em todos os momentos houve sim níveis de mediação da informação e construção do conhecimento. Seja através de uma peça de teatro, de uma música interpretada por um cantor, de um filme e, como pude constatar, através da própria interação entre os espectadores.

 

Evidente que a Virada Cultural Paulista não é um monstro que tira o meu namorado. Agora, ao ouvir uma música da Ná Ozzetti, por exemplo, eu me lembro com graça do modo como pude conhecê-la e me pergunto se eu, sem saber dela, pagaria “no escuro” um convite para ir a um show. O que sei, é que esse evento me permitiu conhecer vários artistas novos, alguns antigos que pouco aparece na mídia tradicional (Não é “Jabá”, mas a Ná Ozzetti iniciou sua carreira na década de 1970), assistir apresentações com artistas de circo, entre outras. Ah, já ia me esquecendo. Também (espero) despertou o interesse de uma menininha para a leitura. E quantos outros personagens como ela e eu puderam construir conhecimento? Espero que muitos outros!

 

Elaine Lopes - Doutoranda em Ciência da Informação pela UNESP/Marília. Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/Marília. Especialista em Controladoria Empresarial e bacharel em Administração. e-mail: lainelopes@hotmail.com

Autor: Elaine Lopes

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.