TEXTOS GERAIS


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A PROPÓSITO E DESPROPÓSITO

Costumo dizer que sou PHD, isto é: Doutora em Palpites Holísticos e, segundo meu caro colega Laffayete Alvares Junior, também Diletantes. Pois hoje é dia de PHD. 

 

Passei três semanas a (re)ler Machado de Assis, em especial suas crônicas d’A Semana. Ler, porque há sempe algo novo a descobrir; reler, porque se trata de releitura mesmo. E várias idéias ocorrem, perturbam, incitam à escrita. A primeira dessas idéias, em vista das eleições de 2010, refere-se às eleições de 1892, quando o voto era facultativo (tornou-se obrigatório apenas em 1934).

 

Facultativo para poucos, evidentemente, uma vez que o “direito” excluía analfabetos (pelo menos 82% da população), mendigos, praças, religiosos, mulheres. Enfim, a torcida do Flamengo, o resto do Maracanã e os devotos de São Jorge.

 

Conta Machado, em crônica de 7 de agosto de 1892:

 

Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores; outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: “A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador, n...”   (edição de 1959, p. 90-91)

 

Quando alguém fala de voto facultativo, lembro sempre de três coisas: das crônicas de Machado; das urnas embarcadas da Amazônia, pois existiam as que andavam de barco e, por vezes, afogavam-se; e da reeleição de George Bush. Os que gostam de copiar os norte-americanos, por tudo e por nada, têm hoje o Bush e a “fast food” como indiscutíveis péssimos exemplos.

 

Não se pode negar a existência de outros ótimos modelos da mesma fonte; porém, convenhamos que nem tudo o que “é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.

 

Pois bem, na Biblioteconomia também encomendamos nossa “fast food”.

 

Mas antes, uma excelente notícia: houve mais um Encontro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Catalogação (GEPCAT), com retumbante sucesso. Parabéns às organizadoras: Cristina Ortega, Elisa Machado e Zaira Zafalon, que se desdobraram e o realizaram! Parabéns também à Escola de Ciência da Informação da UFMG, hospedeira do evento. Inscreveram-se e compareceram quase trezentas pessoas: docentes, discentes e profissionais da área. Demonstra-se, deste modo, que a Catalogação revive seu momento de análise, reflexão, discussão e busca de caminhos, espelhando preocupações nacionais e internacionais. Desde os debates sobre as regras de Pannizzi e o catálogo do Museu Britânico, realizados pelo Parlamento inglês nas décadas de 1830 e 1840, não há tanto questionamento em torno do futuro da Catalogação em vista das novas tecnologias! Exageros à parte, aquela “Senhora” ainda causa o maior tititi!

 

Mas vamos à "fast food" biblioteconômica – uso das técnicas sem sabedoria – ou ao propósito deste texto holístico e diletante.

 

Das conversas à hora do cafezinho – a bem da verdade, segundo consta, um café “covarde” (expressão mineira), pois só chegava com muitos acompanhamentos – existe um ponto que a PHD responde. Trata-se do respeito (ou não) integral e indiscutível a uma ferramenta bibliotecária ou de sua adaptação às necessidades do público e a seus próprios conceitos.

 

Em se tratando de pontos de acesso, cabe dizer: a adaptação pode ser feita, desde que permaneça consistente. Certa feita conheci algumas bibliotecas que, devido a necessidades específicas, aumentaram classes da CDU ampliada; porém, nem sempre a lógica das bibliotecas seguia a lógica da CDU, o que levava à total inconsistência. Em termos de cabeçalhos de assunto, pode-se inovar sempre, desde que se registrem os cabeçalhos ou termos, nos sistemas automatizados, em lugar próprio, indicando que não saíram de fonte determinada e autorizada. Os campos 690-699, no MARC21, destinam-se a assuntos locais, com definição local. Tornam-se particularmente úteis quando se deseja acrescentar um termo indicado pelo autor, ou criado pelo catalogador, que não conste de nenhuma linguagem documentária. Não se pode esquecer, evidentemente, dos vínculos (remissivas) com outros termos autorizados e do catálogo decisório.

 

Quanto ao emprego do Vocabulário Controlado para Indexação de Obras Ficcionais (1), especificamente, nós, os três autores, deixamos claro que não se tratava de obra definitiva, porém sujeita a discussões, acréscimos e tudo mais. Ao contrário, opiniões e críticas de usuários nos proporcionariam grandes alegrias. O silêncio mostra-se aterrador. A prática da indexação de gênero ficcional não é absolutamente nova e tornou-se objeto de estudos e publicações ao nível internacional. Porém, existe um viés do tipo “fast food” na Biblioteconomia brasileira, que engolimos sem saber o que digerimos; aceitamos sem procurar as causas.

 

Parece-nos que a catalogação do século XIX, refletida na classificação de Dewey e nas regras de Cutter, apresentava os autores por idioma de escrita. Paralelamente ao menor número de autores e obras, havia o maior conhecimento dos leitores, justificando plenamente tal iniciativa. Por seu lado, os gêneros ficcionais, às vezes, são um tanto fluidos e tangenciais, sujeitos a variações no enfoque. Acredita-se que todos esses fatores, aliados a suas funções como biblioteca nacional, levaram a Library of Congress norte-americana a indicar apenas a origem lingüística da literatura e o gênero literário, não seu gênero ficcional. Este último restringe-se às obras SOBRE (e não de) um gênero ficcional. Evidentemente, pelos mesmos motivos, nossa Biblioteca Nacional seguiu essa norma. No entanto, cada país possui um número limitadíssimo de bibliotecas voltadas ao depósito, guarda e preservação de suas produções documentais, ou bibliotecas nacionais. A maioria das instituições bibliotecárias destina-se ao público em geral, para seu conhecimento e lazer, para uso e desgaste. Seguir uma norma destinada aos casos únicos, em detrimento do público em geral, torna-se indigesto.

 

O maior mérito do nosso Vocabulário (se algum o tem) consiste em trazer ao cenário brasileiro uma prática diferente. Se suscita discussões, significa pelo menos que foi lido e até mesmo experimentado, o que já constitui um grande passo.

 

No momento, de moto próprio e quase isolado, discuto a validade de uma tradução literal do código RDA (por favor, tradução correta: Descrição e Acesso ao Recurso).

 

Por sinal, como hoje é dia dos propósitos e despropósitos, segue mais uma tradução a ser corrigida: IFLA – International Federation of Library Associations and Institutions traduz-se como Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias.

 

Voltando ao RDA: ainda acredito na capacidade brasileira, ou luso-brasileira, para a elaboração de um código que adapte as regras aos usos nacionais, com exemplos em língua portuguesa, além daqueles em outros idiomas.

 

À guisa de conclusão, sugiro um livro (dos publicados mesmo, impressos em papel etc.) imperdível para bibliotecários: A questão dos livros, de Robert Darnton (2). Certamente muitos já conhecem a obra e venho atrasada, mas bem que ela deveria entrar para o rol das leituras obrigatórias!

 

Notas

 

1 - Barbosa, Sidney, Mey, E.S.A, Silveira, N.C. Vocabulário controlado para indexação de obras ficcionais. Ilust. de R.S. Britto, I.R.F. Rizzi. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2005.

2 - Darnton, robert. A questão dos livros. Trad. de D. Pellizzari. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

 

revisão de Marília Motta Ludgero da Silva

 

Autor: Eliane Serrão Alves Mey

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.