TEXTOS GERAIS


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COMO NASCE UM LEITOR?

Sempre acreditei que o interesse pela leitura na vida adulta dependesse fundamentalmente do estímulo a leitura desde a infância.

 

Quando criança, minha família não tinha recursos para comprar livros, por vezes mal tinha para outras coisas básicas. Fui criança em uma década economicamente complicada, a década de 80, quando a inflação reprimia pequenos desejos de uma classe da população, como o de comer determinados alimentos, por exemplo, imaginem então que comprar um livro fosse um luxo mesmo. Mas eu gostava muito de ler desde que pequena, assim como meu avô paterno e meu pai, então eu lia o que tinha a mão. Eu literalmente lia bula de remédio.

 

Em minhas memórias do meu avô sempre o vejo com um livro e isso foi muito forte para mim. Ele tinha um livro ou outro, poucos, alguns muito antigos que tinha como relíquias, presentes que havia recebido. Entre sua pequena coleção estavam “A um passo do “Armagedom” de Hellen G. White e “A filha do capitão” de José Rodrigues dos Santos. Títulos densos para uma criança de 10 anos, mas, eu encarava com a firmeza de um adulto.

 

Na época eu e meus irmãos estudávamos em uma escola pública simples, com poucos recursos, o que naturalmente inferia no acervo da pequena biblioteca, mas o que tinha era suficiente para que eu fosse feliz.

 

Uma das lembranças mais fortes que tenho daquela época era da bibliotecária, Dona Neusa. Uma mulher exótica, muito bonita, sempre muito bem vestida, muito bem maquiada e muito amável. Eu passava um bom tempo lá, bisbilhotando, curtindo aquele espaço que eu achava um luxo.

 

Meu pai era na época um homem pouco presente em muitos aspectos, mas sempre nos estimulou muito a ler. Lembro-me que ele fazia listas de livros para que eu pegasse na biblioteca da escola e uma semana deveria ser tempo suficiente para que nós dois lêssemos os livros. Esse contato dos livros que trazia da biblioteca escolar para casa proporcionou muitas histórias. Um dia, eu trouxe um livro que me rendeu muita dor de cabeça e um apelido nada agradável, mas que hoje me faz dar boas risadas. “Teresa bicuda” de Ciça Fittipaldi era um livro bizarro, realmente assustador e que meu irmão usou o título como arma para me apelidar nos momentos em que eu ficasse brava, mas que ficou para a memória da família como “o livro que deu o que falar”. Foi meu primeiro trauma literário, já que passei algumas noites custando a dormir por conta da historia um tanto pesada.

 

Foram algumas aventuras, dos livros mais clássicos para meninos e meninas da década de 80 e 90 como “O caso da borboleta Atíria” e todos os outros da coleção Vagalume da Editora Ática, até o surpreendente “Diário de Anne Frank”.

 

Resumindo, minha inserção no mundo da leitura “de casa” aconteceu de forma difícil, já que não tínhamos acesso a uma variedade de títulos, mas acredito que tenha sido fundamental para que nascesse o desejo pela leitura.

 

Hoje, mãe de um bebe de menos de 2 anos, busco apresentar ao meu filho o mundo da leitura de uma maneira leve e prazerosa. Quando ele ainda nem havia nascido, já ouvia minhas leituras e acredito sim ser esse o começo ideal. Montamos uma “bebeteca” no quarto dele, com uma prateleira organizada em um cantinho aconchegante, em uma altura que ele possa alcançar e no chão um tapete macio para ele ficar. E importante, longe dos brinquedos, porque livro não é brinquedo!

 

Busco fazer todos os dias o “momento da leitura”, mas ele já por conta própria todos os dias dá uma passadinha pela sua míni coleção e passa um bom tempo curtindo tudo, com a paciência de um bom leitor. Não o pressionamos com frases do tipo “Não rasgue os livros” e “não coloque os livros no chão”, simplesmente porque queremos que seja esse um contado leve e amigável. Não pretendemos que ele veja os livros como algo proibido e, portanto, que esteja livre até para comer o livro. Brincadeira, esperamos que ele coma apenas no sentido figurado, ainda que tenhamos notado a falta de algumas pontinhas de folhas aparentemente mordiscadas.

 

Enfim, quando vejo meu filho com seus livros nas mãos apreciando o que ainda não sabe ler me emociono. Acredito e defendo que, apresentar a leitura para bebês que ainda nem aprenderam sequer a falar é a forma mais fácil de formar um leitor. Por meio desse contato é que eles passam a fazer conexões da linguagem falada com a escrita, além de já começarem a viajar por mundos que vão além dos oferecidos por brincadeiras e brinquedos. Afirmo isso porque vejo meu filho que mal fala, correndo os dedinhos pelas frases e balbuciando como se estivesse lendo. Às vezes ele faz pausas e fala o nome de alguma figura, ou fala o nome de alguma cor que vê e isso é incrível. O amor pelos livros é algo que é plantado, começa de pouquinho, gestos pequeninos como uma sementinha e os frutos colhidos são de grande doçura.

 

Assim como minha família com toda sua simplicidade despertou em mim o amor pela leitura, acredito que meu filho também foi tocado, contudo, com ele isso aconteceu uma década mais cedo que comigo. Quando vamos viajar peço a ele para juntar alguns brinquedos em uma caixa para levarmos e ele, sem que falemos nada, corre até o quarto e volta com alguns livros e os coloca na caixa.

 

Já ouvi criticas, algumas afirmando que eu estou exigindo muito do meu filho, que agora ele tem só que brincar. Não pretendo com tudo isso que meu filho seja um estudioso inveterado, a não ser que ele assim o queira. O que desejo é que ele sinta prazer em ler. Quando ele deita no seu tapetinho e fica folheando um livro, o que vejo é satisfação. Quando lemos um livro juntos o que vejo é uma troca de carinho, uma construção de conhecimento para ambos.

 

Hoje tenho mais certeza do que nunca de que estimular a leitura é também um ato de amor.

 

Elaine Lopes – Formada em Administração – Doutoranda e Mestre em Ciência da Informação – UNESP/Marília

Autor: Elaine Lopes

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.