TEXTOS GERAIS


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SÊ-LO POSTAL

Selo, um artefato ordinário de um serviço postal. Ser, o princípio do mundo das essências, o Eu como substância que se pensa a si mesma. Como colecionador, percebi que o objeto cotidiano e nossa condição cognoscível única e complexa de existência se entrecruzam, e foi assim que me fiz Sê-lo, por meio dos selos. A minha e tantas outras histórias com o colecionismo tem como origem uma relação afetiva; particularmente, a minha foi iniciada na infância, ao descobrir uma série de artefatos numa grande caixa, dentro dos armários, no quarto dos meus pais (os arcontes).

 

Nessa época eu tinha 9 anos e já morava no Brasil. Pela primeira vez, tinha eu conhecido de perto selos postais, cartões postais, fotografias e correspondências. Pela primeira vez havia, eu, tido um contato visual e tátil com um Arkhê, um arquivo, de fato. As belezas, visuais e documentais, para mim, neófitas, me impeliram a, praticamente, carregar a caixa para o meu quarto, de onde nunca mais saiu. Assim, de uma remota lembrança, os documentos ganharam voz, luz, um lugar na estante e nos álbuns, um lugar de autoridade. Assim, dei início a uma busca desenfreada por suprir um desejo absoluto de memórias.

 

Deste lugar de fala, de um colecionador de selos postais, penso que não tenho como escapar do risco dos ditos simplificadores, que tentam, em vão, tudo dizer. Hoje estou ciente que posso escrever, apenas, guiado por determinadas regras discursivas. Logo, tenho uma determinada posição a ser assumida. Logo, tenho limites a respeitar. Pois bem, este breve ensaio tem o intuito de conduzir os leitores por um labirinto que exige um olhar respeitoso e ético para enfrentar e aceitar as necessárias simplificações.

 

Percebo no decorrer desta escrita que apenas dei um passo inicial com relação ao caminho que pretendo seguir. Uma estrada não linear, preenchida por inúmeros desvios, alguns ainda de barro, outros já pavimentados. O que me sobra na práxis do colecionismo e no afeto imortal para com a minha coleção me falta em quantidade e qualidade de reflexão teórica, uma base imprescindível para caminhar com a cabeça erguida. Ofereço-lhes o selo postal, o meu temporário Sê-lo.

 

Olhar o selo postal, por repetidas vezes, com respeito e ética. Perceber em cada artefato uma possível arqueologia do documento. Estudar a sua origem documental, mas, também, as práticas discursivas que o fazem ser o que é, em determinado momento histórico. Perguntar o que ele tem a dizer. Tocar e aceitar a sua tessitura. Tudo isso são formas interligadas de conhecer a imagem. Não, unicamente, a do selo postal em si, mas aquela que me traz conhecimento, me diz algo sobre o mundo, sobre os Outros, sobre aquilo que não está sendo dito e sobre mim (Sê-lo). Olho a efeméride, o fato, o fragmento e vejo, às vezes, pretéritos com os olhos de hoje. É meu direito. Mas sem esquecer os limites de onde estou e falo, é, também, o meu dever.

 

Olhar um selo postal, contemplar uma coleção, uma exposição exige, ainda mais nos dias atuais, certa maturidade ética, sossego afetivo. É preciso fazer uma parada: podemos propor uma arqueologia desse artefato; podemos explorar a etimologia dos termos que constituem o discurso dos colecionadores e dos dicionários específicos; poderíamos buscar compreender como surgiu o sistema de correios, mundo afora, e no Brasil, e sua implicação social, as descontinuidades desse sistema e os jogos de poder que lhe são inerentes; podemos entender as causas que criaram as condições de possibilidade para o surgimento do porteamento de correspondências, resultando, por sua vez, na criação do selo postal adesivo.

 

Assim, de fato, conseguiríamos vislumbrar algumas das possíveis causas do advento do selo postal brasileiro, além de, por meio de um feixe de relações históricas particulares, entender como emergiu o selo postal comemorativo brasileiro e como ele repercutiu, criando as condições da prática do colecionismo filatélico brasileiro. Por fim, e não menos relevante, esse olhar escrutinador pode ver no selo postal adesivo os seus elementos constitutivos, enaltecer o seu estatuto.

 

Pelo espaço concedido para este tipo de publicação, não mais posso oferecer sobre estas hipóteses, caminhos possíveis, mas que não são meus de direito, são agora de vocês, os leitores. Submetidos ao seu escrutínio e análise, essas teses permanecerão, no momento, abertas aos seus olhares e sentidos. Em outras tipologias textuais, as discutirei com mais crítica, com uma melhor formalidade, buscando, então, aquela adorada parada denominada “conclusão”. Ou, quem sabe, simplesmente deixar fluir o ato dialógico, a convergência entre Sê-lo (coisa pensante) e o selo postal (coisa pensada), impedindo, assim, o acontecimento do esquecimento.

 

Diego Salcedo – Professor do Departamento de Ciência da Informação/UFPE – salcedo.da@gmail.com

Autor: Diego Salcedo

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.