IGOR MENDES DA SILVA
Quem é Igor Mendes da Silva? De onde vem e quais os seus sonhos?
Pergunta difícil, poderia discutir o ‘eu’ por meio daquilo que as pessoas veem de mim e o que eu vejo de mim, talvez o ‘eu’ seja uma mistura dessas duas coisas, ou nenhuma das duas. Mas não faço ideia do que sou (acho que ninguém sabe o que é de fato, e o mais importante, provavelmente tem medo de descobrir), então vou pegar o caminho mais fácil e traçar a fonte curricular.
Sou Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mais especificamente na Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) em Marília, Mestre em Ciência da Informação (idem instituição anterior), e Doutorando em Ciência da Informação (idem o idem anterior). Optei por estudar na cidade onde nasci e cresci, embora tenha muitas críticas a tecer no que concerne ao município, não consigo ficar muito longe daqui, sempre quando viajo preciso levar bombinhas de asma recarregadas com o ar de Marília, senão começo a sentir arritmia cardíaca (mas talvez seja só o cigarro, não sei dizer).
Em relação aos meus sonhos, não sei dizer se tenho um (talvez algum dos outros entrevistados vai traga um bom sonho como a paz mundial ou algo do tipo). Enquanto criança sonhava ser um dinossauro quando crescesse, mas ao perceber que isso não ia acontecer me frustrei demais e não ousei sonhar novamente.
Como soube que queria se dedicar ao mundo bibliotecário?
Acabei encontrando a biblioteconomia por uma razão bem simples, que imagino ser compartilhada por algumas outras crianças e adolescentes (período em que isso me ocorreu), sempre odiei estudar. Não que para ser bibliotecário não seja necessário estudo (muito pelo contrário), embora na época não soubesse muito bem o que era estudar, fui descobrir isso depois de terminar a escola base (ensino fundamental e médio).
A questão é que por odiar a escola, raramente a frequentava, e acabei descobrindo a biblioteca durante aquilo que chamamos aqui no interior de São Paulo de ‘enforcar aula’ — as expressões ‘cabular aula’ ou ‘matar aula’ talvez sirvam enquanto sinônimo para outras regiões, mas caso não, a prática se resume em fingir que está indo para escola, não ir, e então você pode gastar o seu precioso tempo da maneira que lhe melhor agrada, tradicionalmente sendo feito (em meados dos anos 90 e no percurso dos anos 2000) em lan houses, pistas de skate, sorveterias e afins.
No meu caso fugia frequentemente da escola (literalmente pulando os muros, se necessário), para ir à biblioteca pública de Marília ler histórias em quadrinhos. Na época também não sabia direito o que a biblioteconomia era, mas amava a biblioteca, era um lugar seguro, longe da ordem que o mundo tentava me impor — irônico eu sei, visto o nível de organização e ordem exigida em uma biblioteca —, mas de certo modo funcionou para mim, pois hoje sou bibliotecário.
Poderia nos contar um pouco sobre a sua trajetória profissional e como ela moldou a sua visão sobre a Biblioteconomia e Ciência da Informação?
Minha trajetória profissional começou aos 12 anos entregando panfletos de pizzaria (sem receber dinheiro para isso, e sim fatias de pizzas, claro que isso seria considerado ilegal hoje em dia e tudo mais, mas na época isso não era bem um problema). Passei por diversos trabalhos ao longo da vida e odiei a maioria (esse papo de que trabalho é bom nunca me convenceu), já fui empacotador em supermercados; lavador e polidor de carros; auxiliar em panificadora; vendedor de roupas para mulheres magras (sim, a loja só tinha roupa para mulheres, e especificamente magras); barman e segurança (às vezes simultaneamente) em festas e puteiros da região; soldado no Exército Brasileiro (como obriga a lei); escritor; ilustrador; e editor.
Os três últimos tinham algo em comum, eu gostava de fazer aquilo que condizia a profissão. E imagino que tenha sido isso que me norteou durante a formação em biblioteconomia, saber que estava fazendo algo que gostava, e ver algo de útil naquilo. Em muitos dos trabalhos que tive, a sensação que permeava minha mente era a de perda total do tempo. Não ver razão em algo que se faz é completamente brutal e destrutivo.
Ademais, acho que o que realmente me importa, é que tudo que faço hoje, faço enquanto bibliotecário. Essa profissão propicia aquilo que considero mais relevante, ser permitido pensar.
Você acredita que tenha sido gerado um estereótipo errôneo sobre a figura do bibliotecário?
De forma alguma, sempre vi a figura do bibliotecário e da bibliotecária como a mais sexy das profissões e continuo achando isso.
Se pudesse dar um conselho para alguém que está pensando em seguir carreira na área, qual seria?
Se organizem, entre si, e com os grupos que os rodeiam. Somos presas fáceis na natureza, observando o mundo à nossa volta com o desejo de aprender sobre tudo podemos ser atacados por uma onça ou algo do tipo. Mas falando sério, o mais importante de tudo (na minha quase se não totalmente dispensável opinião), é compreender os grupos aos quais o bibliotecário atende assim como sua própria categoria.
Não somos capazes de fazer muita coisa sozinhos, claro que Eratóstenes descobriu quase sozinho que a terra era redonda na época em que era bibliotecário em Alexandria há mais de dois mil anos. Mas, os processos de sucateamento e desvalorização da profissão e do saber evoluíram e muito com o passar do tempo. E novas práticas de dominação por meio do desconhecimento são desenvolvidas cotidianamente, e precisamos sempre nos opor a isso, e bom, só podemos fazer isso alinhados a outros com interesse em comum.
Agradeço pelo convite por parte do professor Oswaldo, para participar desse belo projeto. Espero não inspirar nenhum de vocês caros leitores, caso se arrependam de escolher a profissão essa culpa não será minha, alegarei insanidade se for preciso. Abraços.