LITERATURA INFANTOJUVENIL


LIVRO-MÃE

Esta é segunda vez que faço esta coluna, pois perdi o arquivo misteriosamente. Ato falho? Não sei. Só sei que minha intenção era, e ainda é, falar da minha mãe-livro ou livro-mãe.

 

Minha mãe tem alzheimer há quase 10 anos, ela não sabe (pelo menos achamos que ela não sabe!). Às vezes, narra fatos remotos que eu acabo acumulando para transmitir aos meus irmãos. Sou curiosa e para que possa saber mais, faço perguntas e provocações.

 

Um dos recursos que eu mais uso é a música e as parlendas. Fico admirada com as brincadeiras verbais (me desculpem os que têm menos de 40 anos que perderam muito da oralidade e talvez não saibam do que eu estou falando).

 

Não sei se é o avanço da doença, mas ela este ano (2016) está mais quieta e no seu silêncio, de repente, isto mesmo, é de repente mesmo, começa a falar um poema. Vejam os dois que consegui decorar.

 

Menina minha menina

Outra vez menina minha

Se na sua cama tem pulgas

Levanta e deita na minha.

 

Outro

 

A mulher e a galinha

São dois bichos interesseiros

A galinha pelo milho

E a mulher pelo dinheiro.

 

Não quero aqui avaliar o conteúdo do texto (que penso ter uma pitada de malícia). Quero demonstrar que o oral está presente nas nossas vidas mais do que pensamos, ficando adormecido em nosso “carbono” que é a memória biológica. Os estudos avançam, a ciência busca explicações para o funcionamento e o desgaste da memória, então leio, leio, leio a respeito disso e fico sempre com a sensação que nada sabemos dessa caixa chamada cérebro.

 

Hoje com meus 58 anos, por ter cuidado do meu pai com alzheimer e cuidar da minha mãe com a mesma doença, não me faz uma especialista, mas me dá segurança em afirmar: - os registros que ficam na memória com maior força, são aqueles carregados de afetividade, diversão e amor, pois quando são resgatados em uma conversa, espontaneamente desencadeiam emoções de diversos tipos.

 

Digo isso porque na hora da sonda uretral de alívio, na hora do banho, no momento em que ela acorda, criamos uma rotina de cantoria e uma música vai puxando a outra, um jogo verbal puxa o outro... assim por diante:

 

Lá em cima do piano

Tem um copo de veneno

Quem bebeu morreu

O culpado não fui eu...

 

Outro

 

Uma velha muito velha

Fez xixi na canequinha

E falou para vizinha

Que era caldo de galinha

 

Ciranda cirandinha, Escravo de Jó, Alface já nasceu, Alecrim, Terezinha de Jesus, Jardineira são músicas que alegram e aliviam nos momentos de aflição.

Os causos do Rolando Boldrin, eu brinco que são remédios para alma, assiste inúmeras vezes, se diverte e ainda comenta que o ator é fantástico.

 

Assim eu e meus irmãos ficamos curtindo os resquícios de uma mente, que foi sempre viva e otimista, mas que agora precisa de memórias externas para levá-la ao riso.

 

Nos últimos meses, quando as pernas da minha mãe já não respondem as ordens do seu pensamento, a única maneira de fazê-la andar é o refrão: 1, 2 feijão com arroz; 3, 4 feijão no prato; 5, 6 falar francês; 7, 8 fazer biscoito; 9, 10 comer pastéis.

 

Enfim, só para não dizer que não falei de literatura infantil, sugiro a leitura de:

 

- Vovô volta a ser criança - Paula di Caterina

 

- A vovó virou bebê – Renata Paiva

 

- Guilherme Augusto Araújo Fernandes – Julie Vivas

 

- Alzheimer - a história da doença e a vida do médico que a descobriu – M.A. Sánchez-Ostiz

 

- Vovô é um super-herói – Fernando Aguzzoli

 

- Vovó tem Alzha... o quê? – Véronique Van den Abeele


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.