LITERATURA INFANTOJUVENIL


BIOGRAFANDO GENTE-GRANDE PARA GENTE-PEQUENA

Uma vez ouvi dizer que quem gosta de ler biografia não tem personalidade e lê a vida dos outros para construir a sua. Grande besteira! Leio o que tenho vontade! Quero ser sempre uma leitora plural!

Acompanho as polêmicas a respeito de biografias não autorizadas, por exemplo, Roberto Carlos, Paulo Leminski e sei que acabam aguçando a curiosidade dos leitores. Não conheço nenhuma publicação para crianças com biografia que foi censurada. 

Mas, talvez, no ritmo falso-moralista que estamos passando – abre parênteses - o caso do livro “Enquanto o sono não vem” que contém o conto “A triste história de Eredegalda” – fecha parênteses, pode ser que haja livros biográficos que foram barrados antes de irem para o forno.

Quero falar da minha coleção de literatura infantil (desculpe a arrogância, mas tenho muito orgulho da minha coleção!). Tenho vários livros de biografia que fui comprando ao longo da vida e vou falar aqui dos que eu mais gosto. Antes, porém, lembro que meu acervo é inacabado e tem lacunas. Confirmei isso ao realizar pesquisas para essa Coluna.

Começo pela Coleção Mestres da Música no Brasil, publicada pela Editora Moderna, ela homenageia: Adoniran Barbosa, Ary Barroso, Caetano Veloso, Cartola, Chico Buarque, Chiquinha Gonzaga, Gilberto Gil, Heitor Villa-Lobos, Luiz Gonzaga, Noel Rosa e Pixinguinha. Seus autores utilizam fatos históricos acompanhados de fotos do biografado em diferentes períodos da sua vida, usam uma linguagem apropriada aos leitores mirins, sem camuflar situações aflitivas, por exemplo, contam que Adoniran aos 16 anos depois de ter feito muito “bico” vai procurar emprego fixo e perguntam para ele: “’O senhor já trabalhou de garçom em algum lugar? E, na maior cara-de-pau, foi rápido no gatilho: ‘Já, sim, mas faz tanto tempo que esqueci. ’” (LINS; DINIZ, 2003, p.9). 

As crianças também podem aprender que perseguido pela Ditadura, Chico Buarque, para driblar a censura “[...] passou a assinar suas letras com o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Julinho começou a fazer sucesso e a imprensa descobriu sua verdadeira identidade. A partir de então, a Polícia Federal determinou que as obras enviadas para aprovação deveriam ser acompanhadas de cópia do RG e CIC de seu autor.” (BRAGA-TORRES, 2002, p.26).

Outra Coleção valorosa é intitulada Crianças Famosas que é publicada pela Callis Editora e contêm atualmente 29 títulos em catálogos, nela, os autores narram a vida de musicistas, pintores, escritores e inventores brasileiros e estrangeiros. Sendo eles: Bach, Beethoven, Brahms, Carlos Gomes, Cartola, Castro Alves, Chiquinha Gonzaga, Chopin, Handel, Haydn, Mozart, Schubert, Schumann, Tchaikovsky, Villa-Lobos, Vinicius de Moraes, Aleijadinho, Anita Malfatti, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Picasso, Portinari, Toulose-Lautrec, Volpi, Cecília Meireles, Jorge Amando, Mario Quintana, Monteiro Lobato e o inventor Santos Dumont. As obras são de diferentes autores e ilustradores, também foram compostas com uma linguagem literária apropriada aos pequenos leitores. Na obra de Cecília Meireles, Caruso (2003) conta que a escritora foi criada pela avó, pois: “Cecília não tinha pai nem mãe. Eles haviam morrido. O pai, ela não conheceu e a mãe ficou com ela só até os três anos.” (CARUSO, 2003).

Há também a Coleção Pintando o Sete, publicada pela Editora Rocco, cuja autoria é do artista Caulos. São sete volumes que apresentam fatos biográficos, mas também releituras de obras de pintores como: Henri Matisse, Renè Magritte, Piet Mondrian, Georges Seurat, Giotto di Bondone, Vincent van Gogh e Henri Rousseau.

Vale destacar também a série Olharte que “[...] foi concebida para incentivar o diálogo da criança com a Arte. Tomando como ponto de partida o acervo do MAC – Museu de Arte Contemporânea, da Universidade de São Paulo [...]”, publicada pela Editora Paulinas. Ela faz parte da Coleção Lua Nova e recebeu direção editorial do querido professor Edmir Perrotti. Focou quatro pintores, sendo eles: Tarsila, Goeldi, Picasso e Maria Martins. O livro que biografa Maria Martins, segundo Sant’Anna (2014) foi publicado em 1997 e “[...] contemplado com o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantojuvenil – atualmente está fora de catálogo e só é encontrado em sebos, o que reforça a predominância no mercado dos artistas mais famosos em detrimento de outros tão importantes.”

Abordo ainda quatro obras biográficas de um líder político, um escritor, um cientista e uma bibliotecária. 

Mandela: o africano de todas as cores – foi escrita por Alain Serres com ilustração de Zaü e com fotos cedidas por diversas instituições, traz uma cronologia biográfica do político Nelson Mandela desde seu nascimento em 1918 até 1994 quando depois de lutar contra o apartheid na África do Sul (incluindo 27 anos na prisão) os “[...] negros, brancos, mestiços e indianos podem finalmente votar. ‘One man, one vote!’ ‘Um homem, um voto!’. O sonho virou realidade.” (SERRES, 2014, p.50).

Em 2005, Marcos Bagno, publica pela editora Ática o seu livro – Uma vida de contos de fadas: a história de Hans Christian Andersen que foi ilustrado por Cris Eich. Nele o autor, por meio de uma narrativa ficcional, imagina um menino que, num dia frio, antes de dormir, resolve ler o livro de Contos de Andersen e que a partir disso vive uma aventura incrível acompanhado de um minúsculo ser que o leva a “[...] conhecer de perto a vida do escritor dinamarquês, afinal era dia 2 de abril, aniversário de Andersen.” (BAGNO, 2005). No final da obra há fotos de Andersen, imagens e comentários de seus principais contos. 

Outra obra que me arrebatou e que comprei por sugestão da Leide que trabalha na Ciranda Livros e Brinquedos em Londrina é Um raio de luz: a história de Albert Einstein. É fascinante desde a capa, pelos cabelos desgrenhados do personagem foi possível saber que se tratava dele. A autoria é de Jennifer Berne e as ilustrações de Vladimir Radunsky. O livro tem textos e traços delicados com um toque de humor refinado que é impossível não gostar do personagem. Com ele o leitor tem a sensação de estar descobrindo o mundo com Einstein. A autora afirma que: “Albert teve ideias até o seu último minuto de vida. Ele fez perguntas nunca feitas antes, encontrou respostas nunca encontradas antes e sonhou com ideias nunca sonhadas antes.” (BERNE, 2015).

Por último, trago a obra biográfica de uma importante incentivadora da cultura brasileira com quem me identifico, pois, assim como eu, era formada em Biblioteconomia. Essa obra é intitulada – A menina Inezita Barroso, foi escrita por Assis Ângelo e ilustrada por Ciro Fernandes. Este livro foi publicado pela Editora Cortez e incluiu em sua última capa a seguinte solicitação – Leia e conte pra todo mundo sobre a beleza que é este livro. O livro contém, além da biografia de Inezita, relatos da história da cidade de São Paulo: fala de palacetes, do bonde camarão, das pescarias no rio Tietê, de bairros que outrora eram distantes, das toadas e moda de viola, do palhaço Piolin, dos folguedos nas praças. 

O autor usa uma narrativa pulsante e desperta a atenção de uma paranaense, pode ser que irá fascinar um cidadão paulistano como o mantenedor do Infohome (vou embalar e mandar esse livro pelo correio essa semana para o Almeida Júnior). Nessa tessitura, o autor ao falar de São Paulo nos aproxima de Inezita, carinhosamente chamada de Zitinha. Ela era uma criança que brincou na rua, andou de bicicleta e gargalhou facilmente. Por outro lado era uma menina ciumenta, birrenta, curiosa e inquieta e na medida em que anos se passavam, crescia dentro dela o desejo de tocar viola e cantar. Isso tudo em uma ciranda de convívio com importantes personalidades da cultura brasileira (efetivamente ou no imaginário) entre eles: Mário de Andrade e Raul Torres. 

Ao finalizar a obra, o autor abre um espaço para que Inezita Barroso escreva algo sobre sua vida. Ela começa assim: “Nasci no ano em que o Corinthians perdeu o Campeonato Paulista por um ponto, para o extinto São Bento. [...] eu quero dizer: sempre estudei em escola pública. [...] Cursei Biblioteconomia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.” Além disso, o biógrafo acrescenta uma carta escrita por ela com um conteúdo saudosista:

Com todo o respeito vou chamar vocês de “pobres crianças” porque não viveram na época em que São Paulo era a cidade mais linda e mais querida do mundo, com seus brinquedos de roda, cantados e representados, com seus lampiões de gás e suas pizzas vendidas em latões redondos, com seus circos e tantas maravilhas mais! Não vão voltar mesmo. Vou parar aqui para não chorar... (ÂNGELO, 2011, p.72).

Não tenho uma visão utilitarista da literatura infantil, pois ela não deve ser pretexto para nada (adaptando a música A natureza das coisas de Flávio José – “se avexe não, com a literatura pode acontecer tudo, inclusive nada”). Se a literatura for pensada de forma utilitarista, reduz o seu valor artístico. No entanto, creio que o valor histórico ou pedagógico, esse gênero de texto pode contribuir na construção da identidade e do sentimento de pertencer, por exemplo, ao mundo social, cultural, ficcional e psicológico do biografado.

Referências:

ÂNGELO, Assis. A menina Inezita Barroso. São Paulo: Cortez Editora, 2011.

BAGNO, Marcos. Uma vida de contos de fadas: a história de Hans Christian Andersen. São Paulo: Ática, 2005.

BERNE, Jennifer. Um raio de luz: a história de Albert Einstein. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2015.

BRAGA-TORRES, Angela. Chico Buarque. São Paulo: Moderna, 2002.

CARUSO, Carla. Cecília Meireles. São Paulo: Callis, 2003.

LINS, Juliana; DINIZ, André. Adoniran Barbosa. São Paulo: Moderna, 2003.

SANT’ANNA, Renata. O livro de artes para crianças. 2014. Disponível em: <http://www.cartaeducacao.com.br/aulas/infantil/o-livro-de-arte-%E2%80%A8para-criancas/>. Acesso em: 28 jun.2018.

SERES, Alain. Mandela: o africano de todas as cores. 2.ed. Rio de Janeiro: Pequena Zahar, 2014.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.