LITERATURA INFANTOJUVENIL


A MALDIÇÃO DOS LIVROS INFANTIS OU OS LIVROS INFANTIS MALDITOS

Cotidianamente eu me ensino: “Não use palavras que vão poluir as emoções de quem está ao seu lado”, mas paciência tem limite. Vou usar aqui a palavra maldição com toda verve dos meus antepassados italianos.

Maldito seja aquele que semear ódio!

Em julho 2015, nesta coluna, utilizei o livro A Raiva de Blandina Franco e José Carlos Lollo para falar da intolerância humana que levou ao atentado Charlie Hebdo. Hoje em virtude da situação social e política no Brasil retomo esse assunto, com o foco na literatura infantil

A palavra maldição em todas as literaturas é usada em geral em situações de mistério, suspense, terror e horror. Fico com o último significado: HORROR.

Tenho horror aos preconceitos (todos)! Tenho horror a arrogância! Tenho horror a hipocrisia! Tenho horror a intolerância! Tenho horror a manipulação! Tenho horror a maldade! Tenho horror a cólera! Tenho horror a ditadura! 

Em oposição a isto tudo tenho amor, muito amor as crianças e a literatura para crianças. Desde 1978 me dedico a estudar as obras infantis. Não compro futilidades: compro livro infantil, presenteio com livro infantil, coleciono livro infantil.

Acredito que é possível entender o que o meu coração está sentindo nesse momento de trevas, de retorno a censura de obras, a retirada de livros das bibliotecas ou das mãos das crianças. Ingênuos adultos que pensam que sabem mais do que elas. Que deixarão de ler por simples imposição.

Os moralistas, em sua maioria, sem ética (por exemplo deputados e vereadores) promovem um movimento de roldão contra diferentes publicações, pressionam professores e bibliotecários. Tristemente os pais despreparados e desinformados e, em alguns casos, alienados que no momento da matrícula na escola nunca se preocuparam em saber se havia biblioteca... hoje se “autorizam” a apontar, mesmo sem lê-las, obras malditas, malditas obras! 

É esquizofrênico esse comportamento. 

Em meus 60 anos de vida nesse país tão maravilhoso que é o Brasil, sabemos que muitos livros foram alvo de análise distorcida e superficial. Em alguns casos com preconceito desde o título – A vida íntima de Laura –, de Clarice Lispector (1).

Hoje, outubro de 2018, começo a construir uma listagem, que vislumbro se avolumará em pouco tempo. Para a rejeição de algumas obras já encontrei a explicação, mas para outras terei que me debruçar atentamente.

Começo pelo livro - Enquanto o sono não vem – recolha de contos populares realizada por José Mario Brant que reúne oito histórias com ilustrações de Ana Maria Moura.

Estruturalmente, trata-se de uma coletânea de recontos, tipo de obra que se enraíza nas origens da literatura infantil, tal como a conhecemos a partir do século XVII, como são testemunhas as coletâneas organizadas pelos irmãos Grimm e as produções de Charles Perrault e Christian Andersen, que são mundialmente conhecidas. (CEALE, 2017)

No Brasil depois de 15 anos de sua publicação a polêmica se instalou por causa do conto A triste história de Eredegalda que narra a história de um pai que insinua que quer casar com sua filha. “José Mauro Brant, escritor e contador de histórias, foi surpreendido com as reclamações dos professores capixabas.” (ALBUQUERQUE, 2017). 

Para ele: “Há uma desinformação do que é o conto folclórico e dos contos de fada, que são territórios que abordam assuntos delicados. A gente está falando de um universo simbólico. É uma história que dá voz a uma vítima.” 

Concordo com o autor, pois em tempos de denúncias de famílias incestuosas (a questão não é de um incesto isolado. Há ao nosso lado famílias incestuosas!). Então conversar a respeito desse assunto não é apenas necessário, é imprescindível!

Para o Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (CEALE, 2017):

Aparentemente, alguns leitores desavisados consideraram que, por conta dessa temática, a narrativa seria inadequada para crianças. [...] Trata-se [...] de um julgamento indevido construído por leitura equivocada do romance, do reconto, da tradição oral e do lugar da literatura na formação da criança [...] 

Há poucos dias, no Rio de Janeiro, a obra Meninos sem pátria lançado em 1981 por Luiz Puntel (cujo exemplar aqui de casa está apagado de tanto uso) foi alvo de um grupo de pais de uma escola particular por considerá-la uma apologia ao comunismo. Ela compõe a Coleção Vaga-Lume e está em sua 23ª.edição. A narrativa apresenta crianças que, em virtude do exílio dos pais, tiveram suas vidas modificadas brutalmente. Consta no resumo da obra: 

Como Marcão, muitos garotos agarraram o que foi possível, botando o pé na estrada, fazendo a sua cama em um país para acordar no outro. Como Marcão, foram muitos os meninos sem pátria, heróis anônimos que jamais ganharão estátuas ou monumentos, mas que merecem o respeito de todos nós.

Buscando reportagens a respeito desse acontecimento, é possível sumarizar dessa forma: algumas pessoas consideraram a atitude dos pais correta, pois a obra ao citar a ditadura valoriza o discurso da esquerda; outras criticam a escola que acatou o pedido dos pais, portanto foi omissa e não abriu espaço para discussão. Acredito que isto é uma consequência da onda retrograda, somada ao oportunismo da eleição para presidente no Brasil. Lamentável, trata-se de uma obra linda que todos deveriam ler e aplaudir.

Outra obra que começou ser perseguida em setembro de 2018 é O menino que espiava pra dentro da premiada Ana Maria Machado, obra que foi acusada de estimular o suicídio. Na minha concepção isto é um completo equívoco. Buscando argumentos para aplacar minha tristeza, passo a palavra (com autorização do mantenedor da Coluna) ao Portal Lunetas - https://lunetas.com.br/ana-maria-machado/

Ainda não conheço O Livro da família de Todd Park, mas soube essa semana que, por apresentar, entre outros aspectos, as novas constituições de família: dois pais e duas mães (situação natural e constante não apenas no Brasil) não é recomendado que seja lido pelas crianças.

Para finalizar, pelo menos por enquanto, preciso reler o Diário de Anne Frank, para confirmar um beijo na boca entre personagens, que não percebi quando li e, dessa forma, não pode estar na escola. Mas antecipo dizendo que o motivo para rejeição dele pode ser também o nazismo que na atualidade muitos acreditam que não houve ou não foi esse mimimi que estão nos livros de História.

Enfim, aos que resolveram “caçar as bruxas”, aviso que elas são muitas na literatura infantil e estão soltas e aprisioná-las é uma missão quase impossível!

Recomendo a leitura:

ALBUQUERQUE, Manoela. Autor de livro que sugere casamento entre pai e filha atribui polêmica no ES à falta de capacitação de professores. Disponível em: https://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/autor-de-livro-que-sugere-casamento-entre-pai-e-filha-atribui-polemica-no-es-a-falta-de-capacitacao-de-professores.ghtml.

CEALE. Nota técnica sobre o livro. Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/files/uploads/Random/Nota%20t%C3%A9cnica%20livro%20Enquanto%20o%20sono%20n%C3%A3o%20vem.pdf.

PUNTEL, Luiz. Menino sem pátria. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.

Nota:

(1) http://portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/ClariceLispector(1).pdf


   584 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
DE TANTAS TIAS PARA TIA-AVÓ
Janeiro/2019

Ítem Anterior

author image
BIOGRAFANDO GENTE-GRANDE PARA GENTE-PEQUENA
Julho/2018



author image
SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.