LITERATURA INFANTOJUVENIL


MALBA TAHAN, MONTEIRO LOBATO E A MATEMÁTICA NA LITERATURA PARA CRIANÇAS E JOVENS

Tânia Regina Caldini

 

Atuo diariamente com projetos de Matemática no ensino fundamental de uma escola municipal em Londrina. Isso provocou em mim algumas reflexões a respeito da relação literatura infantil e a Matemática. 

Entendo que tanto a literatura infantil quanto a Matemática são fundamentais para a formação social e psicológica da criança, pois suscitam o imaginário infantil e estimulam o seu intelecto. Em especial, na fase inicial de sua formação quando elas são curiosas por natureza.

A leitura desperta a imaginação e o lúdico nos levando a pensar, raciocinar, interpretar, compreender diferentes situações textuais, dando suporte para uma argumentação mais crítica e objetiva sobre diversos assuntos. E o ato de ler, de um modo geral, tende a contribuir em vários aspectos na aprendizagem da Matemática.

A intenção desse texto é demonstrar a aproximação do pensamento dos escritores: Monteiro Lobato e Malba Tahan. Lobato nasceu em 1882 em Taubaté (SP) e morreu na cidade de São Paulo em 1948. Tahan nasceu em 1895 na cidade do Rio de Janeiro e morreu em 1974 em Recife (PE). Lobato morou em algumas cidades do interior paulista, enquanto Tahan passou parte da sua infância na cidade de Queluz (SP). 

Apesar dessa aproximação geográfica, não é possível afirmar que os dois se encontram pessoalmente. No entanto, em uma correspondência de Lobato para Tahan (1939) preservada no Centro de Memória da Educação da FE-UNICAMP, Lobato afirma que o livro - Homem que calculava “[...] ocupa lugar de honra entre os livros que conservo. Falta nele um problema – o calculo da soma de engenho necessaria para a transformação do deserto da abstração matemática em tão repousante oasis. [...]. (MALBA..., 2017).

Além disso Lobato cita Tahan em seu livro A Aritmética da Emília e isso evidencia uma afinidade entre os dois: 

A lição foi interrompida pela chegada do correio com uma porção de livros encomendados por Dona Benta. Entre êles vieram os de Malba Tahan, um misterioso califa árabe que conta lindos apólogos do Oriente e faz as maiores piruetas possíveis com os números. Dona Benta passou a noite a ler um dêles, chamado O HOMEM QUE CALCULAVA, [...] O tal homem que calculava só não calculou uma coisa: que com suas histórias ia fazer uma pobre velha perder o sono e passar a noite em claro. [...] A criançada assanhou-se com o Malba Tahan [...]. (LOBATO, 1973, p.112).

Resumidamente posso afirmar que a obra Aritmética da Emília - consiste na apresentação do país da Aritmética para a turma do Sítio do Picapau Amarelo, para isso, Visconde organiza o circo Sarrazani, e assim, entre uma encenação e outra os artistas, personificados pelo Visconde, descrevem o universo da Matemática e sua história, levando ao picadeiro personagens engraçados e divertidos. Desse modo, os algarismos; as operações matemáticas; os problemas; os sinais e tantos outros conceitos matemáticos se transformam em uma aventura lúdica e divertida.

Para Lajolo e Ceccantini (2008, p. 280) 

[...] o conteúdo do livro de Lobato – as “lições” – é apresentado em situações significativas para o leitor, e determinados conceitos são explorados em distintos contextos, constituindo o lúdico a principal estratégia para a apresentação do cognitivo. O livro propõe, assim, articulação entre os cálculos desenvolvidos no âmbito da abstração e sua aplicabilidade na vida cotidiana da criança, em oposição a uma metodologia centrada unicamente em aulas expositivas e abstratas, em conhecimentos livrescos e em exercícios de repetição, aplicação e recapitulação. 

Ao pesquisar a respeito de Malba Tahan descobri que ele era dotado de excepcional didática e imaginação, possuía extensa cultura e conseguia escrever com clareza e simplicidade, tornando a Matemática interessante, compreensível e admirável. Criou uma metodologia diferente para ensinar Matemática, em suas aulas, por exemplo, ele trabalhava com estudo dirigido, manipulação de materiais concretos, matemática recreativa, jogos, enigmas, situações do cotidiano e histórias. A proposta de Tahan era ensinar Matemática de um jeito diferente, que despertasse o interesse do aluno, construindo uma ligação entre a escola e a vida, dando continuidade ao que se aprende nela e o conhecimento que existe fora dela.

Nessa perspectiva a utilização de obras literárias como “pano de fundo” para a inserção de especificidades matemáticas torna-se um recurso didático valioso na busca por um processo de ensino e aprendizagem mais prazerosos, proporcionando aulas com situações imaginárias e reais que são muito mais atrativas ao aluno.

Tomando Lobato e Tahan como inspiração acredito que os mediadores de leitura e provedores de aprendizagem no contexto escolar devem usar a literatura infantil como recurso pedagógico no ensino da Matemática, fazendo isso com parcimônia, melhor dizendo, sem o peso de um conteúdo programático. Caso contrário, o encantamento que uma obra literária oferece, pode se perder e acabar desmotivando os alunos a lerem pelo simples prazer.

Sugestões de leitura:

LAJOLO, Marisa; CECCANTINI, João Luís (Org.). Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil. São Paulo: Editora Unesp; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

LOBATO, Monteiro. Aritmética da Emília. 4. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1973.

MALBA TAHAN. Documentos pessoais. 2017. Disponível em: http://www.malbatahan.com.br/documentos/pessoais/. Acesso em: 20 maio 2018.

 

NOTA

Tânia Regina Caldini - Professora da Rede Municipal de Londrina. Este texto é um extrato do artigo apresentado no Curso de Pós-graduação em Contação de Histórias e Literatura Infantil Juvenil do Centro Universitário Filadélfia em Londrina.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.