BIBLIOTECAS ACADÊMICAS


ENSINO SUPERIOR PRIVADO E BIBLIOTECAS ACADÊMICAS: UM QUADRO INACABADO

Após os "anos de ouro" para o mercado de ensino superior particular, onde havia uma demanda reprimida de parcela da população que tinha recursos mas não tinha oportunidade de ingressar em uma faculdade ou universidade, estamos vivenciando atualmente uma situação inversa. Há uma oferta gigantesca de vagas nas IES particulares e uma demanda decrescente de estudantes. A oferta é maior que a procura. Lei do mercado. Na verdade há número suficiente de egressos do ensino médio para cobrir todas as vagas abertas no ensino superior particular mas grande parte desta demanda é potencial e não se efetiva em função do baixo poder aquisitivo da população. Não há capacidade financeira para "bancar" custos de uma mensalidade.

Qual é a alternativa?

Há o ensino público gratuito, financiado pelos recursos da contribuição da sociedade ao Estado e gerido pelo governo, seja ele local, estadual ou federal. Esta seria uma opção mas, por todos os problemas que conhecemos, que vão desde o endividamento do setor público, problemas de gestão administrativa e até de questões de cunho político, a área pública não tem respondido às necessidades de expansão do número de matrículas. A reforma tributária, posta em pauta pelo governo Lula trouxe à tona a grande batalha pelos recursos financeiros advindos dos impostos e taxas pagos pelo contribuinte. Governos estaduais querem uma fatia maior, governos municipais querem uma fatia maior, o governo federal tem os seus limites, todos reclamam da situação difícil das finanças do Estado, de sua capacidade de captação de recursos. Informações mais recentes dão conta de queda brusca na arrecadação dos impostos devido à retração da atividade econômica. Na esteira desse processo, e como exemplo claro da situação, as três universidades estaduais paulistas anunciam o comprometimento de mais de 80% de seu orçamento com despesas de pessoal, ativos e inativos. Algumas já chegam a mais de 90%. Pensar que essas instituições são referência no Brasil pela legislação que as ampara quanto ao seu financiamento! Parte de ICMS arrecadado no Estado de São Paulo é destinado especificamente ao seu financiamento. Quando há desenvolvimento, ótimo, há maior arrecadação, mais dinheiro. Quando a economia está desaquecida, menos. A contingência de menores recursos simplesmente não é considerada? A própria lei traz uma variável de risco. Esta variável não foi considerada nos planos estratégicos dessas IES? Nem tudo é perfeito.

A situação é mais preocupante nas IES federais, muitas delas estão à míngua, tentando sobreviver com parcos recursos, sem alguma possibilidade de desenvolvimento.

Enquanto o ensino particular superior crescia a taxas invejáveis, a área pública mantinha a sua oferta de vagas sem apresentar crescimento significativo. Desta situação derivou-se o quadro atual onde 70% das quase 3 milhões de matrículas no ensino superior do Brasil estarem nas IES particulares.

Do engessamento das condições de expansão das vagas na área pública, o governo federal criaria mecanismos de financiamento para o ingresso de estudantes carentes nas IES particulares. FIES e programas anteriores apresentaram-se com soluções paliativas; sua abrangência restrita não oferece real oportunidade de financiamento para aqueles que precisam, que realmente são carentes. Com todas as suas limitações de oferta de crédito e incapacidade de cobrir o universo dos estudantes que necessitam da ajuda, mesmo assim, convive hoje com uma inadimplência que chega a R$ 2 bilhões. Mesmo limitando em muito a oferta de crédito, ainda há problemas de gestão dos programas.

Na esteira desse movimento de expansão do número de IES particulares e baixo poder aquisitivo da população, há um processo de ociosidade da capacidade instalada nas Instituições. Abrem-se processos seletivos mas não há resultado na ocupação das vagas oferecidas. A recessão no segmento educacional privado é uma realidade e não é de hoje. A partir do processo de superconcorrência imposta pelo elevadíssimo número de IES autorizadas a funcionar pelo MEC, principalmente nas grandes regiões metropolitanas do país, houve um processo de esvaziamento das IES mais estruturadas e um processo lento e desgastante de entrada de alunos nas IES recém criadas. Resultado: não mantemos nem melhoramos as condições das IES estabelecidas, nem oferecemos condições mercadológicas para que as IES recém criadas possam desenvolver sua estrutura de forma sustentada. As conseqüências desse embate são evidentes, a demanda por matrículas cai em detrimento das condições macro-econômicas (desemprego, recessão econômica, etc) e também por uma ausência de planejamento setorial.

A demanda reprimida pelo estudo de nível superior ainda é muito grande. A área governamental responsável pela gestão do setor não ofereceu as condições de sustentabilidade necessárias para a manutenção desse mercado hoje em situação de evidente desequilíbrio. As alternativas a esta situação vão desde a oferta de financiamento público aos egressos do ensino médio, para que tenham condições de freqüentar o ensino superior, até medidas drásticas de redução da oferta das condições de ensino, pesquisa e extensão, anteriormente oferecidas pelas IES, visando adequar-se às novas condições de custeio impostas pela superconcorrência estabelecida pelo mercado. O que fica evidente é a ausência de um planejamento estratégico para o setor. Propôs-se uma expansão do número de vagas e ofereceu-se ao setor privado, através da gestão do ex-ministro Paulo Renato, a ampliação desenfreada do segmento sem que houvesse as condições de sustentabilidade necessárias, ao risco do investidor, à revelia de um planejamento e das verdadeiras condições de mercado.

A partir dessa situação as IES vêm adequando-se através de um redimensionamento cada vez mais radical de suas contas, estruturas e estratégias. As bibliotecas acadêmicas, cujas estruturas requerem investimentos altos, também têm sofrido as conseqüências dessa situação. Durante os últimos 10 anos o segmento foi dos mais ativos na oferta de vagas para profissionais de bibliotecas. Vagas de bibliotecários, auxiliares, técnicos, profissionais de informática foram criadas e absorvidos um grande número de profissionais nas atividades variadas das bibliotecas. Talvez fosse o setor de maior vitalidade e crescimento no ramo das bibliotecas nos anos 90. Na virada do século, a partir de 2001 a crise do setor começou a acentuar-se indicando uma tendência de redução da estrutura das IES como estratégia de sobrevivência no mercado. As primeiras evidências da chegada dessa crise nas bibliotecas adveio das dificuldades de investimento em acervo, renovação de assinatura de publicações periódicas estrangeiras, etc. Aos poucos, em estratégias mais radicais de redução de custos, iniciou-se um processo de revisão de quadro de funcionários. A redução do número de auxiliares e técnicos até o limite (e mesmo abaixo) das condições operacionais e de manutenção da estrutura das bibliotecas ocorreu e vem ocorrendo à revelia do que seria um padrão aceitável. Após esse primeiro movimento, uma nova onda de reestruturação vem varrendo algumas bibliotecas tendo como alvo dirigentes dessas bibliotecas. Profissionais com 15, 20, 26 ou mais anos de dedicação a causa da construção desses equipamentos e serviços vêm sendo desligados em função de seus salários e de seus custos fixos que acabam pesando no custeio dessas Instituições.

O "know-how" desenvolvido e acumulado em anos de trabalho acaba perdido. Bom lembrar que as bibliotecas acadêmicas não são o alvo principal dessa "reestruturação" mas um dos alvos. O "enxugamento" da estrutura passa por todos os setores das IES. Nas bibliotecas as conseqüências são evidentes. Um modelo construído ao longo dos anos, dentro das características e especificidades das IES particulares, e ainda inacabado, estava em processo de maturação, amadurecimento e sem alcançar a idade adulta está sofrendo um processo de rebaixamento de suas condições operacionais. Todos sabemos da importância do tempo na construção de qualquer que seja o modelo. Temos o exemplo claro do próprio equipamento biblioteca. Há um tempo necessário para o seu "amadurecimento". Políticas de desenvolvimento de acervo, políticas de atendimento ao público, tecnologias, processos macro-econômicos e micro-econômicos agem simultâneamente e de sua interação surgem as resultantes que dão o rumo ou pelo menos indicam os caminhos que devem ser seguidos pelas bibliotecas. Todo este processo é mutante, alteram-se as variáveis e, "equilibrista", o bibliotecário administrador tenta manter o rumo planejado da biblioteca dentro de uma estratégia anteriormente concebida. De um lado as necessidades do próprio equipamento, de outro, as necessidades do organismo ao qual ela serve. Nesta situação, muitas vezes conflitante, a biblioteca deve acompanhar de perto e fazer o seu esforço, dar sua colaboração no processo, mantendo, o quanto puder, as suas condições de desenvolvimento, operação e manutenção.

Os anos necessários para que uma biblioteca acadêmica desenvolva-se e entre em um estado de equilíbrio em relação à sua comunidade, acervo, serviços, etc. depende do próprio desenvolvimento e capacidade de investimento direto da IES. Aquelas IES que puderam investir e investiram em suas bibliotecas contam hoje com um patrimônio bibliográfico acumulado. Apesar das dificuldades conjunturais vividas por elas neste momento, muitas ainda estão mantendo seus investimentos nas bibliotecas.

A pouco tivemos a oportunidade de realizar uma reunião de bibliotecários acadêmicos nas dependências da Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo, no bairro do Brás. Grata surpresa foi encontrar uma biblioteca com projeto arquitônico avançado, trabalhada em todos os seus elementos: cor, iluminação, formas, espaços, traduzindo não só a vontade de realizar um investimento mas o cuidado em sua realização. Espaço destinado a um acervo de embalagens, voltado ao curso de Design, sala de exposições estrategicamente posicionada, "hall" central vazado com visão dos três pavimentos em forma de mezanino oferecendo ao usuário a sensação de grandeza e generosidade necessária a um ambiente de biblioteca, afinal é o alicerce do conhecimento registrado desse imenso edifício do conhecimento humano.

Apesar de algumas IES manterem os seus investimentos nas Bibliotecas, um número significativo, majoritário delas, pelas razões expostas, estão reduzindo e até suspendendo seus investimentos.

Novos tempos, novos comportamentos, novos desafios. Os profissionais das bibliotecas acadêmicas devem encarar este novo momento como uma oportunidade para desenvolver novas competências, exercitar sua capacidade de adequação e administração, sempre encarando de forma positiva os desafios que têm e terão pela frente. Capacidades de negociação, observação, interlocução, relacionamentos, associação entre outras, são e serão, cada vez mais, exigidas destes profissionais. Não se trata de preservar empregos ou cargos, trata-se de fazer com que o equipamento Biblioteca mantenha-se a altura de seus objetivos e em consonância com os objetivos da IES, de suas metas e pretensões. Valorizando o equipamento, valorizamos a profissão.

Um novo profissional deve surgir desta nova conjuntura, mais flexível, mais atento, mais criativo, mais pró-ativo. Aos que forem ficando pelo caminho das mudanças, cabe ressaltar que nem sempre a estrada mais larga é a mais prazeirosa ou mais fácil, nem ao menos a única. Em muitos momentos precisamos mudar e não temos coragem para tal, estamos acomodados no processo, na rotina. Quando somos pegos pelas mudanças e involuntariamente deixamos a organização, somos "deixados", desligados, percebemos o quanto precisávamos disso e apesar do lado "ruim" do processo começamos a enxergar o quanto isso pode ser positivo para o profissional e para a pessoa. Muito há que se fazer em nossa profissão. Por todos os lados, carências, trabalho e oportunidades, basta estar disposto a novos desafios, a formas criativas e por vezes inusitadas de atuação. A era do emprego "quadradinho", convencional como estávamos acostumados acabou. Os profissionais recém-chegados ao mercado que o digam.

Estamos prontos para essa nova realidade?


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ARTUR DA SILVA MOREIRA

Bibliotecário, fundou e presidiu o Grupo de Bibliotecas de Instituições Particulares de Ensino Superior – GBIPES (1997 – 2004) e a Comissão Brasileira de Bibliotecas das Instituições Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica – CBBI (2011 – 2014). Formado pela FESP-SP, turma de 1987. Coordena o Grupo de Trabalho de Cadastro de Bibliotecas e Profissionais da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e atua como moderador e administrador da Lista de Discussão da CBBI, atualmente com 672 membros.