LITERATURA INFANTOJUVENIL


REDESCOBERTA DE UM LIVRO

A maioria dos adultos, diferentemente das crianças, tem dificuldade de lançar um novo olhar sobre velhos livros. Lemos uma vez e basta. Essa limitação (talvez preguiça) faz com que percamos grandes encontros ou re-encontros. Triste isso, pois quem não carece de grandes encontros? Desses encontros que paralisam?

 

Outro dia fuçando alguns sebos de Londrina atrás de livros infanto-juvenis para o acervo de uma biblioteca comunitária, me encontrei com um livro. Ele foi publicado em 1964 (pouco mais novo que eu), mas é um velho livro! Seu título original é: “Charlie and the chocolate”, mas no Brasil é “A fantástica fábrica de chocolate” (uma tradução, que além de gostosa é mais digna para o texto). Ele chegou a terras brasileiras em 1989 e, quando passou pelas minhas mãos, não sei explicar, mas não me pareceu tão doce.

 

Não posso deixar de dizer que é óbvio o tom moralizador do autor - Roald Dahl – mas sua mensagem é transmitida não de uma maneira entediante e moralista, pelo contrário, um dos principais personagens, o Sr. Willy Wonka, puxa o fio da história de forma humorada e “descomportada”. Ele, por exemplo, vibra quando uma criança egoísta vai parar no lixo de sua fábrica ou quando a menina mimada é atacada por esquilo, quanto tenta levar um para casa.

 

Desde as páginas iniciais é possível perceber a intencionalidade do autor. Ele apresenta os personagens da seguinte forma:

 

Neste livro aparecem cinco crianças:

 

AUGUSTO GLUPE

o menino guloso

 

VEROCA SAL

a menina mimada

 

VIOLETA CHATACLETE

a menina que masca chiclete o tempo todo

 

MIGUEL TEVEL

o menino que só vê televisão

 

e

 

CHARLIE BUCKET

o herói.

 

Além desses personagens, no decorrer da história o leitor conhece os quatro avós do Charlie (em especial o avô José) e os adoráveis umpa-lumpas. Umpa-lumpas são anões importados de Lumpalópolis, que são responsáveis em fabricar guloseimas deliciosas e malucas entre elas: travesseiros comestíveis de maria-mole, papel de parede lambível para quartos de crianças, vacas que dão leite com chocolate... Sem dizer do elevador que leva as pessoas a salas maravilhosas com: rinques de patinação de sorvete de coco-coca, doces explosivos para inimigos, barras de chocolate invisível para comer na classe, gruda-queixo para pais muito falantes, pirulitos luminosos para chupar na cama à noite, bombom mágico – você segura na mão e sente o gosto na boca...

 

Criativas também são as músicas que arremata os principais acontecimentos. A mais divertida em minha opinião é a da Veroca Sal, divirta-se:

 

Sal demais em qualquer comida

Deixa a gente com a garganta ardida.

Veroca Sal não é sal, é criança,

Mas deixou entre nós ardida lembrança.

Mimada, estragada, entojada, briguenta,

Tem tudo o que quer e não se contenta.

Escreveu não leu ela chama o pai,

Só abre a boca e pede o que sai:

Brinquedos, doces, qualquer bugiganga.

Se é tempo de uva ela pede manga,

Se em casa tem doce ela pede salgado,

Se tem rapadura ela pede melado.

Se está na Itália quer ir pra Argentina,

Se está na praia quer ir pra piscina.

Exige e quer tudo o que sonha

E o pai obedece que nem um pamonha.

A mãe, outra tonta, está sempre aflita,

Naquela família só a filha é que apita.

Mas na fábrica quem manda é Seu Wonka

E a Veroca acabou levando bronca:

Você pensa que aqui está na sua casa?

Que pode pedir galinha sem asa

E querer transferir o Amazonas pro Nilo?

Pois só faltava querer um esquilo!

Pra uma menina com tanto capricho

O melhor lugar é no meio do lixo.

Mas não se preocupe, vai ter companhia,

Vai ter papel velho e caixa vazia,

Lasanha estragada ainda com molho,

Feijão azedo com resto de repolho,

Espinha de peixe, osso de galinha,

Casca de banana e lata sem sardinha.

Pra quem só conhece riqueza e luxo

Vai ser difícil agüentar o repuxo.

Mas pra Veroca é esse o remédio

Pra não acabar morrendo de tédio.

Pois essa mania de pedir só besteira

Bem lá no fundo é uma grande canseira.

 

O que eu não contei e agora eu rimo:

é a história de vida daquele menino,

Isso mesmo, o tal Charlie

principal personagem.

Que o autor considera o herói da história

O Charlie Bucket.

Pra mim na verdade, diria a você.

Ele além de um menino, é um lindo buquê

de flores e aroma e bom coração.

E que foi para fábrica vencendo um concurso

(e isso eu não conto, procure o gorgulho)

Só sei que o menino e sua família

unidos venceram o tal campeonato

com um só objetivo: a fome matar

E se Sr. Willy Wonka,

aqui nessa história foi fada-madrinha

Quisera que todos pudessem entrar na minha cozinha

E tivessem essa chance de matar todas as fomes que a vida nos dá.

 

E o final dessa história?

Não conto o enredo.

Senão não mereço

o perdão de quem tá me lendo!

 

 

DAHL, Roald. A Fantástica fábrica de chocolate. São Paulo: Martin Fontes, 1989.

 

 

Obs: esse texto também pode ser “curtido” por meio do filme homônimo.

 


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.