ARTIGOS E TEXTOS


LEITURA, MEDIAÇÃO E APROPRIAÇÃO DA INFORMAÇÃO

A LEITURA

Ler é decodificar palavras; ler é o processo que permite a relação entre nós e o mundo; a leitura nos proporciona o conhecimento; a realidade só se apresenta integralmente por meio da leitura; a leitura, assim como a escrita, é a expressão máxima da inventividade, da criatividade e da intelectualidade do homem; a leitura nos leva a uma viagem pelo imaginário; ler é se apropriar do acervo de conhecimentos e experiências da humanidade; a leitura é a possibilidade da fruição do belo, da estética; ler é se nutrir da tradição e da memória do homem; a leitura é proeminentemente prazer; a leitura é a representação maior da virtualidade; ler é caminhar pelos espaços do sonho; a leitura possibilita a vivência momentânea dos desejos, das vontades e dos anseios reprimidos ou impossíveis de serem concretamente realizados; a leitura permite ser o outro, estar no outro; ler é se apropriar de um dos mais importantes instrumentos de opressão, a escrita.

Inúmeras são as definições e conceitos articulados e elaborados pelo homem para a leitura, quer pendendo para um caráter mais político, mais social, quer para um caráter mais instrumental ou mais técnico.

Independentemente de seu caráter, a leitura é, sim, um dos objetivos da biblioteca, qualquer que seja o tipo desta última. Apesar de ter seu espaço de análise, de pesquisa, de interesse e de preocupação dentro da área diminuído; apesar de quase ser esquecida; apesar de ser considerada secundária, a leitura se faz presente, em especial nos aspectos que dizem respeito à mediação (1) na ambiência da informação. 

Com a necessidade de se dizer “Ciência da Informação”, com a necessidade de se enquadrar dentro das fronteiras que limitam a Ciência da Informação, a Biblioteconomia relegou a um plano inferior de interesse, tudo aquilo que aparentemente não se refere à informação. A leitura foi entendida dessa forma e, portanto, considerada como prescindível na ânsia de galgar um enganoso status dentro da Ciência da Informação. 

Semente da Ciência da Informação, a Biblioteconomia, hoje, se vê impelida a desconsiderar antigos segmentos de ação e de interesse sob argumentos – quase sempre não explicitados – de que, com esses segmentos, sua permanência naquela ciência seria inviabilizada.

 

LEITURA E MEDIAÇÃO

Defendo, ao contrário, que a leitura está no cerne da apropriação da informação. Esta não existe a priori, não existe antecipadamente; por ser intangível, não concreta, ela apenas se concretiza no processo de mediação. Por ser intangível, a informação precisa do documento para ser veiculada e apropriada. A informação também é disforme, moldando-se ao acervo de conhecimentos de quem a procura. Assim, o documento permite a comunicação da informação. Por sua vez, a decodificação desse documento, o decifrar de sua linguagem, enfim, a leitura é que possibilitará sua apropriação. Denomino o processo que vai da comunicação, via documento, até a transformação do conhecimento de uma pessoa, de mediação da informação. Assim pensando, as áreas da Ciência da Informação e da Biblioteconomia não armazenam, organizam ou processam a informação, mas uma possível informação, uma informação latente, uma informação potencial ou, como passei a denominar, uma proto-informação. 

O objeto da Ciência da Informação e da Biblioteconomia, a informação (2), a partir do exposto, só pode se realizar, se fazer presente, se concretizar, com base e fazendo uso da leitura. Sem ela todas as ações realizadas nos espaços informacionais são inúteis e desprovidas de sentido, pois a informação deixa de ser apropriada.

A leitura é realizada a partir do acervo de conhecimentos de cada pessoa. Cada leitura, dessa forma, é individual, diferente de outra leitura, pois não pode prescindir dos referenciais de quem a realiza.

A exemplo da informação, a leitura não existe a priori, se concretizando no processo de mediação. No entanto, a mediação da leitura faz parte da mediação da informação.

Um dado importante: no processo de leitura deve-se considerar o conteúdo que, conscientemente, o autor pretende veicular (a informação registrada, a intencionalidade do autor), mas, também, as características do documento que permite sua comunicação. Cada mídia possui uma linguagem própria que impõe formas diferenciadas de leitura, implicando em uma maior ou menor apropriação do conteúdo.

Insistindo: a leitura é imprescindível para a Ciência da Informação e para a Biblioteconomia. Sem ela, leitura, essas áreas passam a lidar com um objeto utópico.

Desconsiderar a leitura ou entendê-la como de menor importância, pertencente a um campo tradicional e sem espaço nas demandas contemporâneas, é decretar a inviabilidade daquelas duas áreas.

 

LEITURA E BIBLIOTECA

Quando se fala em leitura nos espaços da biblioteca tende-se a pensar apenas em incentivo e, a partir disso, em algumas – poucas – ações, como a hora do conto. Essa compreensão do lugar da leitura nas bibliotecas é por demais estreita e reducionista. Na verdade, a ação primordial nesses espaços é a leitura. A ação cultural, por exemplo, pretende, com base na leitura, levar as pessoas a produzir cultura, não apenas e tão somente consumir cultura. O espaço da biblioteca permite trabalhos de ação cultural, não com base unicamente na leitura do texto escrito, mas também na interação com outras linguagens.

Não existindo a priori, como já visto, a leitura pode se utilizar de qualquer tipo de documento e seu processo se concretiza no momento em que o usuário se relaciona com o documento. Assim, a informação (ou proto-informação como prefiro denominar) pode ser veiculada uma única vez (como é o caso do teatro, de uma apresentação musical, um recital, uma leitura dramática, um sarau, etc.) e, mesmo assim, fazer parte dos interesses da biblioteca. A forma como se dá o registro da proto-informação – se antecipada ou registrada em um documento que pode ser recuperado a qualquer momento – não determina se será ele objeto de interesse e de ação da biblioteca. Melhor dizendo: à “informação registrada” – como o objeto da área é apresentado pela literatura especializada – deve ser acrescida a atividade cultural. Esta acontece uma única vez e não é passível de recuperação posterior, a não ser que seja registrada em um suporte que permita essa recuperação (como é o caso da fita de vídeo, da fita de áudio, do DVD, da fotografia, etc.). No entanto, considero a atividade cultural como objeto, também, da área, pois acontece em um espaço informacional e tem como objetivo principal a possibilidade, por quem dela participa, de apropriação de informações.

A apropriação da informação, que fique claro, pressupõe uma alteração, uma transformação, uma modificação do conhecimento, sendo assim uma ação de produção e não meramente de consumo.

Há que se ficar claro, também, que na mediação existe uma “interferência” do profissional que atua no espaço em que ela é deflagrada. A interferência contradiz o senso comum dos profissionais da área que defende uma impossível neutralidade no âmbito do fazer desses profissionais. Não só a interferência é salutar, como é, também, imprescindível. Os limites entre a interferência e a manipulação, no entanto, são frágeis e passíveis de não serem percebidos.

A interferência, no âmbito da mediação cultural, pode ser identificada pela fabricação cultural, em oposição à ação cultural, conforme definida por Teixeira Coelho (COELHO NETO, 1997, p.175)

Processo de mediação cultural com ponto de partida, etapas intermediárias, fim e finalidade previstos. Tem por meta, alternativa ou cumulativamente, a transmissão de conhecimentos e técnicas determinadas; a formação de uma opinião cultural específica; a conformação de um modo de percepção ou a produção de uma obra cultural previamente estipulada. Neste processo, os objetivos são predeterminados, cabendo ao agente ou mediador cultural orientar as atividades de seu público na direção estabelecida.

A limitação no entendimento da leitura no âmbito das bibliotecas, retornando, dá-se também pelo fato de se conceber aquela, quase sempre, como restrita à palavra escrita e, assim, relacionada exclusivamente aos livros, revistas, enfim, aos suportes da escrita.

Essa concepção é generalizada e nos acompanha desde os primeiros anos da escola, uma vez que somos instruídos tão somente para a leitura da palavra impressa. Aprendemos a ler e a escrever a palavra.

A leitura, no entanto, não se resume à palavra escrita, ao contrário, ela é ampla o suficiente para abarcar todos os tipos de suporte.

Paulo Freire, por exemplo, nos fala da leitura de mundo precedendo e seguindo todo e qualquer tipo de leitura.
 

LEITURAS

Há alguns anos, em palestra proferida em um evento paralelo à Bienal do Livro, de São Paulo, sustentei a idéia de que somos alfabetizados apenas em relação à palavra escrita. A escola utiliza métodos para nos tornar decodificadores da palavra, leitores da palavra escrita. Lidamos com o mundo da informação somente com esse instrumento. Nem mesmo, provavelmente, conseguimos lidar de maneira plena com essa ferramenta. Até há pouco, esse aprendizado era suficiente para a apropriação do conhecimento. Hoje, esse instrumento é insuficiente. 

A multimídia pode assim ser segmentada: texto escrito, imagem fixa, imagem em movimento e som. Como observado, em três desses segmentos a escola não nos alfabetiza. Trabalhamos, lidamos com eles de maneira intuitiva, uma vez que desconhecemos a linguagem dessas mídias. Hoje, a informação não é apropriada exclusivamente pelo texto escrito.

Como profissionais da informação, que apregoamos ser, não podemos restringir os suportes com os quais lidamos apenas ao livro ou àqueles que sustentam a palavra escrita. Estaremos, se assim o fizermos, contradizendo nosso objeto de estudo, pesquisa e trabalho.

Fácil é, no entanto, observar que as bibliotecas, em sua maioria, priorizam o livro e o periódico. Argumentos que defendem essa escolha não faltam: problemas com a aquisição de suportes diferenciados; não existência de móveis adequados para o armazenamento de “materiais não convencionais” (3); falta de preparo dos usuários para fazerem uso desses materiais; etc.

A verdade é que o bibliotecário não sabe lidar com a linguagem das mídias não escritas, das mídias que não lidam com a palavra. Como quase todos, ele, profissional da informação, também não foi alfabetizado na linguagem da imagem fixa, da imagem em movimento e do som. Inconscientemente, dirige suas ações, seu fazer para a linguagem em que é alfabetizado. A biblioteca, assim, é organizada e estruturada com base nos conhecimentos dos bibliotecários que nela atuam.

Há um inegável conflito entre o discurso do bibliotecário – que prega a informação como objeto de sua área – e a sua prática. Por mais que se diga o contrário, o livro e o periódico continuam sendo os suportes priorizados pelas bibliotecas. Os usuários, que têm em seu dia-a-dia a imagem como importante veículo de comunicação de informação, sentem a biblioteca deslocada, isolada do cotidiano contemporâneo na medida em que nela, a imagem praticamente não tem espaço. O mesmo pode ser observado em relação ao som.

Suportes que abrigam a multimídia, como o computador, na medida em que possibilita o acesso a várias mídias simultaneamente, não são motivos de ações específicas, não merecem, na biblioteca, serviços voltados exclusivamente para eles. À Internet, por exemplo, é permitido o acesso durante um determinado período e com restrições a certas categorias de sites. Esse é, em geral, o único serviço oferecido pela biblioteca em relação à Internet.

Em um momento em que o telefone celular começa a ocupar um espaço importante na comunicação de informações – atuando não apenas como uma ferramenta de transmissão de mensagens de voz –, sendo motivo de atenção dos meios de comunicação de massa, como a televisão, o rádio, os jornais e as revistas, desconheço qualquer trabalho ou mesmo projeto, no âmbito das bibliotecas, que tenha o telefone celular como veiculo de comunicação de informações ou que esteja atrelado a um trabalho formal dirigido aos usuários. 

Um ponto importante a ser questionado: e o papel da formação do profissional bibliotecário? Qual sua responsabilidade na atual situação da leitura, tanto do texto escrito como dos outros segmentos da multimídia?

 

BIBLIOTECÁRIO E LEITURAS

A leitura esteve entre as principais preocupações e interesses dos cursos formadores de bibliotecários. Vinculada primordialmente ao livro, a Biblioteconomia tinha na leitura da palavra escrita o recurso para fazer uso daquele suporte. Na década dos 90 do século passado, no entanto, essa situação se modifica.

O crescimento da Ciência da Informação; a ampliação dos espaços da Biblioteconomia por ela ocupados; a aceitação – ao menos no discurso – da informação como objeto da área; a procura por uma roupagem mais “moderna”, necessária, mas à custa de relegar conceitos e fazeres da Biblioteconomia ainda válidos, etc., implicaram em alterações na formação do bibliotecário.

A informação precisa ser manipulada e, assim, faz-se mercadoria (a reificação da informação). Como tal, pode ser armazenada, organizada, tratada e disponibilizada. A disseminação, que a bem da verdade, nunca foi um foco importante dentro da Biblioteconomia, mantém o seu pequeno espaço nas novas discussões. Nos currículos, a disseminação continua a se fazer presente como ênfase principal em uma ou duas disciplinas. Mediação é uma palavra ainda fora do vocabulário da área ou, quando muito, sinônimo de Serviço de Referência.

Em todas as disciplinas e áreas do saber humano, existem correntes que analisam, explicam e vêem a mesma área sob prismas diferentes e, boa parte das vezes, antagônicos. Na Biblioteconomia essas correntes também existem, embora a principal delas, a hegemônica, é de tal forma abrangente e totalitária, que passa a falsa idéia de consenso, de um modo único de pensar existente na área.

A elite – que domina as organizações estruturadas da área, quer no âmbito de fomento, de representação ou de disseminação – determina a direção, o caminho, o destino das pesquisas – quando apóia algumas em detrimento de outras – e das reflexões e debates – quando apóia alguns eventos em detrimento de outros; quando elege determinados temas; quando estrutura temários calcados nas falas de palestrantes que partilham das mesmas concepções; quando estipula qualidade de textos e de revistas baseado na titulação ou, o que é pior, na docência de pós-graduação stricto-sensu.

A elite comanda e determina os destinos da área e passa a falsa idéia de consenso, de que há um único modo de pensar a Biblioteconomia e a Ciência da Informação.

Com a consolidação do neoliberalismo na década dos 90 do século passado, o fim das ideologias, a inviabilidade das correntes, a existência de um pensamento único, passaram a ser defendidos e se tornaram hegemônicos.

Para a Biblioteconomia, como exposto anteriormente, foi fácil aceitar, assimilar e se integrar a essa forma de pensar.

A Biblioteconomia achou o seu espaço, as idéias com as quais o pensamento dominante mais se identifica; a Biblioteconomia e a Ciência da Informação transitam familiarmente na concepção neoliberal. Ouso dizer que no âmbito do pensamento hegemônico, a Biblioteconomia e a Ciência da Informação são neoliberais.

O mercado de trabalho, ainda nos anos 90, com a concepção de que o Estado deve pouco influir na economia e diminuir suas áreas de responsabilidade – trazendo como conseqüência um imenso arrocho salarial, a redução do funcionalismo público, a pequena ou quase nenhuma atenção para os segmentos culturais e educacionais, etc. –, embora com um altíssimo índice de desemprego, se apresentou para a Biblioteconomia tendo a iniciativa privada como o espaço que mais ofereceu oportunidades. A ampliação do ensino privado, das universidades particulares – fruto também das concepções neoliberais – abriu, para o bibliotecário, um amplo espaço de atuação. Assim, o mercado de trabalho do bibliotecário, a partir dos anos 90, esteve vinculado, primordialmente, aos Centros de Informação e Centros de Documentação de empresas e às Bibliotecas das universidades privadas.

O quadro de pessoal das bibliotecas não foi, na grande maioria dos casos, reposto após as perdas por aposentadorias, mortes, transferências e demissões. Nas bibliotecas escolares a atuação de professores readaptados e a ausência de bibliotecários ainda é uma trágica constância.

Outra característica desse período é a pouca preocupação com o social. Em sendo assim, as verbas voltadas para esse fim escasseiam, os investimentos são reduzidos. Saúde, saneamento básico, moradia, educação, cultura, etc., pouco se beneficiam das verbas públicas.

Em suma: a Biblioteconomia e a Ciência da Informação moldaram-se ao neoliberalismo, principalmente pelo fato de que a concepção que domina a área tem pressupostos muito próximos a ele; o mercado de trabalho, a partir dos anos 90, abriu espaços de atuação para o bibliotecário basicamente nas empresas privadas, incluídas as bibliotecas das universidades particulares; os governos neoliberais deram pouca atenção aos aspectos culturais e educacionais.

 

FORMAÇÃO E LEITURA

Como quase todo o curso da esfera profissionalizante, o de Biblioteconomia também tende a estar a reboque do mercado. Ensina-se com péssimas condições estruturais (salas de aula, laboratórios, salas de permanência de professores, espaços de convivência dos alunos, etc.); com ferramentas e instrumentos obsoletos (computadores, redes, recursos audiovisuais, etc.); com acervos bibliográficos desatualizados e de abrangência restrita; com quadro de professores e funcionários insuficiente; com salários baixos, etc.

Apesar do exposto acima – que deve ser uma constatação e não servir como justificativa –, os cursos de Biblioteconomia se renderam às demandas do mercado, como se a função do ensino fosse apenas e tão somente preparar profissionais para atender necessidades sazonais desse mercado. É preciso atender demandas, sim, mas, também, criar novas demandas, fruto das reflexões, discussões, debates, teorias e concepções da área, sob pena dos professores se transformarem em meros “treinadores”, em meros “repassadores” de ações que satisfaçam e resolvam uma determinada atividade.

Em outro texto, também abordei o tema: 

Estruturar um perfil profissional a partir apenas das demandas de mercado significa formar, preparar e voltar um segmento tão somente para atender interesses que não são necessariamente frutos das necessidades da sociedade.

Além disso, a formação estará sempre aquém das exigências desse mercado.

A formação passa a ser mero objeto do mercado e não sujeito dele, assim como o profissional não interfere, nem influencia, visto que está preparado apenas para atender ao já estabelecido e solicitado dele (ALMEIDA JÚNIOR, 2002, p.135-136).

Profissionais e professores da Biblioteconomia relegaram a um segundo plano os segmentos da área vinculados aos aspectos culturais e educacionais. A leitura, por fazer parte desse universo – concepção com a qual não concordo como apresentado anteriormente –, está afeita a atuação da classe de bibliotecários considerada de status menor.

Nos cursos de Biblioteconomia, a leitura em sala de aula é pragmática, tem um objetivo e uma finalidade bem delineada, diferenciando-se dos conceitos de ação cultural e de produção cultural. Mesmo sabendo que as disciplinas têm um programa a cumprir, não pode ser ele entendido de maneira dissociada dos alunos, nem se desconsiderar o cervo de conhecimentos e experiências deste último. É ele, aluno, co-participante nas ações de educação e não mero ente passivo que apenas recebe informações tidas como certas e corretas para a sua construção profissional.

A leitura destoa desse conceito autoritário de ensino, na medida em que só se concretiza no momento da mediação. Mais: ela depende do conhecimento do leitor, da participação dele, da concentração dele. A leitura exige trabalho, ela não ocorre sozinha, ela não se dá por si mesma.

Uma vez que a leitura é ampla, abarcando a linguagem de todos os segmentos da multimídia e que a Biblioteconomia tem como objeto a informação e esta não está restrita, para ser apropriada, a um único suporte, devemos nos perguntar – todos os que lidam com a formação do bibliotecário, que atuam na área ou que têm interesse por ela – como a leitura está sendo trabalhada nos cursos de Biblioteconomia.

Desconheço textos da área que abordem, nos cursos de Biblioteconomia brasileiros, a leitura da imagem fixa, da imagem em movimento ou do som. Vez ou outra, ouço comentários sobre a necessidade de disciplinas voltadas para a indexação de filmes ou da classificação de imagens, disciplinas que, obviamente, precisam lidar com a linguagem da imagem em movimento e da linguagem fixa.

Não basta usar o filme em sala de aula sem uma discussão sobre sua linguagem, assim como não basta simplesmente utilizar o texto técnico – para alunos oriundos do ensino médio e não familiarizados com ele – sem que o aluno entenda a linguagem dele, linguagem essa que é diferenciada e tem uma estrutura própria. A leitura não é idêntica, mesmo para a palavra escrita, em todos os suportes. Cada suporte exige conhecimentos específicos.

O bibliotecário trabalha com a informação e assim, precisa lidar, no seu fazer diário, com as várias linguagens que o espaço onde atua o exigir.

A leitura, relembrando, não está sujeita apenas à idéia de promoção nos espaços das bibliotecas públicas e escolares, mas está presente em toda ação do profissional.

Utilizando estratégias de ensino, é preciso e necessário que os professores dos cursos de Biblioteconomia incentivem a busca dos alunos pela alfabetização na linguagem das mídias com as quais ele, por força de seu fazer cotidiano, terá que lidar.

 

EM SUMA

A leitura deve ser considerada como parte intrínseca do processo de apropriação da informação, quer tal processo se realize no âmbito dos espaços acadêmicos, quer nos espaços empresariais ou nos espaços culturais.

Obviamente, a leitura é entendida aqui de maneira ampla, não vinculada exclusivamente ao incentivo da leitura da palavra escrita ou de atividades executadas nas bibliotecas públicas e escolares, como a hora do conto.

A valorização ou re-valorização da leitura deve se dar, de maneira concomitante, a partir das ações dos profissionais que atuam hoje no mercado de trabalho da área e, sobretudo, como objeto, específico ou não, de disciplinas dentro dos cursos de biblioteconomia brasileiros.

Uma formação que evidencie o caráter imprescindível da leitura – e das teorias que a alicerçam e a fundamentam – na ação do profissional da informação tornará o perfil desse profissional mais adequado em relação às exigências do mercado, às demandas da sociedade e às transformações e atualizações da área de Ciência da Informação.

Notas

(1) O grupo de pesquisa que coordeno “Mediação da informação e múltiplas linguagens” define, em caráter ainda provisório, mediação da informação como “toda ação de interferência – realizada pelo profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional”.

(2) Quem sabe esse objeto não deva ser discutido e alterado de informação para mediação da informação?

(3) A própria designação “materiais não convencionais” evidencia uma quase discriminação em relação a suportes diferenciados dos que sustentam a palavra escrita.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Formação, formatação: profissionais da informação produzidos em série. VALENTIM, Marta Lígia (Org.). Formação do profissional da informação. São Paulo: Editora Polis, 2002. p. 133-148.

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LE COADIC, Yves-François. A ciência da informação. Brasília: Briquet de Lemos, 1996.

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ROBREDO, Jaime. Da ciência da informação revisitada aos sistemas humanos de informação. Brasília: Thesaurus, 2003.

 

Publicado originalmente em:

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Leitura, mediação e apropriação da informação. In: SANTOS, Jussara Pereira (Org.). A leitura como prática pedagógica na formação do profissional da informação. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2007. 168p. p.33-45.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.