LEITURA E ESCRITA DE HISTÓRIAS E CONTOS INFANTIS
Ouvi poucas histórias de minha mãe e, menos ainda, de meu pai. Um tio agregado, postiço, casado com a irmã de minha mãe, ao contrário, gostava de contar “causos” reais – segundo ele – ocorridos em sua cidade natal, Batatais, interior de São Paulo. Sua predileção era por histórias centradas no medo, no terror, em que os fantasmas, almas penadas, almas danadas e que tais, eram personagens constantes. Já minha avó materna dizia que havia sido presa de um saci, mas que, de alguma forma, teria conseguido se libertar (seria mesmo minha avó a narradora dessa história?). Passei anos dormindo com minhas orelhas cobertas, com medo de que um besouro caísse do teto e entrasse em meu ouvido. Isso foi motivado por uma das histórias de meu tio que afirmava ter acontecido com sua irmã. As aberturas no teto das casas, cobertas por uma pequena portinhola e que davam acesso ao sótão ou ao telhado, me causavam medo. Na casa em que morava com meus pais havia uma, fechada com um pequeno trinco. Como ela se situava na parte superior do sobrado, eu era obrigado a passar por ela todas as vezes em que entrava ou saía do quarto. Isso ocorria duas vezes por dia, já que minha mãe não permitia que usássemos o quarto para nada além de dormir. Mas, mesmo nessas duas vezes, aquele quadrado de madeira me causava receio. Em uma das histórias de meu tio, certo morador das proximidades da casa onde morava quando criança, reclamava de barulhos constantes, à noite, vindos do teto. Um amigo, cético e metido a corajoso, afirmou que tudo não passava da imaginação dos moradores da casa. Em uma noite, como prometera, postou uma escada sob a portinhola que dava acesso ao sótão, e se pos a olhar para todos os lados, na intenção de provar que nada havia ali. Nesse momento, partindo não se sabe de onde, um tapa acertou seu rosto. Apavorado, desceu as escadas quase que em um único salto. Nos dias que se seguiram, as pessoas que o encontravam não sabiam se o vermelhão em seu rosto era causado pela marca que o tapa deixara ou pela vergonha da perda da fama de corajoso – que também rolara escada à baixo.
Minha mãe não contava histórias, mas nos incutiu crenças – a mim e a meu irmão – que carregamos até hoje. Dizia ela que sapatos ou chinelos não deveriam ser deixados com a sola para cima, pois, quem assim o deixasse, perderia a mãe. Mesmo a tendo perdido há muitos anos – por outras causas – ainda me incomoda sapatos ou chinelos virados. Certa vez, fiz um enorme esforço para me conter e não entrar em uma loja de calçados e exigir que a vitrine fosse reorganizada. Isso porque um dos pares, para exibir o seu tipo de solado, estava virado.
Mesmo não tendo uma grande experiência como ouvinte de histórias, amei e amo contá-las. Meus filhos ouviram muitas delas. Algumas apenas lia, outras recontava – aumentando ou diminuindo alguns pontos – ou inventava. De improviso, criava histórias em que os principais personagens eram meus filhos. As crianças, embora críticas, permitem o fantástico, o imaginário, as loucuras, o irreal... Ao lado delas, também permitimos que flua nossa imaginação, que os bloqueios diminuam. Retornando: vali-me de personagens de desenhos animados da época para criar pequenas situações, diferentes das exibidas nos desenhos, mas mantendo as características principais deles. Huguinho era um pato desengonçado, estabanado, muito mais alto – e forte – do que seus coleguinhas. Pelo seu jeito, era menosprezado e rejeitado pelos amigos. No final das histórias, invariavelmente ele salvava os demais de situações muito difíceis, como, por exemplo, ataque de ursos em um acampamento de escoteiros; barcos prestes a naufragar; pessoas penduradas em penhascos; amigos levados para ninhos de grandes pássaros etc. Meus filhos adoravam esse personagem; gostavam da reviravolta das histórias. Outro desenho que os levava para a frente da televisão era “Os Impossíveis”: um grupo de música formado por 4 participantes, todos com poderes que, quando empregados, solucionavam problemas não só deles como de outras pessoas. Quando me utilizava desses personagens, era obrigado a nominá-los como “Os Invosíveis”, pois era assim que meus pequenos garotos teimavam em afirmar que o apresentador do desenho – a voz em off – os apresentava. Claro que em minhas histórias meus filhos e os amigos deles assumiam a personalidade desses e de outros personagens. O sinal mais marcante de que uma determinada história havia agradado era o pedido: “Conta aquela de ontem!?” ou “Conta de novo!?”.
Por força dessas “contações”, arrisquei assumir um espaço dedicado às crianças no jornal paroquial do bairro onde morava. Para ser mais exato, o Pari, bairro antigo de São Paulo, era o local em que morava, mas também o lugar onde nasci, meus filhos nasceram e, tanto eu como eles, possuíamos nossas principais relações de amizades. O espaço, de meia página do jornal, era preenchido, basicamente, por uma história infantil. Aceitei o desafio, pois já escrevia, como colaborador, crônicas e pequenos textos. Mas, alimentar um espaço periódico com histórias exigia um esforço de imaginação para o qual eu não estava totalmente preparado.
Criar um personagem era possível, mas pensei que o ideal era fazer uso de algo que fosse já conhecido, facilitando a recepção e a relação dos leitores com a história. Lembrei-me do Saci, aquele mesmo que prendera minha avó. Acho que era até uma forma de vingá-la. O Saci, assim, passou a ser o centro de minhas histórias, embora eu o tenha retirado do seu habitat e o jogado na cidade de São Paulo, mais precisamente, no bairro do Pari. Os que com ele interagiam nessas histórias eram, claro, meus filhos e os amigos deles – boa parte destes últimos eram filhos de amigos meus. No entanto, mesmo com personagens e cenários definidos, as histórias que criava não eram de meu agrado. Gostei de algumas delas, mas outras, ao contrário, pareciam bobas, sem ação, enfim, ruins. A criatividade presente nos improvisos das histórias para meus filhos, eu não encontrava para as que precisava elaborar para o jornal.
A colaboração para a criação das histórias, surpreendentemente, ao menos para mim, veio de meus próprios filhos. Certo dia, passeando com eles, percebi que os maiores, gêmeos, na época com quatro ou cinco anos, saltavam as linhas e riscos das calçadas. Resolvi perguntar-lhes por que não pisavam nessas linhas. Eles me olharam sérios e disseram: “Você não sabe, pai? Nas linhas das calçadas moram uns hominhos. Eles vivem lá. Quando nós pisamos nas linhas eles seguram nossos pés e nós caímos”. Simples assim. Surpreendente assim. Maravilhoso assim. Óbvio que a próxima história que “criei” após esse fato foi, sem a presença do Saci, a incrível aventura dos pequenos homens que habitavam os vãos e buracos das calçadas. A partir daquele dia passei a observar meus filhos como um pai, mas também como um autor a procura de histórias.
(Texto preparado como contribuição e depoimento para o trabalho de Sueli Bortolin apresentado e publicado pelo COLE, 17, 2009. Este é o texto original. No trabalho para o qual se destinava foi publicado com cortes para se adaptar à coerência do texto.)
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