ARTIGOS E TEXTOS


FALTA DE USUÁRIOS NAS BIBLIOTECAS OU O USUÁRIO REALMENTE FAZ FALTA?

1 COMEÇANDO

A interdisciplinaridade da biblioteconomia exige um relacionamento constante e obrigatório com várias áreas do conhecimento humano. Os problemas enfrentados pela biblioteconomia não podem ser solucionados, utilizando-se apenas conceitos e proposições originadas em seu próprio meio. Necessário se faz buscar contribuições de outras áreas; sem elas, as soluções serão anêmicas e inconsistentes.

A discussão sobre o problema do fracasso escolar, desenvolvido no livro de Magda Soares (1986), permitiu uma relação com a questão do fracasso do hábito de leitura ou, de forma mais genérica, com o fracasso da própria biblioteca.

Grandes polêmicas geram, hoje, as propostas que visam resolver ou esclarecer a crise por que passa a biblioteca atual. Não é desconhecida por ninguém a pouca frequência de usuários nas bibliotecas públicas. Embora todos os trabalhos desenvolvidos pelas bibliotecas estejam voltados para o usuário (ou deveriam estar), este não faz uso dos serviços oferecidos.

Na tentativa de encontrar respostas que possam esclarecer a ausência dos usuários, muitas hipóteses são levantadas. Todavia, em sua maior parte, essas hipóteses acabam apontando para a criação do hábito de leitura como a única - ou principal e prioritária - solução. Assim, na medida em que o hábito de leitura estiver “implantado” o usuário poderá vislumbrar quão importante e maravilhosa é a leitura, levando-o, invariavelmente, a recorrer, a idolatrar, a aumentar as estatísticas de frequência das bibliotecas.

Uma pesquisa sobre hábitos de leitura (SALDIVA & ASSOCIADOS PROPAGANDA, 1988), recentemente publicada, no item destinado à biblioteca, observou que “A finalidade, em quase 100% dos casos (de utilização dos serviços prestados pela biblioteca), é sempre a mesma: pesquisa escolar ou, com menor frequência, científica. Muitos entrevistados, de São Paulo e do Rio de Janeiro, desconhecem a existência de bibliotecas circulantes.” (p.82). A pesquisa apresenta dados ainda mais gritantes: “Das pessoas que já utilizam esta fonte, apenas 1% não objetiva livro escolar ou, com menor frequência, científico.” E conclui: “Ou seja, a biblioteca só tem peso na vida das pessoas enquanto elas são estudantes. E mesmo assim - ou talvez por isso mesmo - é uma espécie de sacrifício, comparável a estudar ou fazer lição de casa.” (p.82).

Sabendo-se que a criação do hábito de leitura não é uma proposta recente - muito ao contrário - fácil é concluir que a ênfase sobre esta solução, além de nada resolver, impede o aparecimento de sugestões alternativas.

A biblioteconomia necessita de uma “revolução”, como afirma Depallens (1987) após observar que a atuação das bibliotecas da Nicarágua em nada se alterou, mesmo depois de uma revolução, como, no caso, a Sandinista.

2 ESTEREÓTIPO DO BIBLIOTECÁRIO

É impossível refletir sobre o problema do fracasso da biblioteca sem conhecer a visão que o usuário possui do profissional bibliotecário.

A pesquisa sobre hábitos de leitura, já mencionada, apresenta a visão que o público possui da biblioteca: “A instituição BIBLIOTECA está associada a um espaço imenso, extremamente silencioso, vigiado pela bibliotecária - uma velhinha chata e sem paciência que grita o tempo todo para pedir silêncio!” (SALDIVA & ASSOCIADOS PROPAGANDA, 1988, p.82).

A ideia da velhinha, que atualmente foge completamente da realidade, só pode ser compreendida como um estereótipo. “Na observação não adestrada colhemos sinais reconhecíveis do meio. Os sinais representam idéias, e essas idéias nós as enchemos com nossa provisão de imagens.” (LIPPMAN , 1970, p.155).

O silêncio, tão insistentemente exigido pela velhinha, por outro lado, pode ser facilmente observado em grande parte das bibliotecas. No entanto, o grito, enfatizado pelos autores da pesquisa, contrasta com a exigência do silêncio. Parece-nos uma contradição que apenas se explica a partir da concepção de que o silêncio na biblioteca é também um estereótipo, ou melhor, também faz parte do estereótipo do profissional e do espaço em que atua. Corroborando com isso, podemos observar que muitas bibliotecas, hoje, possuem espaços diferenciados para estudo individual e em grupo.

Outro ponto que chama a atenção é o “espaço imenso”. Comumente, as bibliotecas brasileiras, como todo espaço cultural dos países do 3o. mundo, desenvolvem seus trabalhos em locais profundamente restritos. Logo, essa imagem está baseada em fatores outros que não exclusivamente na observação.

Todos esses pontos formam, na verdade, um estereótipo do bibliotecário e da biblioteca. A imagem apontada na pesquisa aflorará a partir de um único traço, como afirma Lippman “... notamos um traço que marca um tipo conhecido e enchemos o resto do quadro com os estereótipos que trazemos na cabeça.” (1970, p.156).

Na verdade, o “velho” está muito mais vinculado à ideia que se tem da biblioteca do que, evidentemente, da imagem daquele que nela trabalha. Independentemente da idade média dos bibliotecários atuais, eles continuam sendo retratados como velhos, pois essa imagem está ligada à própria biblioteca.

O velho, na atual sociedade brasileira, é entendido como improdutivo. Sua capacidade produtiva, seu tempo de vida produtivo está esgotado, passando, a partir desse momento, a ser apenas um peso para a sua família e para a sociedade. O idoso recebe dinheiro do Estado e sua única contribuição é ocupar espaço nos hospitais, tomando lugar daqueles que, embora temporariamente doentes, estão aptos a exercer sua função produtiva.

Ora, parece-nos que o mesmo se dá com a biblioteca: sua importância, sua necessidade social não é reconhecida pela sociedade. Dessa forma, o Estado sustenta uma instituição que nada produz e que apenas carreia para si, verbas que poderiam ser utilizadas em áreas mais úteis. Por que não, mesmo que inconscientemente, identificá-la com o “velho”? Além disso, o próprio aspecto físico do “prédio da biblioteca”; o recinto “cinzento”; a austeridade, autoridade e respeitabilidade que a “cultura” representa; a exigência de rígidos comportamentos, como o silêncio absoluto; o rigor das normas etc., acabam contribuindo para que essa identificação venha a se consolidar.

Outros aspectos, não presentes na pesquisa aqui apresentada, mas sabidamente ligados à imagem do bibliotecário e da biblioteca, podem ser abordados, com o intuito de se elucidar, caso isso seja possível, os mecanismos que geram a relação biblioteca-velho: o birote e o tricô, com os quais normalmente a bibliotecária é descrita; a postura sempre sentada, que evidencia cansaço e falta de dinamismo; o livro na mão - em alternância com o tricô - já que a leitura é uma atividade preferencialmente de pessoas idosas; o cenho carrancudo e ameaçador, que denota a impaciência de quem acumulou experiências amargas no decorrer de uma longa existência, contrastando com a despreocupação e o humor próprios do espírito jovem.

A passividade, evidente em todos os itens, reflete a ideia de uma profissão amorfa, sem dinamismo, que exala o mesmo cheiro de mofo e pó que saem dos enfadonhos, aborrecidos e grossos volumes imobilizados nas estantes.

Quando a biblioteca, o bibliotecário e a profissão são entendidos da maneira exposta, não é possível esperar que outro seja o estereótipo. Este, infelizmente, e acrescido da visão que se tem da escola e da leitura, quase que inviabiliza ou, melhor dizendo, prejudica muito qualquer trabalho que vise a criação do hábito de leitura.

No entanto, parece-nos que muitas outras causas impossibilitam, pensando apenas do ponto de vista da biblioteca, qualquer atuação desta última na criação do hábito de leitura.

3 O HÁBITO DE LEITURA

Entendida como a única solução para resolver o impasse da não concretização dos objetivos da biblioteca, a criação do hábito de leitura ressurge, trazendo consigo velhas propostas que nada resolveram na época em que foram idealizadas.

A atuação do governo, através de órgãos específicos como é o caso do INL, restringe-se à mera distribuição de livros, partindo do pressuposto de que a não existência do hábito de leitura na maioria da população brasileira, deve-se unicamente ao fato da dificuldade de acesso ao livro. Com a distribuição de publicações à grande parte das cidades brasileiras, propicia-se o acesso ao livro resolvendo e solucionando o problema. No entanto, a criação do INL - Instituto Nacional do Livro, data de 1937 e a distribuição de livros foi assumida, praticamente, desde o início, como uma de suas atribuições prioritárias. Hoje, 1988, a política do INL não sofreu nenhuma alteração, acumulando 51 anos de trabalho sem que absolutamente nada tenha sido resolvido no âmbito do hábito de leitura, mesmo considerando-se que grandes campanhas promovidas pela iniciativa privada, como a “Ciranda de Livros” e, mais recentemente,  a “Viagem da Leitura”, tenham seguido essa incompetente política.

Causa-nos estranheza que uma revista como a Casa de Las Americas, em artigo sobre a “Ciranda de Livros” (ROSELL, 1987), faça a apologia da distribuição de livros, considerando-a como instrumento de disseminação da cultura.

Interessante lembrar, neste momento, que os livros distribuídos são selecionados por uma Comissão, cuja sede é Brasília. Os livros enviados são os mesmos para todas as cidades brasileiras, independentemente de suas especificidades. Não existem mecanismos que possibilitem a interferência das cidades na seleção do material a ser enviado, mesmo porque o simples fato de receber, gratuitamente, um “pacote” de livros é considerado pelas cidades beneficiadas como uma grande ajuda. O conceito de serviço público no Brasil ainda está vinculado à imagem de que o Estado não tem obrigação de oferecer à população, serviços de caráter social e, quando o faz, é por puro liberalismo e boa vontade dos governantes, cabendo à sociedade aceitá-los da forma em que está estruturado. Reclamar significa colocar em risco a própria existência dos serviços, pois, já que foi desprendidamente oferecido, pode ser, da mesma forma, eliminado.

Como o problema do hábito de leitura não foi resolvido com a prática da distribuição de livros, justificam-se as críticas formuladas, de maneira tímida e isolada, ao Instituto Nacional do Livro e aos seus discípulos que surgiram na iniciativa privada.

Se a distribuição - que teoricamente resolveria o problema do acesso ao livro - agravou, com certeza, o quadro da criação do hábito de leitura pela população, outras causas devem, ainda, ser procuradas.

4 O LIVRO INTRISECAMENTE BOM

Em primeiro lugar, não significando o mais importante, está o conceito de que, em si, o livro é sempre bom e, em consequência, a leitura, qualquer que seja ela, é considerada como principal instrumento para que o cidadão alcance sua maturidade. Outras formas de se obter “conhecimento” são sumariamente relegadas a segundo plano pois, acredita-se, a cultura só é preservada e transmitida através do seu registro e este só é inteligível sob a forma bibliográfica. Enquanto em outros modos de registro são possíveis interpretações duplas, dúbias e tendenciosas, o livro permite apenas uma única leitura. O conteúdo apresentado pelo livro, na medida em que é entendido como representando a verdade, leva-nos a deduzir que o livro é a verdade.

5 O LIVRO COMO VERDADE

O conteúdo de um livro é inquestionável, acredita-se. Impossível colocar em dúvida aquilo que é produto de uma longa pesquisa ou, no mínimo, resultado de reflexões de alguém intelectualmente capaz. Quem escreve possui atributos que o diferencia do resto da população. Com conceitos dessa ordem, os textos produzidos por essas pessoas devem ser verdadeiros. Assim, não existem diferenças de conteúdo pois, independente dos caminhos, chega-se sempre ao mesmo fim. A forma, por si mesma, já pressupõe o conteúdo como verdadeiro. A verdade está com aquele que detêm a informação; logo, informação é poder.

Poucas são as exceções em que o livro é colocado em dúvida: “— Deixa disso, esqueça os livros todos; eles mentem!” (GORKI, 1986, p.58). Assim, mesmo essas exceções, inclusive a do exemplo citado, apenas ocorrem como defesa nas situações em que o poder de uma pessoa sobre outra corre o risco de se desfazer por causa de informações contidas em um livro. Contesta-se como forma de defesa, embora intimamente as convicções defendidas até então tenham sido abaladas.

A palavra impressa, o “escrito”, representa o conhecimento possível apenas a uma camada da população: a elite, os dominantes. A classe popular, induzida a se considerar incapaz de interpretar aqueles significantes, acaba por considerá-los verdadeiros a partir do momento em que, para eles, são incompreensíveis. Estamos entrando em outro problema: a norma culta.

6 A NORMA PADRÃO

Dino Preti, falando de normas linguísticas, diz: “Para entendermos seu conceito, devemos lembrar que cada falante atua de acordo com certos comportamentos lingüísticos constantes na comunidade em que vive e eleitos como ideais para comunicar e transmitir as informações necessárias nos vários momentos de sua vida em comum. Esses hábitos lingüísticos coletivos, em constante mas lenta renovação, ganham gradativamente força de convenções tácitas, leis, admitidos pela maioria e conservadas através das gerações com características prescritivas. Constituem os usos ou normas lingüísticas de uma sociedade.” (PRETI, 1982, p.54). Continuando a exposição, esse autor acrescenta que: “A divisão e subdivisão das normas (popular, comum, culta, etc.) correspondem a graus de ascensão ou descendimento da escala lingüística da comunidade que, às vezes, pode ter força de verdadeira classificação social do falante.” (PRETI, 1982, p.49).

O autor define norma-padrão, ou culta, como sendo aquela “... que regula a linguagem falada das pessoas cultas, além de constituir um vínculo de todo um complexo cultural, científico ou artístico que se realiza através de sua forma escrita.” (PRETI, 1982, p.54).

O livro sabidamente se utiliza da norma culta, do dialeto padrão, pois esta é a forma de linguagem, como vimos, utilizada pelas pessoas cultas. Destinado para esse público, não poderia ser outra sua linguagem. Na medida em que a norma padrão é utilizada pelas classes dominantes como um dos mecanismos ideológicos de opressão, não é esta a norma linguística usualmente utilizada pela maioria da população, pelas classes populares, pelos dominados. O livro, fazendo uso da norma-padrão, como afirma Dino Preti - “Pode-se afirmar, sem grande risco de errar que, em geral, o literato escreve dentro dos padrões da norma culta.” (PRETI, 1982, p.56-7) -, está distante das classes populares. Se a biblioteca privilegia o livro como fonte única de absorção de conhecimento, ela está construindo barreiras e obstáculos para que a maioria da população dela faça uso.

A opção da biblioteca parece-nos clara: aumentar o fosso entre os que já possuem e os que não têm informação, conhecimento. Embora defendendo o contrário, sua ação e prática não escondem seus reais objetivos.

7 A DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO

Entre os bibliotecários, fala-se muito na democratização da informação. Seria essa a principal função social daqueles profissionais. Essa democratização pressupõe o oferecimento pela biblioteca de amplas formas de acesso à informação. Toda a população pode usufruir das informações e dos benefícios que delas advêm. Se após aplicar técnicas adequadas de tratamento das informações; colocar à disposição um infindável número de serviços; oferecer infraestrutura adequada, englobando local, instalações, horário, pessoal e acervo; divulgar nos meios de comunicação de massa ou nas próprias comunidades a possibilidade do acesso gratuito a essas informações e serviços, se, após tudo isso a biblioteca continua vazia, a culpa só pode recair sobre os usuários. Estes - por causa da preguiça tão peculiar do povo brasileiro; por causa do despreparo e ignorância da família proletária; por causa da violência, do inconformismo, da revolta e da inadaptação a um sadio convívio social, geneticamente inatos nas classes populares - não querem fazer uso dos meios que a sociedade lhes oferece para que deixem a miséria e galguem os degraus da escala social. A opção pela miséria é consciente.

Diante desse quadro, o que pode fazer a biblioteca senão atuar junto àqueles que a procuram? Não é culpa sua se a procura pelos livros e pelas informações só é feita pela elite. Seu dever é possibilitar o acesso a todos e ajudar àqueles que conseguem entender a biblioteca como “fonte inesgotável de saber”.

Claro está que essa pretensa democratização da informação não passa de uma cortina, cujo intuito é aplacar possíveis reclamações de uma consciência desperta. Tal cortina serve também para induzir a sociedade a entender a biblioteca como uma instituição que está voltada para os problemas e necessidades, a nível informacional, de toda a sociedade, principalmente da camada “carente de informação”, embora na prática, como foi possível observar, os serviços oferecidos acompanham as mesmas regras que regem a distribuição de renda no país.

A democratização pressupõe igualdade de condições para se fazer uso dos serviços oferecidos a todos. Quando, citando apenas um exemplo, as normas linguísticas desenvolvidas pela população são diferentes, em acordo com as próprias diferenças das camadas sociais e quando sabemos que o livro, representando um dos suportes da informação, privilegia uma dessas normas linguísticas, a da elite, podemos concluir que essa democratização cai por terra. Quão frágil é o sustentáculo que mantêm em pé uma absurda mentira como essa!

8 O TRABALHO (PESQUISA?) ESCOLAR

Atualmente, a maior parte dos usuários das bibliotecas públicas são estudantes, principalmente da 1a à 8a série do 1o grau. Seus interesses recaem, invariavelmente, em materiais que possibilitem, de forma rápida e em pouco tempo, a confecção das enfadonhas, desinteressantes e malfadadas pesquisas. Todos esses adjetivos terminam também por recair sobre a biblioteca.

As tarefas escolares são obrigatórias e quase sempre estão afastadas dos interesses dos alunos. As bibliotecas são utilizadas apenas quando os alunos, em suas próprias casas, não resolvem os temas propostos para pesquisa. A biblioteca passa a ser uma extensão da escola, absorvendo a mesma imagem negativa que o aluno imputa à essa. Assim, todo material existente no acervo da biblioteca perde a possibilidade de um dia vir a atrair os estudantes de forma diversa da simples elaboração de uma pesquisa. Acredita-se que a pesquisa leva o aluno a desenvolver e ampliar seus conhecimentos sem a ajuda constante e pessoal do professor. Este poderia, então, exercer sua real função que é a de orientador e não mero transferidor de “pacotes” fechados de conhecimento. A criação do hábito de leitura também seria consequência da prática da pesquisa. Outros importantes produtos redundariam desse método pedagógico, principalmente a educação continuada.

A biblioteca pública, retornando, faz as vezes de biblioteca escolar, na medida em que estas inexistem, de forma estruturada, em 95% das escolas, quase sempre públicas. As escolas renomadas, conhecidas por suas altas mensalidades e por atender os filhos da classe dominante, possuem, todas, grandes bibliotecas, com profissionais adequados e acervos compatíveis com os currículos ministrados. Qual o porque de se tratar a biblioteca de forma destoante, na escola pública e na particular? O que faz com que apenas a classe dominante tenha interesse pela biblioteca? Algumas explicações podem ser extraídas dos tópicos anteriormente apresentados; outros pontos para se elucidar a questão ainda serão abordados. Cabe, no entanto, ressaltar aqui que, basicamente, não existem diferenças nos temas propostos para pesquisa tanto na escola pública como na escola particular. Os professores, de uma ou de outra, são os mesmos, possuem a mesma formação. Não há, necessariamente, vínculo entre a classe social do professor e a dos alunos. Ora, acreditamos que os interesses e as necessidades das crianças de classes socais distintas, também são distintos. Portanto, é de se supor que os temas devam variar de sala de aula para sala de aula, de aluno para aluno.

A pesquisa escolar, nos moldes como hoje é empregada, em nada contribui para a criação do hábito de leitura, da mesma forma que não ajuda na formação de futuros usuários de bibliotecas. Esta, por outro lado, escondendo-se atrás do argumento de que está com todos os seus recursos absorvidos no atendimento do escolar, deixa de prestar serviços ao público adulto ou não estudante, o que, na verdade, seria a sua principal função.

9 ATENDIMENTO AO ALFABETIZADO

Quando a biblioteca prioriza o livro como único suporte possível para transferência de conhecimentos, ela automaticamente está excluindo a maioria da população. Em tese, só pode fazer uso do livro aquele que passou por um processo de alfabetização; aquele que, formal ou informalmente, aprendeu a ler. Se os materiais que a biblioteca coloca à disposição do público são, para estes, ininteligíveis, fica óbvia a predisposição da biblioteca em atuar apenas junto a um determinado segmento da sociedade. Podemos, então, deduzir que os trabalhos desenvolvidos pelas bibliotecas visando a criação do hábito de leitura, exigem a alfabetização como condição mínima para que a população deles faça uso.

Alguns trabalhos são realizados pelas bibliotecas junto às crianças em fase de pré-alfabetização, usando o livro como suporte e veículo desencadeador de inúmeras atividades. A “Hora do Conto”, por exemplo, aglutina as crianças em torno de alguém que conta histórias extraídas de um livro. É considerado importante que as crianças saibam que aquela história, transmitida oralmente, está contida naquele determinado livro e, após a alfabetização, pode ser “lida” quantas vezes se desejar. Outro exemplo é a atividade que propõe à criança que utilize a “pintura a dedo”, a colagem, o desenho etc., como forma de reproduzir o significado ou o que for apreendido de uma história ouvida anteriormente.

A criança é desculpada pela biblioteca por não fazer uso dos livros, pois a alfabetização ainda está por vir. Todo o trabalho desenvolvido com as crianças visa criar condições para que o hábito de leitura floresça depois da alfabetização. O contato prematuro e constante com os livros, transforma-os em objeto simpático, importante e necessário. Quando adulta, aqueles primeiros contatos repercutirão, transformando a ex-criança em um assíduo leitor.

A biblioteca desculpa, no entanto, apenas a criança em fase de pré-alfabetização. Após essa fase, a não-leitura é entendida como sendo motivada pela preguiça, pela ignorância e por outras razões semelhantes. O adulto já tem os seus hábitos formados e se entre eles não está o da leitura, não há como desenvolvê-lo mais. Assim, é inócua qualquer tentativa da biblioteca em desenvolver trabalhos nesse sentido.

Já em relação ao adolescente, praticamente inexistem atividades especificamente dirigidas para eles. As formas que conhecemos, utilizadas para levá-los à leitura, são fundamentadas e caracterizadas pela coerção, pela obrigação: o acesso à “Sala de Artes” - existente na maioria das bibliotecas infanto-juvenis e muito frequentada pelos adolescentes - só é permitido após uma “passadinha” pela “Sala de Leitura”. Tal exigência vai se transformar, obviamente, em um obstáculo para o hábito de leitura, reforçando a aversão pelo livro que o adolescente traz consigo da Escola, na medida em que esta se utiliza dos mesmos meios coercitivos como técnica pedagógica para o ensino da leitura.

Considerando o número de analfabetos e de alfabetizados que não leem, podemos concluir que a biblioteca está voltada para uma parcela irrisória da população. Além disso, como vimos, não há um trabalho concreto com os não-usuários o que torna, aos olhos destes, a instituição biblioteca sem nenhum significado social.

10 A (IM)PARCIALIDADE DO BIBLIOTECÁRIO

A concepção de que a imparcialidade no tratamento das informações denotaria o bom profissional, representa, também, um impedimento para que exista uma real interação entre usuário-livro. O bibliotecário acredita que pode ter uma postura imparcial, não só em relação às informações que manipula, como também em relação às pesquisas que orienta.

É preciso deixar claro que a imparcialidade pretendida pelo bibliotecário parte de pressupostos errôneos. Para que fosse viável essa neutralidade, seria necessário que a análise de um fato pudesse ocorrer sem interferência do sujeito. Assim, seria lógico admitir que a mesma neutralidade se observaria entre o historiador e o fato histórico e entre o jornalista e o fato que se transformará em notícia. A análise do objeto, desenvolvida pelo sujeito, não sofreria nenhuma influência, pressupondo que a verdade absoluta é tangível. Na vã tentativa de ser imparcial, o bibliotecário assume posturas que devem ser aceitas pois em nada interferem. O livro é intrinsecamente bom, portanto, todos devem ler, escolhendo, entre os infindáveis volumes, aqueles que no momento são particularmente de interesse. A imparcialidade do bibliotecário só se faz presente quando da escolha do material: o usuário pode optar por qualquer material, desde que seja livro.

Com esse tipo de concepção, fundamenta-se uma prática comum entre as bibliotecas: solicita-se à comunidade a doação de qualquer livro, como forma de ampliar um acervo quantitativamente pobre. Ora, se a biblioteca e o bibliotecário são neutros, qualquer livro, independente da sua relação com os interesses e necessidades da comunidade, será incorporado ao acervo e considerado importante.

A biblioteca está presente, de forma física, na comunidade, mas seus interesses ascendem a graus tão elevados que o grupo a quem deve servir representa uma parcela insignificante. Trabalhando com o “conhecimento humano” universal, a biblioteca entende as necessidades locais como mesquinhos e reles interesses, totalmente dissociados do desenvolvimento global da sociedade.

11 O APEGO AO SILÊNCIO

Muitas razões e outros tantos argumentos, extraídos de conversas com profissionais bibliotecários, poderiam aqui ser apresentados na tentativa de justificar a exigência de silêncio nas bibliotecas. No entanto, podemos afirmar que, se o livro é considerado como único veículo de absorção de conhecimentos, a linguagem verbal será repudiada pelo bibliotecário. Embora contraditório, pois segundo Bakhtin “O livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento da comunicação verbal.” (BAKHTIN, 1979, p.109), as bibliotecas mantêm uma postura contrária e intransigente em relação à comunicação verbal.

William Lobov, citado por Magda Soares (1986), registra, com base em pesquisas próprias e de outros pesquisadores, o grande valor atribuído pela cultura negra, nos Estados Unidos, à comunicação verbal, muito maior que o valor atribuído pela classe média que valoriza, prioritariamente, a linguagem escrita (SOARES, 1986, p.44). É possível afirmarmos que a mesma valorização é atribuída pelas classes populares brasileiras. Insistir na linguagem escrita significa continuar não atingindo as camadas populares pois, como vimos, sua cultura prioriza a comunicação oral.

A biblioteca não possui mecanismos que permitam o controle técnico da comunicação oral utilizada pelas camadas populares, mesmo porque todo o instrumental técnico que lhe permite trabalhar com as informações, estão baseados na norma-padrão. Se esta, como apresentado anteriormente, é utilizada pelas pessoas cultas, fácil é reconhecer o público a quem se destinam os trabalhos, serviços e materiais existentes nas bibliotecas. O silêncio representa apenas mais um filtro do processo de delimitação do usuário ideal das bibliotecas.

12 CONCLUSÃO

Se a criança não gosta de ler, não é porque exista “falha cultural” nas relações em que ela vive; não é porque exista “deficiência cultural” no seu meio ambiente. Provavelmente é porque o livro e a leitura não fazem parte dos padrões culturais da classe trabalhadora, além de, e principalmente, porque o livro absolutamente nada diz para esse contexto, nem se utiliza dos códigos que são próprios daquela classe. Assim, a insistência das bibliotecas em privilegiar o livro em detrimento de outros suportes, propicia o afastamento desse contingente popular (o maior) e a negação da biblioteca como instrumento de acesso e democratização do saber. Restringindo quase todo o seu trabalho em procurar mecanismos que possam vir a criar o hábito de leitura, o bibliotecário poderá decretar a sua inutilidade social.

O hábito de leitura (a exigência do hábito de leitura como algo “correto”) pressupõe a concordância com a tese de que a linguagem (e o livro é o ato de fala escrita) leva e forma o conhecimento. A leitura, por se utilizar da linguagem é uma das poucas formas (ou a mais importante) de se atingir o conhecimento. Este, por sua vez, não é fruto exclusivamente do livro, ou da linguagem, mas do social que faz a mediação do processo cognitivo.

Fazendo uso das concepções atuais, dos meios e trabalhos delas redundantes, as bibliotecas continuarão vazias, sem público, tornando inúteis propostas que alterem apenas o visível, o palpável. A solução não está na superfície, na periferia, mas nos próprios fundamentos hoje aceitos e, em parte, apresentados neste trabalho.

BIBLIOGRAFIA

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1979.

DEPALLENS, Jacques. La bibliotecologia necesita de una revolución cultural. Revista Interamericana de Bibliotecologia, Medellin, v.10, n.1, p.7-14, ene./jun. 1987.

GORKI, Máximo. Ganhando meu pão. São Paulo: Clube do Livro, 1986.

LIPPMAN, Walter. Estereótipos. In: STEINBERG, Ch. (org.). Meios de comunicação de massa. São Paulo: Cultrix, 1970. p.149-59.

PRETI, Dino. Sociolinguistica: os níveis da fala. 4.ed. São Paulo: Nacional, 1982.

ROSELL, Joel Franz. Ciranda de livros: uma experiencia brasileña en la promoción de la lectura. Casa de las Americas, Havana, v.27, n.163, p.123-6, jul./ago. 1987.

SALDIVA & ASSOCIADOS PROPAGANDA. Estudo motivacional sobre hábitos de leitura. São Paulo: Câmara Brasileira do Livro, 1988.

SOARES, Magda. Linguagem e escola: uma perspectiva social. 3.ed. São Paulo: Ática, 1986.

(Texto produzido em 1989 a partir de tópicos utilizados nas seguintes palestras proferidas: Faculdades Teresa Martin, 18 de maio de 1988; Fórum dos Alunos da Faculdade de Biblioteconomia e Documentação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, 22 de fevereiro de 1988; X Jornada Rio-Grandense de Biblioteconomia e Documentação, 30 de junho de 1988. Reproduzido aqui pela primeira vez)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior
Fonte: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997. p.27-39

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.