ARTIGOS E TEXTOS


MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO, SOCIEDADE E BIBLIOTECA PÚBLICA

A ideia de mediação da informação está presente, desde algum tempo, entre as discussões, interesses e preocupações da Ciência da Informação. As revistas especializadas da área trazem textos que têm como foco a mediação, embora tratando-a como se sua concepção fosse claramente delineada e consensualmente aceita. Esquivam-se de apresentar seu conceito tratando o tema como algo dado, aceito e compreendido. Claro que isso não ocorre exclusivamente com a mediação da informação, mas o destaque deve-se ao fato de ser ela o tema deste texto.

No início da década dos anos 1990, acompanhando alguns textos que apresentavam o bibliotecário como um mediador da informação, entendi ser esse um tema que merecia mais reflexões, estudos e pesquisas. Propus em 1996 uma disciplina com esse título para ser abrigada na matriz curricular do curso de Biblioteconomia da Universidade Estadual de Londrina. Nessa época o curso estava reformulando seu Projeto Pedagógico e a proposta da disciplina foi aceita.

Em 2001, dentro do Grupo de Pesquisa Interfaces: Informação e Conhecimento, um projeto de pesquisa teve início, abordando especificamente a Mediação da Informação. Um pouco mais tarde o tema denominou uma disciplina de pós-graduação stricto senso que propus e ministrei.

Esse pequeno histórico teve a intenção de mostrar que o primeiro conceito por mim formulado de mediação da informação foi embasado em um largo período de pesquisa. Tal conceito, levado a público em 2006, entendia a mediação da informação como:

[...] toda ação de interferência – realizada pelo profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92).

Os pontos principais desse conceito serão discutidos mais adiante. No entanto, é preciso ressaltar que esta concepção advoga a necessidade de considerarmos de maneira diferente o entendimento hegemônico de vários aspectos e segmentos da área, incluindo o objeto dela.

Em primeiro lugar, a informação é aqui compreendida não como algo concreto, que dirimi dúvidas (dentro de uma concepção matemática) ou como algo que ocupa lacunas cognitivas (dentro de uma concepção de tendência biológica), objetivando um equilíbrio do sujeito informacional, mas está a informação aqui sendo entendida como causadora de dúvidas, causadora de lacunas cognitivas, como geradora de conflitos.

Em segundo lugar, defendo que o conhecimento é construído individualmente, mas sempre e necessariamente, na relação entre o sujeito e o mundo. Não há como se construir conhecimento sem a relação. Estamos sempre em relação dialógica com o mundo.

Em terceiro lugar, por ser subjetiva, a informação está sempre em construção. Seu ciclo de vida inicia-se com a exteriorização de um conhecimento explícito por parte de um sujeito informacional e só se completa (se realmente se completa) quando apropriada por outro sujeito informacional. Dessa forma, bibliotecário tem seu fazer profissional calcado não na organização da informação, mas em uma “possível-informação”, uma “talvez-informação”, uma “quase-informação”. Proponho que se empregue o termo “protoinformação”.

Em quarto lugar, o entendimento de “núcleo-duro” da área deve ser ampliado, incluindo nele todo fazer com a disseminação da informação (esta entendida como a dimensão extrínseca da mediação da informação). Hoje, quando me pedem para que explique rápida e sucintamente o trabalho do bibliotecário, o que faz esse profissional, respondo da seguinte forma: “O Bibliotecário é o profissional que medeia a necessidade informacional e as informações que pretendem satisfazer essa necessidade.”. Para mediar a informação é preciso que haja uma seleção, coleta e armazenamento, uma organização e uma disseminação. Também é preciso um estudo das necessidades, interesses e desejos dos usuários. Todas essas ações são imprescindíveis dentro do fazer bibliotecário. Não há destacado um “núcleo-duro”, embora seja possível dizer que, em todo o fazer, a mediação se destaca.

Em quinto lugar, acompanhando o que foi dito acima, é preciso modificar o objeto da área, alterando-o de “informação registrada” para “mediação da informação”. A informação registrada não atende as exigências que faz hoje o sujeito informacional para se apropriar da informação. Como a informação é cada vez mais segmentada, oferecida com rapidez e no espaço em que o sujeito está, restringir o acesso à informação a um lugar físico, restrito a um horário e a uma localização do interessado, torna tal lugar obsoleto. Muitas das ações que são desenvolvidas nesses espaços se utilizam de mídias ou de exteriorizações que não são registradas, implicando em uma relação meramente de instrumento para se alcançar um outro objetivo. Exemplificando: nas bibliotecas públicas é comum atividades de contação de histórias. Como a contação de histórias não é registrada, não faz parte do objeto da Biblioteconomia e, portanto, só é oferecida com o objetivo de levar as crianças ou os adultos à retirada de livros por empréstimo. A contação de histórias torna-se um instrumento, uma ferramenta voltada para atender um outro objetivo, qual seja, o de empréstimo de livros. O mesmo se dá com todas as atividades artísticas, como o teatro, exposições, shows musicais, recitais, concertos, gincanas, danças, palestras etc. A mediação da informação, se entendida como objeto da área, torna todas essas atividades de interesse da Biblioteconomia, uma vez que a informação veiculada por elas (em meu entendimento, uma protoinformação) não precisa estar registrada nem ser passível de recuperação posterior; a informação é veiculada em um dado momento e quem esteve presente no evento dela se apropriou.

Em sexto lugar, defendo que a apropriação da informação só se realiza a partir da leitura, não da leitura exclusivamente do texto escrito, mas da leitura em um sentido lato. Lemos o texto escrito, a imagem fixa, a imagem em movimento e o som. A leitura da imagem fixa engloba também a leitura do corpo e a leitura do som engloba também a leitura da oralidade.

Em 2015 revi o conceito de mediação da informação, incluindo alguns aspectos que a continuidade das pesquisas sobre o tema determinou como importantes. Assim, mediação da informação é entendida como

Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais. (ALMEIDA JÚNIOR, 2015)

O conceito atualizado abriga alguns pontos que devem ser destacados: interferência; processo; profissional da informação; ambiência; equipamentos informacionais; apropriação; satisfação momentânea; necessidade informacional; conflito.

A discussão individual de cada um desses tópicos demandaria um espaço muito grande, o que é incompatível com o oferecido para o desenvolvimento deste texto. Assim, vou me concentrar na ideia de interferência, de processo, de ambiência, de apropriação e de conflito.

A ideia de mediação, entendida de maneira ampla, exige a presença de um terceiro que pode ser ou não uma pessoa. No caso das bibliotecas e da mediação da informação, o terceiro pode ser produtos documentários construídos ou trabalhados no âmbito da biblioteca. No entanto, não se deve esquecer que há sempre um ser humano por traz dos produtos documentários, mesmo que não presente no momento da relação biblioteca-usuário. O bibliotecário, desejando ou não, interfere no processo de mediação da informação, uma vez que este processo, como veremos mais adiante, ocorre em todos os momentos do fazer bibliotecário, incluindo as atividades de organização da informação. A ideia de interferência contrapõe-se à de neutralidade, imparcialidade. Os próprios instrumentos e ferramentas técnicas dos quais o bibliotecário se vale para o trabalho de organização e armazenamento da informação, também eles interferem, uma vez que são estruturados a partir de correntes filosóficas, a partir de formas específicas de entender e explicar o mundo.

Da mesma maneira que a informação se constrói gradativamente em seu ciclo de vida, realizando-se plenamente (e isso é questionável) na apropriação por parte do sujeito informacional, a mediação da informação também é um processo, não ocorrendo apenas no momento em que o usuário interage explicitamente com a biblioteca.

O conceito de ambiência busca modificar a ideia de que os equipamentos informacionais são lugares isolados, fechados em espaços limitados por paredes. Esse espaço geográfico deve ser chamado de ambiente e a ideia de ambiência, contrapondo-se ao entendimento do ambiente, entende que a interferência da biblioteca vai além desse espaço geográfico. Assim, ambiência diz respeito ao espaço em que a biblioteca tem ou deve ter influência, interfere ou deve interferir. Como interferir, por exemplo, nas pesquisas desenvolvidas por estudantes fora do espaço físico da biblioteca? Como interferir nas pesquisas realizadas pelos usuários em suas casas, seja de caráter profissional, pessoal, escolar? Como oferecer informações (até antecipando-as) para os usuários, sem a presença física deles? Trabalhando com informações, nossas ações extrapolam o âmbito do espaço geográfico em que a biblioteca está circunscrita, extrapolam o uso unicamente do acervo disponível.

A ideia de que basta o acesso físico ao material informacional, entendido como o limite do fazer do bibliotecário, deve ser modificado. Na medida em que a informação não está construída nas atividades desenvolvidas na biblioteca, na medida em que a informação depende, para se concretizar, da relação com o usuário, e na medida em que o usuário é compreendido como o objetivo último de todo fazer bibliotecário, a preocupação deste profissional deve estar voltada para a apropriação da informação. Não basta ter o material informacional em mãos, é preciso se apropriar de seu conteúdo, é preciso compreender, entender o conteúdo desse material e relacioná-lo com as necessidades, interesses e desejos do usuário.

Por último, embora, claro, não menos importante, está a ideia de conflito gerado pela informação. Advogo, como já disse anteriormente, que a informação não dirimi dúvidas ou sana e preenche lacunas cognitivas, ao contrário, a informação gera dúvidas, cria novas necessidades informacionais. Gerando dúvidas, interfere nas certezas do indivíduo, exigindo dele uma reorganização de seu conhecimento. Todo conflito impõe repensares, mudanças, transformações, novos olhares, novos entendimentos, novas certezas, embora, todas elas, momentâneas, pois serão provocadas a cada contato com outras e desconhecidas informações. O trabalho da biblioteca e do bibliotecário só é transformador quando entende a informação a partir deste ponto de vista.

A mediação da informação ocorre em todas as atividades desenvolvidas na biblioteca. A partir desse entendimento, propus a ideia de mediação explícita e de mediação implícita.

[...] a mediação implícita, ocorre nos espaços dos equipamentos informacionais em que as ações são desenvolvidas sem a presença física e imediata dos usuários. Nesses espaços, como já observado, estão a seleção, o armazenamento e o processamento da informação. A mediação explícita, por seu lado, ocorre nos espaços em que a presença do usuário é inevitável, é condição sine qua non para sua existência, mesmo que tal presença não seja física, como, por exemplo, nos acessos a distância em que não é solicitada a interferência concreta e presencial do profissional da informação. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92-93).

Outra diferença, que me parece adequado expor agora, é no que diz respeito às dimensões da mediação. Elas podem ser entendidas como “dimensão intrínseca” e “dimensão extrínseca”.

[...] a primeira é intrínseca ao fazer do profissional da informação, quer atuando ele no atendimento ao público (mediação explícita da informação), quer atuando nos serviços internos, também chamados de serviços meios (mediação implícita da informação). A mediação nesse caso é inerente ao fazer. Ela está presente, independente da vontade do profissional. Esse profissional veicula ideias, conceitos, concepções, valores de maneira consciente e inconsciente. Nesta dimensão da mediação, o profissional pode controlar muito do que dissemina, do que veicula, mas há um componente inconsciente sobre o qual ele não possui controle. As palavras escolhidas para comunicar algo; a forma de estrutura-las; posturas físicas; a organização do acervo; o sistema escolhido para estruturar os documentos; a arquitetura do prédio onde atua; possuem todas, uma ampla parcela de inconsciente.

Por outro lado, quando organizamos serviços, estruturamos o atendimento, propomos ações de educação de usuários, etc., estamos dentro de outra dimensão da mediação da informação [dimensão extrínseca], mais clara, mais consciente (embora também tenha muito de inconsciente), mais palpável, um pouco mais controlável. Precisamos, talvez, denominar essas dimensões para que suas diferenças sejam evidenciadas. (ALMEIDA JÚNIOR, 2015 a)

A discussão sobre as dimensões nos levam à compreensão de que há sim um nível de controle nos trabalhos de mediação, que se identificam ou se aproximam das ideias de disseminação da informação, mas há uma dimensão em que o controle do que é veiculado, transmitido pela biblioteca e pelo bibliotecário durante a relação entre eles e o usuário, é praticamente impossível. Essa dimensão é inerente ao fazer bibliotecário e dá-se em um âmbito inconsciente.

Assim como a ação sem a teoria transforma-se em mero ativismo, da mesma forma a teoria sem a ação não passa de um palavreado, de um discursismo. Moacir Gadotti recorda o pensar de Paulo Freire sobre isso: “Ele forjou seu pensamento na luta, na ‘práxis’ – entendida como ‘ação+reflexão’ –, como a definia. Freire nos dizia que práxis nada tinha a ver com a conotação frequente de ‘prática’ em sua acepção pragmatista ou utilitária. Para ele, práxis é ação transformadora.” (GADOTTI, 2016, p.20).

A ação do bibliotecário é, historicamente, excludente. Há uma clara relação entre a biblioteca e a preservação do conhecimento das elites, dos dominadores. Algumas tentativas de mudança dessa situação ocorreram, especialmente, entre as décadas dos anos 1960 e 1980. Acompanhando as transformações – ou propostas de transformação – pelas quais passava o mundo, iniciativas oriundas dos movimentos organizados da sociedade buscavam viabilizar a implantação de Bibliotecas ou Centros de Documentação e Informação alternativos. Essas iniciativas entendiam o modelo de biblioteca pública daquela época como reprodutor de um modo de pensar, reprodutor de um sistema sustentado no acúmulo de capital, no consumo, no individualismo, no fosso entre os que possuem e os que não possuem bens, incluído o da informação, na injusta distribuição de rendas etc. Contrários a essa postura da biblioteca pública, tais iniciativas propunham formas alternativas de atuação. Por esse motivo, as chamo de bibliotecas alternativas.

No bojo das discussões motivadas pelas bibliotecas alternativas, estava a da Documentação Popular, um conceito que foi meramente ignorado e esquecido pela Biblioteconomia, embora trazia em seu cerne uma proposta de mudança, não das aparências, do invólucro da biblioteca, mas da sua base conceitual, dos instrumentos e ferramentas com os quais organiza documentos. Hoje, há propostas que miram apenas o conforto, a beleza, que possuem um design inovador, um layout arrojado, mas que mantêm a mesma concepção da biblioteca pública tradicional, ou seja, a reprodução de um status quo, a manutenção e sobrevivência do sistema. As propostas atuais deixam transparecer a busca pela própria sobrevivência da biblioteca sem, no entanto, alterar seus pressupostos conceituais, suas concepções antigas, suas relações com os excludentes, com os dominantes.

Uma biblioteca só se transforma em espaço para o protagonismo das classes populares, das classes trabalhadoras, quando cria ações que permitem a essas classes veicular sua voz, sua palavra. A presença das classes populares nos espaços da biblioteca pública nada representa se as ações desta não estão calcadas nos interesses, necessidades e desejos delas.

As bibliotecas públicas devem ser aquelas que tenham ciência de que são espaços de resistência a uma cultura hegemônica, a uma informação hegemônica, que atendem apenas aos interesses de uma elite usurária e injusta.

A resistência possibilita o protagonismo das classes alijadas do poder, relegadas a uma condição social secundária, a uma educação que molda e submete.

A biblioteca pública deve ter sua prioridade voltada para os excluídos, para os que só têm acesso à informação veiculada pelas grandes mídias, para os que não têm voz, que vivem no silêncio imposto à sua cultura, às suas necessidades, aos seus desejos, aos seus interesses.

A biblioteca pública, assim como a Biblioteconomia, deve se transformar em biblioteca revolucionária, deve estar voltada para o povo. É preciso que a Biblioteconomia se assuma como libertadora, como uma Biblioteconomia da Libertação. A biblioteca pública, assim como a Biblioteconomia, deve ser guerrilheira, uma biblioteca pública guerrilheira.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação e múltiplas linguagens”. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação, v.2, n.1, p. 89-103, jan./dez. 2009. Disponível em: http://inseer.ibict.br/ancib/index.php/tpbci/article/view/17/39.

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (Orgs.). Mediação da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. p. 9-32.

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: dimensões. In: ALMEIDA JÚNIOR, O. F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2015 a. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=939

GADOTTI, Moacir. Prefácio: consciência e história. In: FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo: Cortez, 2016. p. 13-27.

(Publicado originalmente no caderno de textos do SEMINÁRIO Biblioteca, Cidade e Território, 16 a 18 de agosto de 2016, Centro Cultural São Paulo. Evento promovido pela Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas da Prefeitura de São Paulo e pelo Centro Cultural São Paulo)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.