ARTIGOS E TEXTOS


BIBLIOTECA: UM LUGAR DE MÚLTIPLOS ESPAÇOS

A biblioteca, seja ela pública, escolar, universitária, especializada e outras (como as populares, comunitárias, alternativas, prisionais, étnicas...), apesar das características individualizadoras de cada uma delas, se constituiu em uma plêiade de espaços, abarca uma série de espaços.

O primeiro grande espaço é o que está voltado para a informação. Biblioteca, em essência, é um lugar de informação. Essa ideia me levou a chamá-la de equipamento informacional. As ações e serviços oferecidos pelas bibliotecas devem estar voltados para atender, mesmo que de maneira momentânea, as necessidades, interesses e desejos da comunidade e dos cidadãos atendidos por elas. Tais necessidades, abrangendo interesses e desejos, abarcam desde as provenientes de atividades escolares, profissionais, individuais (como as curiosidades e busca por conhecimento) até as que são denominadas de informações utilitárias, ou seja, aquelas que são cotidianamente demandadas. O vínculo à informação quebra a ideia de que as bibliotecas têm como única função o empréstimo de livros e o favorecimento da relação dos livros com os usuários.

Essa ideia nos leva ao segundo grande espaço das bibliotecas, qual seja, a leitura. De início é preciso alertar para o fato de que as bibliotecas trabalham com um conceito lato de leitura. Não se trata exclusivamente da leitura do texto escrito, mas, também, da leitura da imagem fixa, da imagem em movimento e do som, além, é claro, de manifestações em que mais de um desses segmentos estão presentes. A leitura do texto escrito, por ser por demais conhecida, não precisa ser aqui desenvolvida, mas vale lembrar que os tipos de documentos que veiculam a escrita vão além dos livros. As imagens fixas, abrangendo, entre outras, a fotografia, os cartuns, as gravuras, as pinturas, as esculturas, possuem uma linguagem diferenciada e uma leitura própria, especifica. A leitura da imagem em movimento engloba em especial, os filmes e os vídeos. Aqui pode ser incluída a leitura do corpo. Por último, leitura do som. Na biblioteca, esta é por demais importante, pois engloba, além das músicas, a oralidade. Boa parte das bibliotecas trabalha com a contação de histórias e a contação de histórias é, em essência, uma ação que trabalha com a oralidade. Mesmo considerando que na contação se faz uso de um texto produzido e disseminado, originariamente, como um texto escrito e que, em outros tantos casos, emprega-se vestuário, alegorias e até cenários, o principal agente desse fazer é a oralidade. Há um outro tipo de leitura que engloba dois ou mais dos segmentos apresentados e que devem ser analisados de maneira diferenciada. É o caso das histórias em quadrinhos, do teatro, de documentos eletrônicos, virtuais etc. 

O terceiro espaço é o da memória. Nossas memórias, além de individuais, também são coletivas e é com isso que as bibliotecas trabalham. Um autor dessa temática, Eduardo Murguia, afirma que arquivos, bibliotecas e museus são lugares de Memória. A memória coletiva pode ser de um povo, mas pode ser, e é sempre, a de uma comunidade, a de um grupo. A biblioteca trabalha para e com esses grupos. Incluo aqui a memória de uma empresa, de uma instituição, de uma escola, de uma universidade etc. Há experiências várias de bibliotecas atuando com a memória da comunidade a que atende. Essa é uma responsabilidade da biblioteca que não está restrita a um dos tipos dela. 

Hoje, em vários países, incluindo o Brasil, há experiências atuando com o que está sendo designado de bibliotecas das coisas. Insiro estas experiências como o quarto espaço. O que é na verdade as bibliotecas das coisas? A proposta básica é oferecer à comunidade um serviço que atenda a necessidades, interesses e desejos, mesmo que nem todos vinculados à leitura no sentido amplo ou na mediação da informação. As bibliotecas das coisas possuem acervos que atendam a determinados serviços específicos, por exemplo: um segmento do acervo é formado por pinturas, quadros que são emprestados e podem permanecer em posse do usuário por um tempo específico. Depois, ele pode deixar o quadro emprestado e levar outro. Ou o acervo pode ter um segmento com ferramentas para atividades diversas. Um usuário, necessitando de um martelo, um soldador, uma chave de fenda, um serrote etc., pode emprestá-lo da biblioteca. O mesmo se dá com gravatas: um usuário em busca de emprego pode emprestar uma gravata para participar de uma entrevista de emprego. Formas de bolo, manuais de ponto de crochê (com exemplos reais colocados em pequenos sacos plásticos, dispensando texto escrito), uso, na biblioteca, de impressor 3D (para produzir algo idealizado pelo usuário) e muitas outras coisas podem fazer parte do acervo e dos serviços das bibliotecas das coisas.

Disse inicialmente que temos uma plêiade de espaços nas bibliotecas. Arrolá-los e descrevê-los demandaria um espaço maior do que tenho aqui. No entanto, rapidamente, vale apontar alguns deles: espaço da cultura, espaço da mediação, espaço do lazer, espaço da aprendizagem, espaço da troca, espaço da convivência etc.

Cada um dos espaços apresentados ou apenas citados, merecem e precisam de políticas públicas específicas dentro da política pública voltada para as bibliotecas. Mas, como são muitas, elas não devem, neste momento, ser especificadas sob pena dos compromissos dos candidatos se fixarem apenas nos itens registrados. É preciso pensar em uma política pública para as bibliotecas. No caso específico das bibliotecas públicas, um apoio formal e claro em relação ao PNLLLB e seus similares no âmbito do Estado e dos municípios. Para as bibliotecas escolares, os candidatos devem apresentar um apoio formal e claro em relação a Lei 12.244/2010. Os candidatos também devem declarar concordância em manter as estruturas das bibliotecas universitárias e dos institutos de pesquisa e órgãos congêneres, ampliando seus acervos, seus quadros de pessoal, sua infraestrutura e aumentando as verbas a elas destinadas. Para os outros tipos de bibliotecas, espera-se candidatos comprometidos com as ideias e propostas de cada uma delas, vinculadas diretamente ou não ao Estado e aos municípios, designando verbas que possam atender as necessidades de cada uma delas, não só em relação à sua sobrevivência, mas também quanto ao crescimento de suas instalações, pessoal e serviços. 

Referência

MURGUIA, Eduardo Ismael. Apresentação. In: ________ (Org.). Memória: um lugar de diálogo para Arquivos, Bibliotecas e Museus. São Carlos: Compacta Gráfica e Editora, 2010. 136p.

(Publicado em: BOLETIM CRB-8, edição especial, setembro de 2018)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.