POR QUE DECIDIU SER BIBLIOTECÁRIO?


A DECISÃO DE SER BIBLIOTECÁRIA DE MARILUCIA BERNARDI

Como e por que escolhi cursar Biblioteconomia

Lá pelos idos de 1973, no 2° ano do colegial, uma professora de Inglês, Dona Ivani, nos levou os famosos testes vocacionais. Eu, desde criança, queria ser professora. Porém, essa mesma professora me fez desistir da carreira pedagógica, mostrando inúmeras razões, sendo que a primeira e, pra ela, a mais importante, os baixos salários. Junto com o tal teste, ela trouxe também algumas fichas com profissões variadas para que pudéssemos conhecer e, quem sabe escolher.

Posso dizer que foi amor à primeira vista, pois assim que li sobre Biblioteconomia, suas disciplinas e qual o perfil exigido para o profissional, me apaixonei. Lembro que reli muitas vezes para ter certeza de que era aquilo que, realmente, eu queria cursar. Me senti, perfeitamente, enquadrada nas matérias e em todas as perspectivas que constavam naquele folheto, assim como em quais locais o profissional de biblioteconomia poderia atuar. Adorei!

Em dezembro do ano seguinte, prestei o vestibular em Campinas, para a PUCC, pois sendo de Jundiaí, era a opção mais próxima que eu tinha. Em São Paulo, já existia o curso da ECA, porém como era durante o dia, eu não poderia cursar; precisava trabalhar para ajudar aos meus pais, no sustento da casa. Naquela época o vestibular era num único dia, nos dois períodos, ou seja, matutino e vespertino. Foi muito puxado, bastante cansativo. Cerca de 60 dias após, o resultado estava nos jornais. Foi uma festa, uma alegria imensa, pois eu era a primeira e única da família a cursar uma faculdade e ainda fora da cidade. 

Meus amigos do trabalho preparam uma pequena recepção e brincadeira com o meu nome da relação de aprovados com a foto de meu prontuário na empresa e fizeram um tipo PROCURA-SE. Fui muito bem recepcionada e a brincadeira ficou muito engraçada. Tenho guardada a folha do jornal com a montagem até hoje. 

A duração do curso era de 3 anos, sendo um quarto ano de complementação a nível de pós. As matérias básicas eram Administração e Organização de Bibliotecas, Referência, Bibliografia, Catalogação, Paleografia, Organização Social e Política do Brasil, etc. A minha turma era muito unida; éramos somente mulheres, em cerca de 40, que ao longo dos três anos, algumas foram desistindo. Gostava de tudo, pois sentia que a cada dia se descortinava um mundo novo e diferente. Tive a oportunidade de me inscrever para o Projeto Rondon e ser chamada, porém meus pais não permitiram que eu fosse. Ficou a frustração por um bom tempo. As disciplinas que mais me atraíram foram Organização e Administração de Biblioteca e Catalogação. Adorava fazer as fichinhas...

Desde o primeiro ano da faculdade, já comecei a frequentar bibliotecas. Ia, com frequência, até a Biblioteca Pública de Jundiaí e no Gabinete de Leitura Rui Barbosa, para fazer minhas pesquisas e meus trabalhos de escola. E, na sequência, procurei conhecer outras bibliotecas também. No terceiro e último ano, fui eleita presidente do diretório acadêmico e aí começou uma etapa nova pra mim, a política. Nosso diretório ficava no famoso Pátio dos Leões, no centro da Universidade, ao lado dos diretórios, quentes, de Direito e Odontologia. Por sermos uma turma, predominantemente, feminina, e pela direção e equipe docente serem bastante conservadores, fui “orientada” pela diretora a não participar de nenhum ato de protesto, que pudesse vir a ocorrer no pátio, ou em qualquer local da universidade. Mas não ficávamos de fora, sempre conseguíamos burlar a vigilância e tentar entender o que acontecia. Um certo dia, quando iria acontecer uma assembleia marcada por estudantes de outras escolas, houve uma explosão no pátio central e fomos retirados da sala, para outra saída, por um grupo de soldados armados, tendo o Cel. Erasmo Dias no comando. Foi o primeiro e único momento que tivemos, diretamente, um contato com a repressão militar, que, constantemente, invadia as universidades. Como pregava a D. Maria Antonia – “somos da paz e pela paz, não nos envolveremos”.

Tive a grata e feliz surpresa de ser escolhida para ser oradora da turma e, com muito prazer e orgulho, preparei um pequeno discurso, que passou pelo crivo da então diretora D. Maria Antonia Pinke Belfort de Mattos. Foi uma verdadeira festa pelos arcos da velha universidade. 

Dois meses depois, em fev. de 1978, prestava concurso na FATEC e na FVG. Passei em ambos os locais, mas preferi ir para a Fundação Getúlio Vargas, onde iniciei minha trajetória como bibliotecária profissional em 01 de março. Éramos uma equipe de 8 bibliotecários, com os quais tive a grata oportunidade de conviver e aprender muito, realizando ótimos trabalhos. Me desliguei da FGV em junho de 1986, pois outras possibilidades estavam surgindo. E assim começaram novas histórias, novas experiências, novas aventuras, numa carreira, embora nem sempre agradável, muito gostosa, gratificante, vibrante, emocionante e muito feliz.


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.