GERAL


EZEQUIEL THEODORO DA SILVA

"Tentando fazer um trabalho de memória e recuperando alguns dos momentos mais significativos de minha formação, posso dizer que penetrei no mundo da biblioteca através do estímulo dado pelo meu professor de História, nos tempos de ginásio. Lembro-me de que o Prof. Carmelo exigia a elaboração de dois cadernos de pesquisa: um de esquemas e outro de resumos. Após as exposições em aula, tínhamos de ir à biblioteca da escola a fim de trabalhar os textos indicados na bibliografia. Por incrível que pareça, os cadernos eram recolhidos no final do mês para o 'visto' e a avaliação. Minha terra natal - Santa Cruz do Rio Pardo - não possuía biblioteca pública e quase todo o incentivo para a leitura provinha do contexto escolar.

Complementava as influências escolares, o exemplo dado pelo meu pai e pelo meu irmão mais velho, que eram leitores assíduos, compravam livros e se preocupavam com a formação e organização da nossa biblioteca familiar. Incidente interessante e inesquecível: certa vez fui atacado pela caxumba nos dois lados do rosto e tive que permanecer em repouso absoluto... devorei uma coleção todinha do escritor Paulo Setúbal (romance histórico). Meu pai tinha o costume de escrever 'dúvidas e esclarecimentos' nas páginas das obras filosóficas e históricas que lia; eu gostava de perscrutar aqueles caminhos anteriormente rabiscados. Meu irmão mais velho assinava o 'Reader's Digest' e eu, por tabela, também lia aqueles trechos curtos e fáceis de literatura informativa. Tais exemplos familiares foram também fundamentais na minha formação de leitor, pois abriram-me as portas para diferentes tipos de literatura.

Já nos tempos de curso colegial, consigo rever muito bem a figura do Prof. Teófilo de Queiroz Júnior, que ministrava a disciplina sociologia da Educação. Esse mestre, hoje no Departamento de Antropologia da FFLCH da USP, esmerou as minhas habilidades de leitor à medida em que aguçava a capacidade de análise: a realidade apontada pelo texto era sempre equiparada, contrabalançada com a realidade concreta vivida em nossa cidade. Dessa forma, seus alunos tinham a oportunidade de ver a teoria na prática e, através da discussão, complementar os aspectos da teoria. Após as leituras recomendadas, feitas na biblioteca da escola, partíamos para um estudo significativo do meio circundante. Devo muito ao Prof. Teófilo, principalmente porque a sua orientação influenciou muito a minha forma de conhecer o mundo.

A biblioteca da Faculdade São Bento não exerceu grande influência durante o meu curso de graduação. Em verdade, eu tinha muito pouco tempo para visitar ou freqüentar a biblioteca da faculdade, pois trabalhava em dois períodos. Comprava ou emprestava os livros e/ou apostilas e os lia nos fins de semana. Apesar de ter feito um curso de língua e literatura, não me recordo de nenhum grande incentivo para que dinamizássemos o acervo existente na biblioteca. Havia, isto sim, um estímulo muito grande para que comprássemos os livros e formássemos a nossa biblioteca profissional. Por outro lado, já começava a despontar, nessa época, o império das apostilas...

Aprendi a manejar e usufruir ao máximo dos recursos da biblioteca durante o meu curso de mestrado (Universidade de Miami, Flórida, EEUU). Os alunos tinham direito a uma sala privativa e individual para realizar suas pesquisas e trabalhos, e a maior parte do meu tempo eu passava na biblioteca; era um ambiente delicioso - tão delicioso que até trabalhei como auxiliar na portaria do local... Posso até afirmar que meu amor pela biblioteconomia nasceu no contexto da Universidade de Miami, principalmente devido ao respeito que se dedicava à informação e aos livros.

Depois desta breve retrospectiva, acho que posso refletir sobre a pergunta que me foi colocada. Eu diria, primeiramente, que tornei-me um habitante da biblioteca por necessidades acadêmicas, quase sempre estimulado e orientado por um professor. Jamais fui um 'rato de biblioteca' - procuro esse contexto quando quero respostas às minhas indagações; minhas iniciativas de ir à biblioteca jamais se tornaram hábitos regulares, mas esporádicos. Porém, devo dizer que, mesmo sendo um hábito esporádico, despontando irregularmente no trajeto da minha vida, a presença à biblioteca foi altamente significativa para a minha formação (não confundir com 'essencial' à minha formação). Efetivamente, algumas das respostas que eu procurava pra delinear e sustentar a minha postura na sociedade, eu as consegui consultando os catálogos de diferentes bibliotecas. Por outro lado, por ter conseguido respostas no contexto da biblioteca, conheço a importância da sua existência e sei quando procurá-la.

Finalizando, gostaria de dizer que a biblioteca pública sempre foi, para mim, uma realidade distante. Temos um imenso trabalho a fazer nessa área - as bibliotecas públicas, por serem alimentadas também por verbas públicas, sofrem as maiores injustiças em termos de atualização e funcionamento. Poucas são as cidades deste país que possuem 'bibliotecas', na real acepção do termo. Em todo caso, continuo lutando para que a comunidade tome consciência do valor da leitura e tendo a certeza de que a política que está aí não vai continuar para sempre...".
Fonte: SILVA, Ezequiel Theodoro da. Depoimento. A biblioteca de cada um. Palavra Chave, São Paulo, n.1, p.5-6, maio 1982

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.