IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
[Setembro/2004]
(Ignácio de Loyola Brandão - Escritor)
A Biblioteca de Araraquara foi essencial à minha formação. Era
na Biblioteca, uma sala escura do prédio da Prefeitura, na rua São Bento, que
meu grupo se reunia, todas as tardes, fizesse sol ou chuva. Aliás, dia de chuva
era maravilha, porque ninguém a freqüentava, a biblioteca era o nosso domínio
absoluto. Ali, reinávamos, sob as vistas complacentes do Marcelo Manaia que
inclusive nos abria as gavetas, facilitando o acesso aos livros "proibidos" como
Cacau de Jorge Amado ou O Amante de Lady Chaterly, de Lawrence.
Para uma cidade do interior, década de cinqüenta, era uma boa biblioteca, com
bom acervo brasileiro. Em poucos anos tínhamos lido quase tudo que era legível e
nos ocupávamos até de coisas "ilegíveis" como a Revista dos Tribunais. A
biblioteca tinha também uma coleção de jornais de São Paulo e Rio, nosso único
acesso às informações. Foi ali que descobri um livro sobre cinema. Uma
revelação: todo o processo de se fazer filmes, o mecanismo dos estúdios, os
bastidores da arte cinematográfica, me levaram a tentar a crítica de cinema. Foi
meu início em jornal. Na biblioteca redigi a primeira crítica. Ali, o Fenerich,
um amigo, corrigiu os erros e me ajudou a datilografar. Na biblioteca eu
estudava, conversava, lia, olhava as meninas pela janela (o pátio dos fundos do
IEBA dava para a biblioteca), redigia minhas críticas, datilografava. Anos mais
tarde, a biblioteca mudou para a rua Padre Duarte, para um prédio maior. Ali fiz
minhas pesquisas para um capítulo importante do Zero, o do ritual da morte de
Rosa. O primeiro esboço deste capítulo foi redigido na grande mesa de leitura,
que existe até hoje. E foi a biblioteca quem promoveu, há alguns anos atrás, já
com a direção de Marta Lupo Stella, um concurso nacional de contos, cujo prêmio
principal leva meu nome.
(Fonte: PALAVRA CHAVE, São Paulo, n.1, p.6-7, maio 1982)
|