ATENDENDO O USUÁRIO


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MATOLOGIA

O aluno olhou desconfiado para o bibliotecário:

 

- Posso fazer uma pergunta?

 

- Claro! Estou aqui pra isso mesmo.

 

- Pra fazer pergunta?

 

- Não, para responde-las – disse sorrindo o bibliotecário.

 

Juarez, o aluno, estudava em uma escola próxima da biblioteca pública. Apesar da pouca distância, ele nunca havia estado lá.

 

- Aqui é a biblioteca pública?

 

- É sim. Você não sabia?

 

- Acho que sabia, sei lá. Mas você disse que responde perguntas e quem sabe responder perguntas é professor...

 

- Bibliotecários também respondem perguntas.

 

- Não estou entendendo – diz o aluno – Biblioteca é lugar de livros ou de responder perguntas?

 

- Os dois – explica o bibliotecário – Nós temos livros, mas também temos revistas, cds, dvds, acesso à internet, e um monte de outras coisas mais. Aqui você pode jogar RPG, xadrez, alguns games, pode participar de hora do conto, de grupos de discussão de livros, de apresentações musicais, de gincanas, de cursos, palestras. Além de tudo isso, ainda respondemos perguntas.

 

- Tudo isso? – assombra-se Juarez – Eu não sabia.

 

- Eu sei que você não sabia.

 

- Você também é vidente?

 

O bibliotecário, rindo, imagina como ajudaria ter o dom da vidência para responder a determinadas questões de referência.

 

- Mas, por que você veio à biblioteca?

 

O aluno tira um caderno cheio de orelhas da mochila, folheia as páginas molhando a ponta dos dedos na língua, para em uma página, lê algo por alguns momentos, vira algumas páginas para a frente, outras tantas para trás até que, feliz, localiza o que buscava.

 

- Tá aqui: o professor Zoinho, quer dizer, Roberto, pediu pra gente fazer uma pesquisa sobre Matologia.

 

- Matologia? Você tem certeza de que é isso?

 

- Tá escrito aqui. Eu copiei da lousa.

 

O bibliotecário pega o caderno e lê: “Fazer uma pesquisa sobre matologia”. Ler talvez não seja a palavra mais adequada, pois a caligrafia de Juarez não era das mais decifráveis. A palavra “matologia” era mais deduzida do que lida. A saída era uma pequena entrevista de referência:

 

- E o professor não disse nada além disso? Ele não explicou nada sobre essa tal de “matologia”?

 

- Explicou nada, não. Acho que tem a ver com mato, você não acha?

 

Mesmo desconhecendo a palavra e sendo até possível  que “matologia” tivesse algum vínculo com mato, o bibliotecário acreditava ser improvável tal hipótese.

 

- O prof. Roberto é professor de que disciplina? – Indaga o bibliotecário.

 

- É de ciências.

 

- E vocês estão estudando aspectos da flora?

 

- Você é vidente mesmo: até sabe o nome da minha avó.

 

O aluno, vendo o bibliotecário calado, sem entender nada, explica:

 

- Minha avó se chama Flora. Ela é do Rio Grande do Sul. Passa o dia inteiro tomando chimarrão. Ei! Chimarrão é de mate. Será que “matologia” é o estudo do mate?

 

Retomando o controle da entrevista, e o rumo da pesquisa, o bibliotecário tenta descobrir qual o tópico que o professor estava desenvolvendo.

 

- Acho – diz o aluno – que é coisa sobre doenças. Ele falou de um monte delas. Até de câncer. Minha mãe disse pra não falar essa palavra, mas se o professor fala eu também falo. Tem uma doença que a pessoa fica branca, branca.

 

- Doença que deixa a pessoa branca?

 

- Isso mesmo. Eu até pensei que pode ser a doença que o Michael Jackson tinha.

 

- Acho que não – disse o bibliotecário.

 

Juntando doença, câncer e pessoa branca, talvez, pensa o bibliotecário, o professor poderia estar falando de leucemia.

 

- Seu professor não falou nada sobre leucemia?

 

- Acho que é isso. Não tenho certeza. Parece. Quem tem essa doença fica branco?

 

- Não. Ela atinge os glóbulos brancos do sangue.

 

Nesse momento o bibliotecário faz a relação entre a pergunta e a provável resposta. Aliás, é isso o que todo bibliotecário de referência almeja.

 

- Ao invés de “matologia” – pergunta um bibliotecário satisfeito – será que o seu professor não pediu “hematologia” como tema de pesquisa?

 

O trabalho de referência exige o sangue do bibliotecário.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.