ATENDENDO O USUÁRIO


  • Atendendo o usuário

BOLINHO DE GUSPE


Depois que a aluna disse o que queria a bibliotecária pensou consigo mesma: Hoje vai ser um dia daqueles.

O primeiro usuário do dia trazia uma pergunta, digamos, sinistra - para usar a linguagem típica dos alunos daquela idade.

- Tia, eu quero saber coisas sobre bolinho de guspe.

- Você tem certeza que a professora pediu uma pesquisa sobre isso?

- Tenho, sim.

- E ela ditou exatamente essas palavras? 

- Olha, tia, eu não estava na aula nesse dia. Eu faltei. Fiquei com uma dor de barriga muito forte. Toda hora eu ia no banheiro. Minha mãe falou que acha que eu comi alguma coisa que estava estragada, mas ela não sabia o que era. Eu não contei que comi uma coxinha na lanchonete da escola. Ela não quer que eu coma nada lá.

- Se ela disse para não comer é porque tem um motivo. Você precisa obedecer.

- Mas, tia, a coxinha é tão gostosa...

A bibliotecária olhou para a menina e achou que ela estava com água na boca. Provavelmente, ela continuaria a desobedecer a mãe, ao menos em relação à coxinha da lanchonete da escola.

- Voltando ao que estávamos conversando: você não estava na aula quando a professora pediu para fazer uma pesquisa sobre... o que mesmo?

Essa era uma estratégia que a bibliotecária costumeiramente utilizava, procurando saber se o usuário realmente queria o que tinha solicitado antes.

- Coxinha de cuspe.

- Coxinha?

- Não. Me confundi. É bolinho de cuspe.

- Se você não estava na aula, como você sabe?

- É que a Tininha me falou. Ela estava na aula e anotou no caderno. A professora quer uma pesquisa em grupo sobre isso.

- Em grupo? Mas você está sozinha.

- É que nós temos muitos trabalhos e cada uma está fazendo um. Depois a gente se reúne e junta tudo.

- Tudo bem. Uma pergunta: você não achou meio estranho o tema do trabalho?

- Achar eu achei, mas se ela pediu, nós não vamos dizer nada, não é mesmo?

- Quando a... sua amiga..

- A Tininha.

- Quando a Tininha lhe disse o que pesquisar, você pensou que bolinho de cuspe era o que?

- Eu achei esquisito, mas pensei que podia ser algo sobre poção de bruxa, ou algum livro de história famoso, coisa assim.

- Ainda bem que você não quer uma receita de bolinho de guspe...

- Deus me livre. Se uma coxinha já me deixou um dia inteirinho no banheiro, imagina um troço desses.

A bibliotecária mais uma vez achou que a menina estava com água na boca ao se lembrar da coxinha.

- Vamos pensar juntas: o que pode ter motivado o pedido da sua professora? Qual a matéria que ela ministra?

- Ministra?

- Ela é professora do quê?

- Ah! Ela é professora de História. Por isso que eu pensei que era alguma coisa de historinha ou livrinho de historinha...

A bibliotecária ficou na dúvida: será que adiantaria explicar com o que a História se preocupa, com o que a História se interessa? É melhor deixar de lado.

- E qual o ponto, o tópico... – pela cara de da aluna, a bibliotecária percebeu que precisava ser mais específica – o item que está sendo explicado pela professora neste momento? É história do Brasil, é algo sobre a política da cidade?

- Ela está falando sobre as coisas antes da Internet, antes do Facebook, antes do WhatsApp, antes do celular, antes do...

- Já entendi. E que coisas são essas?

- Eu não sei direito, porque eu faltei. Eu já disse que estava com desinteria – Essa palavra é feita, né, Tia?

- Mas, na aula anterior ao dia que você faltou, a professora falava sobre o quê?

- Ela falava sobre brincadeiras de criança. Brincadeiras antigas que hoje não mais existe nas cidades. Acho que as crianças naquela época faziam bolinhos de guspe.

- Acho que você precisa ligar pra sua colega e perguntar pra ela se o tema da pesquisa está correto, pois você pode ter entendido errado.

A menina liga para a amiga e, meio envergonhada, diz para a bibliotecária:

- É verdade, eu entendi errado. A Tininha falou que é pra pesquisar sobre “bolinhas de gude”.


Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

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Maio/2017



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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.