ALÉM DAS BIBLIOTECAS


CHUVA E DESALENTO

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Clarice Lispector

O B r o bró, expressão que nomeia os meses mais quentes do Estado (setembro até dezembro), quando a temperatura varia em torno dos 40°C quase todos os dias e na maioria das regiões do Piauí, já ficou para atrás. Em seu lugar, o período de chuvas, chuviscos, chuvas torrenciais, rápidas ou demoradas, mostram aos governantes os riscos das valas, dos buracos, dos bueiros que tomam conta do Estado, ênfase para a capital Teresina, causando acidentes e mortes.

Vez por outra, Teresina não é banhada pelo sol inclemente. A chuva constante sitia-nos  impiedosamente. As ruas parecem tristes e estão quase desertas. Ao longo da tarde que segue com rapidez, um ou outro se resguarda com sombrinhas coloridas ou guarda-chuvas austeros e acelera o passo nas calçadas escorregadias, esburacadas e perigosas. As ruas utilizadas para caminhadas dos que se preocupam em manter a forma tanto quanto as praças e os jardins não têm a vida transbordante de alegria de outros momentos, mesmo quando, quase sempre, carecem de cuidado, limpeza e amor.

A grama, este tapete que cobre o pudor de pedaços da terra espezinhada, pisoteada sem dó nem piedade, amassada e chorosa, mesmo assim, mantém, aqui e acolá, suas plantinhas, como espada de São Jorge, suculentas e cactos variados, bromélias, antúrios que se perdem entre maravilhosos ipês, floridos ou não (a depender do mês), com flores amarelas, roxas, rosas e brancas. São os ipês considerados a flor nacional e rivalizam, sem reserva, com a carnaúba, árvore símbolo do Piauí. É o verde presente no B r o bró ou no período chuvoso que justifica o cognome de “Cidade Verde” atribuído pelo escritor maranhense Coelho Neto a Teresina, em virtude de numerosas ruas e avenidas entremeadas de árvores.

De quando em vez, da janela do meu quarto, dou uma olhadela nos pingos de chuva que caem mais forte. Com a noite que se acerca, esgueira-se sorrateiramente um homem sem teto, e, quiçá, sem amor. Nesse meio tempo, a chuva abranda como a pedir permissão para partir. O homem parece nãoter onde acostar-se ou encostar-se até que senta sobre jornais e papelões também molhados. Recosta-se na parede de uma grande casa de esquina. Morto de exausto, penso eu, recosta-se. Acende um cigarro. Quem sabe? Talvez para enganar a fome.

 

 

Fonte: Foto de autoria de M. das Graças Targino

Ao lado de minha companheira, a soberba insônia, não consigo dormir. Cansada da monotonia desse quadro, que se repete Brasil afora – os sem-teto e/ou os miseráveis – tento ler. Os capítulos passam sob meus olhos, indecifráveis. Milhões de dedos magros em mãos calejadas orquestram de encontro às calçadas e ao asfalto uma música melancólica que somente eu escuto n’alma. Afinal, a chuva não para. Não tenho sono e estou tão só...

Volto a janela para observar de novo o homem sem lar. É ele quem me preocupa e constrange meu coração. Assombro-me com a rapidez com que dorme, e, ao que parece, profundamente, em sua cama improvisada. Uma interrogação caustica meu espírito: “Será ele feliz ou está anestesiado pelo abandono a que vida lhe expôs?”

Que seja... Que nunca tenha se emocionado ouvindo o compositor germânico Ludwig van Beethoven ou lendo uma estrofe do português Fernando Pessoa ou observando um quadro do italiano Rafael ou refletindo sobre um diálogo do filósofo Platão... Distante de tudo. Livre da insônia. Imune a preocupações futuras, além do que comer ao amanhecer! Em oposição, por aqui, numa cama confortável, em vigília, penso e sofro diante da situação econômica, cultural, educacional de nossa gente. Padeço de uma agonia paralisante, reforçando, com tristeza, palavras da escritora inglesa Jane Austen, quando diz: “Sou metade agonia, metade esperança”.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”