ALÉM DAS BIBLIOTECAS


FOR LIFE

A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.

Mahatma Gandhi

Há quem ame os streamings. Há quem os odeie. Em nosso caso, conseguimos enxergar suas vantagens como instrumento tecnológico que vem acelerando o combate à pirataria de filmes, séries e músicas em qualquer lugar e a um preço relativamente acessível e popular. Dentre as plataformas de streaming existentes, mencionamos a Netflix, cujas séries têm bom nível de aceitação, embora, como qualquer outro veículo de comunicação, possua material de níveis distintos de qualidade. Algumas estão no top de produções bem cuidadas e primorosas. Outras, nos degraus mais subalternos, até porque o grande público mantém valores diversificados que impedem qualquer nível de nivelamento igualitário.

A Netflix lançou, em 2020, o drama jurídico “For life”, série com apenas duas temporadas, respectivamente, 12 e 10 episódios. Ambas se mantiveram entre os 10 títulos com maior audição em território nacional, inspirada na vida de Isaac Wright Jr., na vida real, produtor musical. Na série, nomeado como Aaron Wallace e interpretado pelo ator britânico Nicholas Pinnock, é dono de uma boate. Condenado à prisão perpétua em 1991 como um dos chefes do tráfico do Estado de Nova Jersey, adiante conseguiu se livrar das acusações ao provar que detetive e promotor haviam forjado evidências.

Retomando o seriado, a indignação de Aaron o conduz a um caminho em busca de conhecimentos para atestar sua inocência. Consegue se graduar em Direito via on-line. Consegue passar no exame da Ordem dos Advogados. Consegue licença, após esforço hercúleo, para advogar tanto em relação à sua própria pena quanto a de companheiros de infortúnio, sendo ele próprio libertado após nove anos de sofrimento e de afastamento da mulher e filha. Sem agredir ao grande público com cenas visíveis de horror, consegue, com a ajuda da Diretora da Penitenciária, Safiya Masry vivida pela atriz britânica de origem indiana Indira Varma, que termina afastada do cargo e vê seu casamento chegar ao final; e de Timothy Clark Busfield, ator norte-americano e diretor teatral no papel de um advogado sem exercício da função e ex-senador Henry Roswell, que se perdera no alcoolismo, revelar o lado sujo e inimaginável do Poder Judiciário e Penal dos Estados Unidos.

O trio expõe, sem delongas, as crueldades infames a que os apenados estão sujeitos, em sua maioria, negros, hispânicos e pobres. Humilhação. Corrupção solta. Drogas em circulação trazidas por oficiais de alto escalão. Rebeliões ou meras brigas incentivadas pelos agentes. Visitantes expostos a cenas de constrangimento e de humilhação, ou melhor, a cenas dantescas. Aliás, muitos dos itens aqui citados ocorrem na esfera do sistema carcerário brasileiro.

Segundo fonte confiável e atualizada, 2021, CNN Brasil / Internacional, negros são quase cinco vezes mais encarcerados em prisões estaduais pelo Sistema de Justiça norte-americano do que os brancos, como consta do levantamento da organização sem fins lucrativos The Sentencing Project, cujas doações individuais fornecem suporte vital para que Projeto lute por um sistema criminal justo e eficaz. Se nas instituições carcerárias há quem efetivamente errou, com base nos últimos anos do censo do Bureau of Justice Statistics (agência do Departamento de Justiça) e informações privativas dos Estados, há inocentes.

A este respeito, autoridades reconhecem que as reformas prementes do sistema criminal dos EUA não podem ser efetivadas sem o reconhecimento do racismo que persiste no país e põe a nu as graves consequências das disparidades raciais para que possam ser eliminadas. As desproporcionalidades entre as taxas de encarceramento não só de negros, mas também de latinos em relação aos brancos são surpreendentes. Por exemplo, em 12 Estados, mais da metade da população carcerária é negra, tal como se dá no Brasil. E os hispânicos são presos a uma taxa que é 1,3 vez a taxa de encarceramento de brancos.

O que pode parecer uma história comum, traz reflexão acerca de parcela populacional totalmente esquecida, ao que tudo indica, em quaisquer nações. Por outro lado, sob direção de George Tillman Jr. e roteiro de Hank Stein, as falas do trio – Aaron, Safiya e Roswell – são aulas magnas da grandiosidade que deveria cercar a função de qualquer membro do Poder Judiciário mundo afora – lealdade aos cidadãos e à Pátria; ética; conhecimento profundo; empatia; senso de Justiça e de responsabilidade. Assim, “For life” é uma grande aula de cidadania para TODOS no sentido de que é possível acreditar no poder de recuperação do outro, para que os presídios não sejam uma máquina de trazer à tona o que há de mais perverso no ser humano!   

 

 

Fonte: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/prisoes-presigangas-e-cadeias-na-colonia


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”