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FLORESTA AMAZÔNICA: PULMÃO DO BRASIL

"Na atualidade, ao que parece, inexiste problema em invadir e tomar terras"

O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do fotógrafo e jornalista britânico Dom Phillips, 57 anos, quando ambos trabalhavam em prol dos povos indígenas e do meio ambiente na Amazônia brasileira trouxe à tona, mais uma vez, o descaso dos governantes brasileiros quando o tema é preservação ambiental, sobrevivência da população indígena, quilombos e quilombolas, populações ribeirinhas e, portanto, tudo que se relacione com a memória do Brasil e com as populações minoritárias.

Ambos estavam a serviço dos indígenas, com as devidas licenças oficiais. Nada na contramão, como, de início, assim que o desaparecimento de Bruno e Tom foi percebido, o Presidente Bolsonaro afirmou numa de suas declarações chocantes e injustas: “[...] a incursão de Phillips e Pereira era uma aventura não recomendada até porque o repórter britânico era malvisto na região amazônica” por suas reportagens acerca de atividades ilegais. Ao contrário. Ambos mantinham respeito mútuo com os índios de diferentes etnias, como documentários, fotos e vídeos comprovam. A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, cujos integrantes se envolveram nas buscas, de imediato, qualificou o duplo assassinato como crime político, já que Bruno e Tom eram ferozes defensores da Floresta e de seu povo.

 

 

Bruno Pereira canta ao povo Ticuna em meio a tensão na mata – Foto: Reprodução/Internet

Diante da repercussão nacional, e, sobretudo, internacional, quando familiares, organizações não governamentais (ONGs) e instituições de diferentes naturezas se manifestaram com vigor e rigor, exigindo providências das autoridades brasileiras, as medidas emergenciais de busca tiveram início. Phillips residia no Brasil há 15 anos e sua família, no Reino Unido. Esta vem agradecendo reiteradamente aos envolvidos em elucidar os crimes, em especial, aos indígenas.

Em que pese o ódio declarado do Presidente B. às ONGs, o que contraria todas as perspectivas dos países desenvolvidos, os quais buscam avidamente contar com o auxílio do setor privado e da sociedade civil, no caso brasileiro, algumas delas são definitivas na solução ou no apaziguamento de problemas. Por exemplo, o Fundo Mundial da Natureza ou World Wildlife Fund (WWF) denunciou o fracasso cabal do Estado brasileiro em assegurar a sobrevivência dos povos da Floresta e de seus defensores, haja vista que vigora a lei do mais forte. A brutalidade e a ilegalidade são recorrentes. Também em tom de indignação, o renomado Greenpeace afirmou que, nos últimos anos, o país deixou expandir a lei do vale-tudo, como consequência de omissões infames do Governo Federal. Órgãos que lutam por uma imprensa livre também se manifestaram, como é o caso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo; Associação Brasileira de Imprensa; e Federação Nacional dos Jornalistas.

Na atualidade, ao que parece, inexiste problema em invadir e tomar terras. De forma similar, vale a pena disseminar a mineração e extrair madeira ilegalmente. Os conflitos territoriais parecem ser estimulados, uma vez que há um discurso paralelo em prol da exploração econômica da Floresta Amazônica, que se, em termos científicos e comprovados, não é o pulmão do mundo, é, sem dúvida, o pulmão e o coração do povo brasileiro. Isto porque, ao contrário do que se costuma afirmar face à licença poética embutida na assertiva – A Amazônia é o pulmão do mundo - os cientistas lembram que, embora a Floresta produza oxigênio, está longe de ser o pulmão do mundo, uma vez que não altera muito o balanço de oxigênio. Por exemplo, ela suprime, a cada ano, cerca de dois bilhões de toneladas de gás carbônico da atmosfera, através da fotossíntese. Adiante, retorna para atmosfera cerca de 1,5 bilhões de toneladas de oxigênio, que representa uma fração ínfima (0,001%) do oxigênio do Planeta”.

Após 17 dias de intensas buscas, a investigação sobre o desaparecimento dos profissionais conseguiu a confissão do primeiro dos três detidos até então, embora o número de investigados pelas mortes tenha subido para oito. Ainda que se trate de informação não confirmada oficialmente pela Polícia Federal, dentre eles deve estar o mandante do homicídio. O pescador Amarildo da Costa de Oliveira, o primeiro a ser detido e preso, conduziu a polícia ao local onde enterraram os corpos. De início, as vítimas foram mortas com disparos de arma de caça, trucidados e queimados para facilitar o esconderijo dos restos mortais.

Os profissionais foram vistos pela última vez, no dia 5 de junho, na região da reserva indígena do Vale do Javari, a segunda maior do país, com mais de 8,5 milhões de hectares, próxima ao município de Atalaia do Norte. Eles iam da comunidade ribeirinha de São Rafael para Atalaia, quando sumiram sem deixar vestígios. Phillips trabalhava num livro sobre a preservação da Amazônia. Pereira, servidor licenciado da Funai, atuava como seu guia na região, onde sobrevivem 26 povos indígenas, muitos dos quais isolados e/ou forçados a conviver com garimpeiros, pescadores e madeireiros ilegais, além de perigosos traficantes de drogas. Segundo familiares e colegas, há algum tempo, Pereira vinha recebendo ameaças desses grupos por sua defesa ferrenha dos territórios indígenas.

A não elucidação de mais esta atrocidade incrementará o descontentamento dos que sonham com um Brasil promissor e multicolor, com o predomínio do verde em todos os matizes!

Fonte da foto:
https://ndmais.com.br/meio-ambiente/em-meio-a-tensao-na-mata-bruno-pereira-emociona-com-canto-indigena-entenda-o-significado/


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Maio/2022



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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”