COMO ATUAR EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO NO COMBATE À DESINFORMAÇÃO?
A desinformação é um dos fenômenos mais alarmantes no século XXI em face do caráter danoso de manipulação, nocividade, ofensiva ao conhecimento e debacle de sentidos informacionais e exige uma luta expedita da política, da ciência, da educação, da cultura, do meio ambiente, da saúde, das instituições diversas e da sociedade de modo mais amplo.
Embora grande parte das questões de combate à desinformação seja vinculada a mídia tradicional e as redes sociais digitais é urgente o debate sobre a imersão dos ambientes de informação como arquivos, bibliotecas, museus, centros de documentação e cultura nesse combate.
O combate à desinformação via ambientes de informação possui uma série de particularidades em relação à mídia tradicional que inclui a atuação com informação estratégica voltada para comunidades com graus de demandas e necessidades específicas que, por sua vez, exerce um grau especializado de gestão, serviços, políticas e tecnologias que busca oferecer as mensagens apropriadas e desfazer/elucidar as mensagens falsas.
Inicialmente, vale considerar que uma das maiores perspectivas de combate à desinformação envolve os seguintes elementos: a construção de um processo político-cultural-educacional de caráter informacional conduzida por dados e conhecimentos técnicos e baseadas em fatos, ou seja, o combate à desinformação passa pelo caráter qualificado da informação em diálogo com a educação (formal e informal) e a cultura; e a construção de um processo político-cultural-educacional para desfazimento das práticas de desinformação por meio da identificação da informação correta, considerando a pluralidade dos meios de comunicação e das instituições que lidam com informação.
O primeiro elemento é macro e envolve a essência do combate à desinformação por ser construído de modo permanente e desde a mais tenra idade a partir da formulação e implementação de políticas públicas informacionais, culturais e educacionais em escolas, universidades, instituições culturais, científicas, ambientais, de saúde etc., enquanto o segundo é micro por fornecer subsídios para um combate mais pontual da desinformação, sendo a combinação entre ambos o elemento vital para o combate à desinformação.
Desse modo, como é possível atuar no combate à desinformação em ambientes de informação? A atuação pode ser empreendida a partir dos seguintes aspectos, a saber:
- processos de informação – um ambiente de informação para atuar com solidez demanda uma política articulada de organização, difusão, busca, acesso, recuperação e uso da informação possibilitando o conhecimento sobre como encontrar a informação e se apropriar estrategicamente dela para o combate à desinformação;
- gestão da informação – capacidade estratégica de armazenar, coletar, selecionar, processar e avaliar práticas em informação e documentação relacionadas a serviços, produtos e fluxos de informação, bem como a capacidade de delinear acervos, serviços, produtos, tecnologias e políticas de informação baseadas em ações estratégicas de pessoal e de avaliação voltadas para o combate à desinformação;
- serviços de informação – desenvolvimento de serviços de informação utilitária de combate à desinformação no cotidiano social, disseminação seletiva da informação voltada para temáticas e públicos estratégicos e serviço de referência voltados para o auxílio bibliográfico, provisão documental e alerta de desinformação, sendo estes serviços voltados para as questões da desinformação;
- dinamização do acervo – gestão e mediação de acervos (bibliográfico, documental, iconográfico, áudio visual, vídeo gráfico, cartográfico, entre outros), visando oferecer à comunidade subsídios para construir a informação baseada em fatos e desfazer mensagens baseadas em emoções e ideologias que negam o conhecimento técnico-científico;
- uso de tecnologias digitais – sem essas tecnologias os ambientes de informação possuem certa obsolescência, sendo preciso lidar com softwares e inteligência artificial para orientar a comunidade no trato com a informação e a desinformação, tanto em redes sociais, quanto em ambientes formais digitais de educação e conhecimento;
- ações culturais – elaboração e implementação de políticas culturais para o combate à desinformação que englobe questões de identidade, memória, arte e diversidade social, considerando que um dos principais causadores da desinformação é a intolerância à diferença e a necessidade de destruir o diferente, sendo as ações culturais voltadas para o desenvolvimento convivial mais respeitoso, baseado em dados, fatos e conhecimentos que compreendam as relações baseadas em diferenças como oportunidades de aprendizagem e não como espectro de destruição;
- realização de eventos – o desenvolvimento de fóruns, seminários, encontros, congressos, simpósios, colóquios, além de formações de curta duração para o combate à desinformação;
- preservação da memória – quanto menos memória preservada e difundida em uma sociedade, mais perspectivas de desinformação, visto que a memória por ser baseada em fatos históricos com referência ao conhecimento produzido e por deixar um legado entre gerações possibilita um combate mais efetivo à desinformação;
- estímulo à leitura e à pesquisa – a leitura é um dos instrumentos mais eficazes para formar intelectuais e a pesquisa para consolidar inovações, considerando que todas as práticas anteriormente mencionadas devem ser voltadas para a capacidade de construção leitora (da palavra e do mundo) e de pesquisa que permita a criação de novos serviços, produtos, processos e conhecimentos, sendo que o investimento entre leitura-pesquisa proporciona à comunidade oportunidades de diferenciar uma informação verdadeira de uma informação falsa, assim como de desenvolver uma competência crítica de informação que considere o combate à desinformação uma das pautas centrais;
- programa de alfabetização, letramento, mediação, competência e práticas de informação nos ambientes de informação – consiste na aplicação de todos os aspectos anteriores para constituição de uma política de informação pautada no combate à desinformação. Essa política envolve a aplicabilidade de métodos, técnicas, serviços e produtos de mediação, competência, comportamento e prática informacional que considere a capacidade de desfazimento da desinformação;
Evidentemente que o combate à desinformação deve ser produzido gradualmente nos ambientes de informação por meio da qualificação de pessoal, desenvolvimento de estrutura e recursos, bem como por meio de uma gestão e política definida. Cada ambiente possui realidades peculiares e pode iniciar o desenvolvimento do combate à desinformação do modo que considerar mais pertinente. Algumas atividades convencionais como formações e eventos são mais usuais e objetivas, contemplando um ponto de partida promissor para os ambientes de informação.
No entanto, a ideia de um programa de alfabetização, letramento, mediação, competência e práticas de informação se constitui como um dos pilares mais permanentes e consolidados, pois introduz a atuação dos ambientes de informação com processos de informação, gestão da informação, serviços de informação, dinamização do acervo, uso de tecnologias digitais, ações culturais, realização de eventos, estímulo à leitura e à pesquisa voltados para o combate à desinformação.
Uma sugestão é que os ambientes de informação como bibliotecas, arquivos, museus, centros de documentação e cultura criem uma seção em seus ambientes para o combate à desinformação que contemple o desenvolvimento gradual dos aspectos mencionados nas alíneas acima. Exemplo de bibliotecas, arquivos e museus públicos que atuam com públicos diversos e bibliotecas, arquivos e museus universitários que atuam com públicos especializados são pontos estratégicos para o desenvolvimento de ações (individuais e conjuntas) de combate à desinformação.
Portanto, atuar no combate à desinformação é um desafio central para os ambientes de informação que devem em conjunto com órgãos de classe, universidades e instituições de interesse público criar fóruns de discussão e redes institucionais para o desenvolvimento de políticas estratégicas. O diálogo propositivo e o desenvolvimento de estratégias entre ambientes de informação e outros órgãos interessados reúne condições para o avanço nas práticas de combate à desinformação. Os aspectos propostos incidem como primícias para que os ambientes de informação reflitam em quais perspectivas podem se inserir no combate à desinformação.