UM POUCO DA MINHA TRAJETÓRIA COM A COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO
Neste breve artigo, conto um pouco sobre minha trajetória acadêmica (ensino, pesquisa e extensão) voltada para a competência em informação - são 19 anos dedicados ao tema, contabilizando o meu primeiro contato com essa subárea da Biblioteconomia e Ciência da Informação.
Nos últimos anos, andei refletindo sobre essa ligação com a competência em informação, o que levou para o meu contexto histórico (vida pessoal - origens), vieses ideológicos, valores humanos, sociais e políticos, isto é, uma busca por caminhos profissionais que também dão sentido à vida e às lutas que vamos traçando nesta caminhada.
A partir disso, retomo à educação, que é propulsora de mudanças e oportunidades (assim foi comigo), por isso acredito e me dedico, em maior parte, às pesquisas (teóricas e práticas) e às ações de competência em informação no âmbito educacional, enfatizando o papel do bibliotecário, com a compreensão de que é uma aliada no processo de ensino e aprendizagem dos estudantes, possibilitando maior criticidade e empoderamento e, consequentemente, abrindo portas e oportunidades profissionais e sociais para as pessoas.
No período da graduação no curso de Biblioteconomia da Universidade Estadual Paulista, na querida Unesp/Marília, tive a oportunidade de participar do Grupo de Pesquisa Comportamento e Competência Informacionais, coordenado pela Profa. Helen de Castro Silva Casarin, tendo o primeiro contato com o tema em 2005. Posteriormente, tive uma bolsa de iniciação científica, que fazia parte de um projeto de âmbito maior, coordenado pela referida professora, que também tornou-se meu trabalho de conclusão de curso, cujo título é “A Competência Informacional no âmbito escolar: um projeto para o desenvolvimento de habilidades informacionais no ensino fundamental” (1), baseado na obra da pesquisadora norte-americana Carol Kuhlthau, adaptado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, incluindo a grande Bernadete Campello, que tanto contribuiu para a área de Biblioteconomia e Ciência da Informação e, principalmente, para as bibliotecas escolares.
Este projeto foi desenvolvido por cerca de oito meses em uma escola da Rede Pública Estadual de Ensino da cidade de Marília (SP) com estudantes com dificuldade de aprendizagem. Neste projeto de competência em informação, como bolsista de iniciação científica, minha função era realizar o planejamento das atividades, elaborar os conteúdos, aplicá-los e avaliá-los com os estudantes participantes. Essa atividade gerou desafios: como estudante do curso de Biblioteconomia, percebi que não tinha a preparação pedagógica exigida. Além disso, também constatei que o curso não tinha disciplinas voltadas para a educação, sendo as instituições de ensino um dos principais ambientes de trabalho do bibliotecário, que direta ou indiretamente atua com os usuários (em projetos diversos, na mediação da informação, no serviço de referência) - aqui inicia minhas inquietações para a pesquisa de mestrado e doutorado (2).
Por meio dessa experiência, fica evidente para mim que as ações de competência em informação realizadas por bibliotecário no âmbito escolar ou acadêmico poderiam ajudar os estudantes no processo de ensino-aprendizagem, bem como para terem melhores condições de agir em sua vida escolar e pessoal perante o uso crítico da informação.
A partir disso, a temática da competência em informação tornou-se tema da minha pesquisa de mestrado (3) (com objetivo de verificar a competência informacional dos graduandos do último ano dos cursos de Biblioteconomia da região sudeste) e de doutorado (4) (com o objetivo de analisar como a Competência Informacional estava sendo abordada nos cursos de Biblioteconomia no Brasil e nos cursos de Informação e Documentação na Espanha), ambas com foco na formação do bibliotecário. Cabe mencionar que tive a oportunidade de realizar o doutorado sanduíche na Espanha, com a orientação do Prof. Miguel Ángel Marzal (5). Posteriormente, no meu pós-doutorado foquei nos “Aspectos teóricos e metodológicos da competência em informação voltado às universidades brasileiras” com a supervisão da Profa. Adriana Rosecler Alcará, na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Também mantive esse projeto ao iniciar minha carreira docente na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Também elaborei um projeto de pesquisa voltado para um programa no Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade Federal do Espírito Santo (SIB/Ufes), trabalhando com os aspectos teóricos e diagnósticos, resultando, inclusive, na orientação da dissertação de mestrado da Eliéte Ribeiro Almeida, com o título “Framework para programas de competência em informação no ambiente universitário: uma proposta para o Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) (6)”. Também atuei com outros projetos voltados para a competência em informação.
Ao dar aula no mestrado acadêmico no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Ufes, ministrando a disciplina de competência em informação, tive contato com a Eliana Terra Barbosa, que era discente do PPGCI e coordenadora das Bibliotecas Escolares da Rede de Ensino do Município de Vila Velha, Espírito Santo - no qual permanece neste cargo até os dias de hoje. Ela fez uma dissertação com o título “Rede de Biblioteca Escolar no Espírito Santo: estudo de caso da Rede de Vila Velha” (7). Na época fiquei tão encantada e instigada, que propus a ela o desenvolvimento de programa de competência em informação nas Bibliotecas Escolares da Rede, obtendo como resposta que após a defesa da dissertação conversaríamos sobre o assunto. Após uns três meses da defesa dela, voltei a procurá-la com a proposta de realizar um Programa de Competência em Informação nas Bibliotecas Escolares da Rede em parceria com a Secretaria de Educação (Semed) da Prefeitura Municipal de Vila Velha, criando-se uma parceria com a Eliana Terra Barbosa na coordenação deste Programa.
Ressalto que meus laços com a Eliana Terra Barbosa se estreitaram ao longo do tempo, construindo uma relação de amizade e profissional. Sabe aquela profissional que você admira!? Pois é, eu tenho essa admiração por ela, de sua luta pela causa das bibliotecas escolares de Vila Velha e, consequentemente, do Brasil - essas ações são sempre multiplicadoras. Enfatizo que ela está à frente de diversas atividades na Semed junto a outros profissionais para a inclusão da biblioteca escolar em variados aspectos: aumento do número de bibliotecas, abertura de concurso para bibliotecários, compras para o acervo etc.
O Programa de Competência em Informação nas Bibliotecas Escolares da Rede completou três anos, voltado inicialmente para a formação dos bibliotecários e dos auxiliares de biblioteca, com conteúdos variados, que permeiam as bibliotecas escolares, as fontes de informação, mediação da leitura ético-racial, acesso à leitura para crianças deficientes, entre outros.
Cabe mencionar que enfrentamos alguns desafios, por exemplo, quanto ao número de bolsistas para o projeto, que varia entre um ou dois, visto a diminuição na quantidade de bolsas de iniciação científica no âmbito das universidades federais desde 2016, além das verbas já escassas voltadas para a educação, que creio que é de conhecimento de todos. Também é importante mencionar os desafios como docente, pesquisadora e com cargo gestora em uma universidade pública, acredito que estar à frente destas três ações é dar a cara a tapa, mas lutar por aquilo que acreditamos, pela educação e pela pesquisa, confesso é o triplo de trabalho, que obviamente não cabe em 40 horas semanais.
Este projeto nas Bibliotecas Escolares da Rede da PMVV representa o sair dos muros da Universidade, é trabalhar com ensino e extensão com a comunidade, em prol de algo maior - é lutar por uma causa social e educacional. Apresentarei mais detalhes do Programa, como ocorre, a atuação de cada um dos estudantes, da coordenação do Programa, da minha atuação, de todos dos bibliotecários escolares e dos auxiliares de biblioteca, entre outros. Também menciono que neste Programa, além da iniciação científica, hoje contamos com pesquisas em nível de mestrado (da Sara Dieny Ribeiro) e em nível de doutorado (da Cíntia Gomes Pacheco). Finalizo dando um “Viva Universidade Pública”, porque ela proporciona que consigamos trabalhar com ensino, pesquisa e extensão em prol da sociedade!
NOTAS
1 - Disponível em: https://www.academia.edu/17670667/A_Compet%C3%AAncia_Informacional_no_%C3%A2mbito_escolar_um_projeto_para_o_desenvolvimento_de_habilidades_informacionais_no_ensino_fundamental
2 - Ressalto que na época havia poucos materiais sobre o tema no Brasil, pois nos encontrávamos no início das pesquisas e produções, porquanto o tema ganhava suas primeiras publicações no ano de 2000 com a Elisa Caregnato e com a Regina C. B. Belluzzo#. Além da obra de Kuhlthau, usei principalmente a literatura espanhola e norte-americana para compreender como eram operacionalizados os programas naqueles países, ajustando as ações às características da escola, à biblioteca escolar existente e às necessidades dos estudantes, que tinham pouco contato com as fontes de informação (constatada no decorrer do projeto).
3 - Disponível em: https://www.marilia.unesp.br/Home/Pos-Graduacao/CienciadaInformacao/Dissertacoes/mata_ml_do_mar.pdf.
4 - Disponível em: https://www.marilia.unesp.br/Home/Pos-Graduacao/CienciadaInformacao/Dissertacoes/mata_ml_do_mar.pdf.
5 - Eu fui bolsista Capes no mestrado e no doutorado, além disso participei do Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior (PDSE).
6 - Disponível em: https://sappg.ufes.br/tese_drupal//tese_17224_Disserta%E7%E3o%20final.pdf.
7 - Disponível em: https://sappg.ufes.br/tese_drupal//tese_15309_Disserta%E7%E3o%20Eliana%20Terra%20Barbosa20220615-85050.pd