A ERA DE OURO OU DE LATÃO DOS ESTADOS UNIDOS!
As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.
Friedrich W. Nietzsche, filósofo prussiano do século 19, nascido na atual Alemanha.
Distante do intuito de discutir questões políticas no que possuem de mais legítimas, ou não, discorro, aqui, sobre aspectos psicológicos, posturas comportamentais e ações imediatas do recém-empossado 47o Presidente dos Estados Unidos da América, o Republicano Donald John Trump, 78 anos, no dia 20 de janeiro de 2025. Nem sou psicóloga nem tampouco terapeuta, mas vivi o bastante para conseguir decifrar rostos assustadores e feições de ódio numa face qualquer. Durante a cerimônia de posse, que assisti, por completo, exatamente pelo assombro do primeiro momento, ele inicia sua fala com frase prepotente e despótica. Diz literalmente: “A era de ouro dos Estados Unidos começa agora”. E não para. Aos borbotões, dá início a uma série de ameaças, algumas das quais anunciadas desde sua campanha.
Seu olhar, cheio de ódio. Cada mudança facial, cada trejeito em suas mãos e cada mudança postural mostravam o quanto os deuses ou os demônios tentam se impor. Cada palavra dita surpreendia. Em primeiro lugar, distante de qualquer imposição do que se chama de cerimonial, mas próximo de gesto mínimo de educação e de respeito ao outro, era de se esperar que Trump aguardasse um minuto qualquer para desferir seu veneno. Indiferente à presença do ex-Presidente Joseph R. Biden Jr. (Joe Biden) e da ex vice-Presidenta Kamala Harris, sua oponente nas últimas eleições, teceu duras críticas ao Governo anterior, incluindo a tragédia dos incêndios calamitosos que vêm assolando Los Angeles (Califórnia), como se os governantes tivessem controle sobre os ventos que afetam a região.
Prosseguiu quase sem fim. Endemoninhado de sede imponderável de poder e cheio de convicções, indiferente à fala do filósofo Friedrich Nietzsche, quando diz que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”, mantinha prontas mais de 100 ordens executivas, 25 das quais foram assinadas em seu primeiro dia de Reinado. Deu as costas à Organização Mundial da Saúde e como esperado, retirou, mais uma vez, os EUA do Acordo de Paris, ratificado por 193 países e pela União Europeia, na condição de tratado internacional com o fim de reduzir as emissões de gases do efeito estufa para conter o avanço do aquecimento global e as mudanças climáticas, como temos vivenciado no Brasil. Trump lava as mãos para uma crise na qual “seu” país é um dos maiores protagonistas.
Seguiu adiante, ao revogar a Lei de Redução da Inflação, aprovada no Congresso Nacional, ano 2022, que incorpora políticas climáticas, embora sozinho não possa ele abolir, unilateralmente, leis federais. Por outro lado, no afã de causar estupor e medo, Trump reafirma sua prioridade em incrementar a produção de petróleo, repetindo, loucamente, o refrão “drill, baby, drill” (“perfure, bebê, perfure”), uma vez que pretende reduzir investimentos em energia renovável e obstruir projetos de energia eólica offshore, como crítico feroz das turbinas eólicas.
E há muito mais... Algumas medidas improcedentes, como mudar o nome do Golfe do México para Golfe da América, no primeiro momento, pelo menos para mim, soou hilária. Afinal, a costa sul do Golfo banha o México (Tamaulipas, Veracruz, Tabasco, Campeche, Iucatão, e Quintana Roo); suas costas orientais (norte e noroeste), os EUA (Flórida, Alabama, Mississippi, Louisiana e Texas); e a costa sudeste, Cuba. Seu percurso por três diferentes nações, em que pesem as controvérsias vigentes, a mera mudança de denominação, decerto, não seria decisiva para garantir o poderio de um dos países.
Mesmo assim, a página do motor de buscas Google informou na segunda-feira (27 de janeiro), o anunciado pela mídia brasileira: o “Google Maps [...] mudará nos Estados Unidos o nome do Golfo do México para Golfo da América e o pico Denali, o mais alto da América do Norte, para Monte McKinley, em acordo com decretos do Presidente Donald Trump”. E prossegue: “Temos uma prática de longa data de aplicar mudanças de nome quando [...] atualizadas em fontes oficiais do Governo”. É a força do poder! Ação imediata e sem qualquer importância para os cidadãos norte-americanos! Vã vaidade!
E o Senhor Trump continua, com empáfia, em sua primeira fala à Nação e ao mundo: “vou tomar de volta o Canal do Panamá!”. Trata-se de poderosa via marítima artificial e rota estratégica para o comércio internacional, pois reduz a distância entre Atlântico e Pacífico. Situado em terras panamenhas, o Canal assume o posto de uma das maiores obras de engenharia do mundo, pois funciona, por meio de eclusas, que elevam o nível da água para a passagem de embarcações. Sua construção teve início em 1881, sob encargo do francês Ferdinand de Lesseps. No ano de 1904, os EUA tomam para si a responsabilidade da obra, e, por fim, o Canal é inaugurado em 1914. Em 1999, o Panamá passa a ser controlado exclusivamente pelo Governo local, após os tratados Torrijos-Carter. Estes datam de 7 de setembro de 1977, quando o Presidente americano, Jimmy Carter e o General Omar Torrijos, comandante da Guarda Nacional do Panamá transferem o controle do Canal para o Panamá depois de 1999, revogando o Tratado Hay-Bunau-Varilla, de 1903. Mas para Trump, nada disto importa. Sua vontade, pensa ele, é soberana e inquestionável!
Impedir que os bebês nascidos em território americano tenham direito à cidadania, contrariando frontalmente o disposto na 14a Emenda, ratificada em 1868, da Constituição Federal dos EUA de 1787, segundo a qual “todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à sua jurisdição, são cidadãos dos Estados Unidos e do Estado em que residem”, de imediato, já provocou ações judiciais por sua flagrante inconstitucionalidade!
Além do mais, eis o que provocaria risos se não afetasse a vida de tantas pessoas: não haverá mais, em território americano, ninguém que não se enquadre nos únicos gêneros por ele reconhecidos – masculino e feminino. O que o poderoso Trump – que reina acima do bem e do mal – fará com quem integra a sigla LGBTQIAPN+? Para onde irão lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queer, intersexos, assexuados, pansexuais, não-binários e os que adotam outras orientações sexuais não incluídas nas letras da sigla ora citada?
Destaque para a fala da bispa de Washington – DC, Mariann Edgar Budde, que se dirigiu ao Presidente, em sermão durante culto ecumênico de celebração à sua posse na Catedral Nacional de Washington na 3a feira (21 janeiro 2025). Olhos nos olhos (se ele se dignasse a olhá-la), clamou por misericórdia e compaixão para com os imigrantes em situação irregular no país e para com a comunidade LGBTQIA+. O ódio de Trump aos que imigram é histórico, sejam mexicanos ou não.
Presidente em seu olhar mais amistoso x Deportados brasileiros, 2025
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| Fonte: Portal Tucumã, 2025. |
A chegada a Manaus na sexta-feira, dia 24 de janeiro, de 88 imigrantes brasileiros com as mãos algemadas e os pés acorrentados constitui um capítulo à parte! O Ministério da Justiça e Segurança Pública brasileiro exigiu a retirada das algemas, no momento em que o avião pisou o solo brasileiro! E mais, os deportados denunciaram agressões por parte dos agentes americanos, sem contar as péssimas condições do estado da aeronave (sem ar condicionado) e a falta de qualquer alimentação. Inicialmente, o voo tinha como destino Belo Horizonte, mas diante dos relatos de violações, as autoridades brasileiras desautorizaram o seguimento do voo para Belo Horizonte. O grupo pernoitou em Manaus e embarcou na manhã seguinte em voo da Força Aérea Brasileira (FAB) até a capital mineira. A deportação em massa continua a todo vapor, incluindo diferentes nacionalidades, com destaque para os latino-americanos!
Com impacto direto para os imigrantes mundo afora, de imediato à sua posse, num passe de mágica, Donald Trump suspendeu o repasse de fundos destinados à ajuda humanitária voltada para os migrantes por meio de organizações não governamentais por tempo indeterminado. Em território nacional, os serviços prestados eram administrados, sobretudo, pela Cáritas Brasileira, graças ao financiamento do Governo estadunidense intermediado pelo Escritório de População, Refugiados e Migração do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Eis uma entidade com reputação ilibada, que atua desde 12 de novembro de 1956, como órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em prol da defesa dos direitos humanos, da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável.
Como decorrência, no caso do Brasil, o segmento que mais vem sentindo os efeitos do veto engloba os migrantes venezuelanos, que, devido à proximidade da fronteira com o norte do Brasil, têm sobrevivido em Roraima e em seus arredores. Três instalações sanitárias que ofereciam serviços gratuitos no Estado estão de portas fechadas por tempo indeterminado, o que significa que pessoas em situação de vulnerabilidade não têm como tomar banho; escovar os dentes; usar um banheiro para suas necessidades fisiológicas e até beber água potável...
