ALÉM DAS BIBLIOTECAS


O BEBÊ REBORN REVELA...

Em meio à explosão de dissertações e teses acadêmicas ou de pareceres e sentenças judiciais alavancadas na inteligência artificial, vivemos a sensação errônea e passageira de que já vimos tudo acontecer na sociedade contemporânea, onde, mais do que nunca, filhos assassinam pais, pais assassinam filhos, irmãos assassinam irmãos, netos assassinam avós e assim segue. Mas, não, há muito mais! Estamos fazendo alusão aos reborns, expressão vinda do inglês (born = nascer ou nascido; reborn = renascer ou renascido), que nomeia os bonecos de silicone hiper-realistas, alguns dos quais portam as dobrinhas da pele de bebês reais e até choram, fazem pipi e caca e que estão fazendo a festa de centenas de pessoas, em sua grande maioria, mulheres.

 

Fonte: Pinterest, 2025.

Segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), organização internacional que trabalha em prol de crianças e adolescentes, cerca de uma em cada quatro crianças no mundo, ou seja, aproximadamente 180 milhões de meninos e meninas de carne e osso pedem um prato de comida ou um lar. Sofrem de fome e severa desnutrição, com significativas consequências para sua saúde e seu desenvolvimento. Em contraposição, uma boa quantidade de gente vem colocando fralda em boneca, importando-a, alimentando-a, banhando-a, vestindo-a, acalentando-a, levando-a para tomar banho de sol e mil outras atividades, incluindo o registro em redes sociais.

E o que é mais intrigante, há quem tente levar seu filho ou sua filha “faz de conta” para consultórios médicos ou instituições públicas de saúde pagas com dinheiro de nossos impostos. Há quem ostente cartão do SUS [Sistema Único de Saúde] e de vacinação. Há quem alardei sua posição em filas de prioridade em mercados e bancos porque está com bebê no colo. Há quem opte pela cor branca ou negra. Há quem escolhe entre menino e menina. Há quem prefira bebês gêmeos. Há quem busque padres para batizar os reborns. Há de tudo ou quase tudo! Há quem gaste pouco ou um montante considerável – o comércio eletrônico expõe modelos que vai de “meros” 50 reais a cerca de quatro mil reais.

Quando as pessoas extrapolam a realidade durante um tempo relativamente longo, estamos diante de um quadro de transtorno mental grave, que demanda tratamento psiquiátrico imediato. Isto não é real. É fantasia e fuga da vida. É falsolatria em sua concepção, muito bem exposta por Jean Wyllys (2025), quando diz:

A febre dos bebês reborn [...] não pode ser reduzida a uma excentricidade. Ela é, antes, um sintoma da falsolatria, este ethos contemporâneo engendrado pela cultura digital e pelo capitalismo de plataforma, cujo motor é a captura da atenção e o engajamento emocional com o simulacro. O bebê reborn, ao ser inserido em enredos performados por seus donos nas mídias sociais, revela-se não só como fetiche, mas também como prenúncio de um futuro em que a alteridade será domesticada, neutralizada ou anulada.

 

 

       Fonte: G1 – Globo, 2025.  

Na verdade, eis uma onda de consumo preocupante e aterrorizador. Gerar e/ou aplaudir um cenário de “faz de contas” revela solidão imensa, frustração infinda, desencontro consigo mesmo, e, sobretudo, incapacidade de suportar crianças reais, com seus queixumes e birras. O bebê reborn não chora de verdade – quando mais nos incomoda, mas, sim, chora ao nosso bel-prazer. O bebê reborn não cresce – quando temos obrigatoriamente de comprar roupas e sapatos novos. O pipi e a caca do bebê reborn são falsos – nem sujam nem fedem. O bebê reborn não mordisca os seios doloridos – quando pensamos mais na dor do que na alegria de ser mãe. O bebê reborn não nos corrige – quando ensaiamos uma “mentira social” para a vizinha bisbilhoteira.

Ao contrário das nossas crianças em carne e osso, que, irremediavelmente, estão sujeitas a uma ambivalência oscilante – o amor e o ódio dirigidos aos pais, em especial, à mãe, por ser mais presente – como bem trabalhado por Melanie Klein (2023), em “Amor, culpa e reparação”, com fantásticas contribuições acerca das relações familiares e interpessoais e da comunicação humana, o bebê reborn favorece uma maternidade sem dor e sem conflitos, sem frustração e sem grandes angústias, porque a mãe reborn exercita controle e poder de comando numa simulação flagrantemente narcisista da maternidade, onde o bebê é apenas extensão do eu.

Então, para as mamães ou papais de araque, ficam as sugestões: Que tal ocupar o tempo com horas dedicadas a algum orfanato ou creche? Que tal pensar em presentear meninos e meninas carentes com lindos(as) bonecos(as) “de papel”?  Que tal pensar no uso terapêutico dos reborns para pessoas com distúrbios mentais acentuados, idosos solitários em sua própria dor ou pessoas vivendo com demência de Alzeimer?

Há que se refletir e encontrar um ponto mínimo de equilíbrio diante de dias chorosos e de angústia! Quem sabe, muita aflição e imensa agonia!

Fontes:

KLEIN, Klein. Amor, culpa e reparação. São Paulo: Ubu Ed., 2023.

WYLLYS, Jean. O bebê reborn e a falsolatria: um sintoma do presente e um presságio do futuro. Revista Cult, São Paulo, maio 2025. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/bebe-reborn. Acesso em: 30 maio 2025.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com