BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO TEM NOME: GIOVANA / GIOVANNA
Não nego minhas tristezas. Adormeço com o coração pleno de desilusão pelos falsos amigos que extraíram de mim as flores coloridas que ainda me cercavam. Amanheço com saudade profunda dos que partiram aos céus e me deixaram na Terra. Choro pelas crianças abandonadas e maltratadas. Amo os idosos que me cercam e me pedem um pouco de amor por meio do olhar cansado e quase inerte. Sou frágil por trás de uma fortaleza que me impus a mim mesmo há dias, décadas e anos. Sou o que dei aos outros – nem sequer vendi – a imagem de uma mulher forte, ética e intensa nas minhas verdades e meias-verdades.
Mas, estranhamente, mantenho a capacidade quase infinita de acalentar sonhos. O bisneto que não chega. O próximo livro. A próxima viagem. Um amor derradeiro. Foi assim quando enfrentei, com galhardia, os eventos que cercam a Fórmula 1. Lá fomos todos a São Paulo – filho, nora, neta e eu, ansiosa para viver ao lado de meu único filho seu sonho de criança. Amei a viagem. Não precisava falar – amei muito e basta! Agora, o mesmo ocorreu com a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, 28a edição, ocorrida entre 4 e 13 de setembro de 2026, Distrito Anhembi. Para os organizadores, que já dispuseram em páginas eletrônicas a divulgação para a próxima edição, ano 2028, a Bienal de 2026 está sendo apontada como o maior evento cultural da América Latina e entrará, segundo eles, para a história das bienais, como a mais importante de todos os tempos.
Emocionante se deparar com brasileiros de qualquer faixa etária – bebês de colo carregados com carinho por mães e pais; acadêmicos à cata de onerosos livros didáticos; velhinhos e velhinhas serelepes provando que o livro impresso teima em viver; pessoas com deficiência (PcD) ostentando um sorriso nos lábios em meio à enxurrada de publicações, e, sobretudo, muitos adolescentes que fizeram, sim, da Bienal do Livro (SP) um momento de festa. Sentadinhos no chão, quentinhas regadas a uma boa conversa, entremeada pelos celulares em punho. Beijos roubados aqui e acolá. Risos frouxos e gargalhadas!
Dentre os estrangeiros, destaque para os espanhóis, cujo país foi homenageado, com espaçoso pavilhão dedicado a seus autores. Muitas atrações, como mesa redonda, saraus, diferentes debates sobre Inteligência Artificial na escrita e sobre a presença crescente da literatura indígena e afro-brasileira, além de outras temáticas. Dentre os gêneros: romances; crônicas; contos; poesia; fantasia e ficção científica; suspense, terror e horror; mangás e história em quadrinhos; não ficção; livros de autoajuda; literatura infantojuvenil e Young Adult, que tendem a dominar o mercado editorial de olho para adolescentes ou jovens adultos.
Homenagem a autores brasileiros clássicos, a exemplo de João Guimarães Rosa, cuja principal obra, “Grande sertão: veredas”, editado, ainda em 1956, deve ser lido ou relido a qualquer altura da vida. Carolina Maria de Jesus também foi consagrada por infinitos motivos: sua vida de luta; sua força em vencer o mundo editorial e publicar livros memoráveis, destaque para “Quarto de despejo: diário de uma favelada", editado em 1960, graças ao empenho da Companhia das Letras, que o transformou em best-seller, quase de imediato, com milhares de exemplares. Traduzido para 13 a 16 idiomas, como espanhol, francês, italiano, russo, alemão e japonês, além de publicado em mais de 40 países, o diário da vida penosa de Carolina, anos 50, retrata a vida de muitos outros irmãos brasileiros: pobreza, fome, enfrentamento da violência e luta quase insana para criar os três filhos com a renda advinda de seu trabalho como catadora de papel. Lástima! Carolina, agora, no céu, não estará entre nós para assistir à adaptação cinematográfica de seu livro, título provisório “Carolina: quarto de despejo”, cujo lançamento ocorrerá entre 2026 e 2027.
Símbolo da Bienal do Livro: adolescentes amantes da leitura
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Fonte: |
Acervo pessoal da autora, 2026. |
No entanto, meu voto de louvor vai para duas adolescentes. Ambas Geovana. Grafias distintas: Giovana, 18; Giovanna, 16 anos. Ambas do interior de São Paulo: Campinas e Valinhos. Ambas deixaram uma marca de esperança em meu coração: arrumavam cuidadosamente (como somente os amantes de livros o fazem), numa mala de tamanho razoável, sentadas ao chão (não limpo), muitos e muitos títulos sobre temas variados. Desde dezembro passado, fizeram um pacto: abrir mão das mesadas desde então para se esbaldarem em meio a livrarias e editoras na Bienal. Comprar o selecionado previamente ou novidades. Comprar livros. Nada mais... Livros... A mãe de Giovana assistia a tudo a distância, guardando um silêncio respeitoso e, desconfio, um orgulho imenso! Com uma amiga de “indagorinha” e já de toda a vida, lá estamos nós com as meninas, sentadas ao léu e compartilhando, com carinho, a doação de nossos livros!
É para vocês, meninas, que vai o troféu da 28a Bienal. Enquanto houver quem se encante com a leitura, haverá esperança para um país em frangalho no quesito ética! Até esqueço, propositadamente, o desencanto dos pequenos livreiros ou dos autores engatinhando ou categorizados como “eternos iniciantes”. Sem qualquer chance de divulgação dos livros, lá vamos nós. Piores locais. Preços de locação às alturas. Autógrafos fakes (risos!). Esqueço, também, a desorganização e a falta de informação comum nos corredores da Bienal. Esqueço os banheiros sujos. Esqueço a falta de opção de comida saudável. Penso somente em vocês! Talvez não mais nos encontremos! Bobagem! Vocês ficaram n’alma de uma sonhadora! E como disse ao meu filho na volta da Fórmula 1, grito para vocês: valeu, sim! E muito! Sonho realizado e basta! Com vocês, Giovana e Giovanna, assistimos de camarote, o passado conversando com o presente; as jovens encontrando a escritora velha por vocação; o sonho reavivando a memória. Por alguns instantes ou segundos, o caos do mundo pareceu caber no silêncio de uma página. Uma página em branco. Uma página a ser escrita por vocês, minhas meninas!