BIBLIOCONTOS


UMA PALAVRA

A educação, dizem está de mal a pior. Políticas públicas se sucedem a cada mudança de responsável pela gestão do setor público. Professores mal remunerados, desmotivados. Infra-estrutura carente, e que se reflete na comunidade discente oriunda em grande parte de ambiente social desestruturado. Em suma são tantos os problemas que a educação carece de solução.

Mas mesmos em cenários desoladores, há frutos de esforços coletivos e/ou individuais, espaços de qualidade ou ações de qualidade em transformar o material existente.

O fato é que em uma escola de ciclo básico, a professora lecionava para uma turma com o pouco desejo de estudar. No exame final, até para ajudar ao esforço mínimo dos alunos, ela organizou prova com perguntas simples e compatíveis com o nível da classe.

A pergunta de maior pontuação indagava, em qual dos poderes (executivo, legislativo e judiciário) do Estado trabalha o juiz?

Todos foram bem na prova, a exceção de Oswaldinho José, um zero total. Para não dizer que não havia logrado alguma nota. Em outras épocas, se alguém tirasse um zero, ficaria tão envergonhado que se esconderia por todo período de férias para não dar cara em público e, então, reiniciar nova etapa escolar. Bom, isto seria em outras eras. Talvez anos 50, 60 ou 70, do século passado. Hoje a postura é outra, a turma faz do zero um piercing e prega na orelha ou nariz.

Com Oswaldinho José não foi diferente. Ele questionou a professora, sabia de seus direitos, e queria revisão de prova. Afinal, zero não podia ser, tinha dignidade, podia ser estúpido, ignorante, mas burro ao extremo jamais.

Os colegas acharam melhor que ele deixasse para lá a questão, até por conhecê-lo, zero estava de bom tamanho.

Mas para ele era questão de honra, ou ao menos de décimos, pois havia respondido todas as questões.

No dia e hora agendados, diante da Professora, vai passando as questões e as respostas, até chegar à última sobre qual dos três poderes trabalha o juiz. Ele havia respondido executivo.

A Professora, veterana do magistrado, no limite da paciência explica que a resposta certa seria judiciário, pois ele aplica as leis. Silencio momentâneo. Estão Oswaldinho se manifesta:

É por causa de uma palavra, uma única palavra que a senhora considera errada. Por uma palavra apenas. Injustiça!

 A Professora se espanta com o absurdo. Afinal, por uma palavra juízes dão o veredicto final.  Por uma palavra, se chega a informação precisa. Por uma palavra, uma palavra somente, porém corretamente posta.

Autor: Fernando Modesto

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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.