OBRAS RARAS


O SUPER PAPEL

Não nos espanta que seja a China o primeiro país a anunciar a criação do papel à prova d´água (e de outros líquidos) e, ao mesmo tempo, à prova de fogo. Afinal, são associadas à esse país algumas primazias históricas, incluindo a invenção desse suporte de escrita criado há cerca de 2000 anos. O papel, como se sabe, foi conhecido e difundido para a Europa pelos povos árabes na Idade Média e até hoje, na segunda década do século XXI, reina soberano como o mais utilizado no mundo para manuscritos e publicações.

 

Ao longo dos tempos, muito já se perdeu com incêndios e inundações em bibliotecas e instituições similares (vamos nos deter apenas nesses dois tipos de desastre). Assim como o papel evoluiu (e continua a evoluir), também as normas e padrões estabelecidos para a sua preservação trouxeram novos olhares, para que a memória registrada pudesse ser mantida para gerações futuras. O super papel parece superar seus antecessores.

 

A pesquisa iniciada em 2008, publicada no "Journal of the American Chemical Society" (ACS, periódico científico avaliado), foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Cerâmica de Xangai (afiliada à Academia de Ciências da China), na qual ressaltaram que o papel à prova d´água e à prova de fogo já existiam, embora as duas propriedades, juntas, fosse novidade. O que possibilita esse tipo de proteção é uma substância denominada hidroxiapatita que, misturada ao papel, o resguarda das citadas “intempéries”.

 

Interessante notar fato que muito comumente ocorre nas pesquisas: na busca para obter pó de hidroxiapatita para os nano fios, um aluno de doutorado chinês envolvido na investigação acabou percebendo a formação de um filme sobre o papel – o que o inspirou a aperfeiçoar as propriedades físicas desse material, resultando no super papel.

 

Para o professor, Zhu Yingjie, a descoberta desse novo papel, em tese, resolveria grave problema que afeta a natureza: “a confecção do papel tradicional danifica florestas naturais e o meio ambiente. Longos nano fios de hidroxiapatita são constituintes ideais para o papel”.

 

Favorável para muitos setores, esse é o mais forte papel não artesanal até o momento e tem previsão para estar no mercado em três anos. O tamanho A4, ligeiramente mais caro, já foi produzido com sucesso. A impressão em alta definição colorida, testada e aprovada de acordo com os padrões de reprodução do país, também foi bem sucedida. Como tudo, a tendência é ter o custo reduzido em poucos anos, caso a demanda aumente, como se espera.

 

E o que é a hidroxiapatita?

 

Os ossos possuem componentes orgânicos e inorgânicos (estes em maior percentual), que formam os cristais de hidroxiapatita. Estes cristais possuem fosfato de cálcio cristalino, que são pouco solúveis. Tais materiais há muito são utilizados nos enxertos ósseos, por possuírem características similares aos tecidos ósseos e dentários. As curtas notícias na internet sobre o super papel mencionam en passant que o elemento é encontrado no esmalte dos dentes e nos ossos dos animais, o que é fundamental para a resistência do produto. Além de esse fato nos chamar atenção, também uma das matérias (abaixo citadas) ressalta que a saúde humana é afetada por “bactérias presentes no papel, que se espalham na multidão, como receituário médico, dinheiro e documentos”, no geral – como que para justificar a invenção do super papel inorgânico, antibactericida, resistente ao fogo e à água, e que evita fungo (a despeito dos meios utilizados em seu processo de produção).

 

Sabe-se que a China não tem tradição de preservação do meio ambiente. Ao contrário. O livro de Judith Shapiro (pesquisadora de renome da área) demonstra com detalhes os efeitos devastadores das ações desse país, internamente e em outros continentes, em especial a partir do modelo de capitalismo vigente e da globalização. Segundo a autora, ainda há tempo de reverter a situação na China - mas não muito.

 

As notícias encontradas hoje sobre o assunto aparecem em poucos jornais, ainda, e são repetitivas, carecendo de aprofundamento. Pouco se pode conjecturar sobre a relação custo versus benefício do super papel nos tempos atuais, caso a utilização de animais seja determinante para o sucesso do empreendimento. No momento em que muitos países buscam equilíbrio nas ações do homem para melhor convivência com a natureza e diminuição de impacto sobre essa e seus reinos (o nosso, inclusive), há que se pensar no imprescindível e desejado progresso almejado com cuidado.

 

Quem tiver interesse em se aprofundar no assunto pode verificar sugestões de um dos web sites com os termos de busca: Fire and water resistant paper – highly durable paper – reliable medium.

 

Até a próxima!

 

Consultas:

 

COSTA, A. C. F. M. [et al]. Hidroxiapatita: Obtenção, caracterização e aplicações. In: Revista Eletrônica de Materiais e Processos, v.4, 2009, p. 29-38.

 

SHAPIRO, Judith. China´s  environmental challenges. Cambridge, UK: Polity Press, 2012.

 

http://www.chinadaily.com.cn/china/2017-01/06/content_27876681.htm

 

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/como-e-o-incrivel-papel-a-prova-de-agua-e-fogo-inventado-por-chineses.ghtml

 

http://www.ibtimes.co.uk/super-paper-that-can-withstand-fire-water-created-by-scientists-1602524

 

https://www.technowize.com/china-comes-worlds-first-fire-water-resistant-paper/


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, atualmente trabalha no Museu da República. É pesquisadora em Comunicação Científica e Informação em Museus. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005