OBRAS RARAS


ACADEMIAS LITERÁRIAS NO BRASIL COLONIAL

O Brasil colonial viu florescer em suas terras algumas academias literárias. Apesar de não constituírem uma escola, um movimento literário, essas academias organizavam atividades culturais com os intelectuais da época. Se até então a cultura se manifestava nos salões, durante as festas, é no século 18 que ela se torna atividade intelectual mais organizada, e com objetivos.

Sem querer ir muito distante no tempo, vale dizer que as academias existiam em Portugal já no início dos anos 1600, talvez não com o vigor das academias brasileiras que surgiram a partir de 1724, como a Academia Brasílica dos Esquecidos. Esse grupo foi fundado com o objetivo de estudar a História do Brasil sob os ângulos da História Natural, Militar, Política e Eclesiástica. Com a criação da Academia Real em Lisboa em 1720, que iria registrar a história portuguesa, fazia-se necessário coligir também a história da América portuguesa. Os "esquecidos" podiam, de fato, ser úteis à metrópole.

Mais de cem acadêmicos compunham o grupo dos Esquecidos: João Borges de Barros, nosso autor da coluna do mês passado, o secretário José da Cunha Cardoso, Luís de Siqueira da Gama, Sebastião da Rocha Pita, que escreveu a conhecida História da América portuguesa, entre outros nomes. Assim como as predecessoras academias européias dos séculos anteriores, seus membros adotaram nomes por vezes satíricos, assinando versos como o Acadêmico Venturoso, ou a Acadêmico Obsequioso, o Inflamado, o Infeliz, o Ocupado, ou o Acadêmico Vago, como Pita assinava. Apesar de seu um ano de vida apenas, os acadêmicos realizaram dezoito conferências. Segundo alguns autores, essa academia já marca a decadência do Barroco no Brasil, iniciado em 1601 com Bento Teixeira e sua Prosopopéia, e terminado com as Obras de Cláudio Manuel da Costa, em 1768.

No Rio de Janeiro, em 1752, surgiu a Academia dos Seletos, em homenagem a Gomes Freire de Andrade, então governador do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Entre os anos de 1736 e 1740 o vice-governador do Rio fundou a Academia dos Felizes, que publicou poucos trabalhos.

Mas voltando à Bahia e a Cláudio Manoel da Costa. O poeta (dono, aliás, de uma bela biblioteca), também pertenceu a outra academia, juntamente com João Borges de Barros: a Academia Brasileira dos Renascidos, fundada em 1759 em Salvador (então capital da colônia), na esperança de reacender as cinzas dos Esquecidos. Essa academia baiana tinha por objetivo escrever a História Universal, Eclesiástica e Secular, Geográfica e Natural, Política e Militar da América Portuguesa, segundo a Enciclopédia de Literatura Brasileira. O fundador, José Mascarenhas Pacheco Pereira de Melo, além de outras atividades, veio para o Brasil com instruções de proceder contra os jesuítas. Não coincidentemente, o mecenas da Academia era ninguém menos do que Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, responsável pela expulsão dos jesuítas do Brasil naquele período. Para encurtar a história: Mascarenhas foi preso em 1759, talvez por não ter cumprido sua missão, e a academia acabou antes do final de seu primeiro ano.

Outras academias surgiram no século 18, em Minas Gerais e em São Paulo. Esse foi um fenômeno cultural que marcou um tempo importante na vida pública e intelectual dos grandes centros do Brasil colonial.

So long!


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, atualmente trabalha no Museu da República. É pesquisadora em Comunicação Científica e Informação em Museus. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005