OBRAS RARAS


IMPRENTAS GUARANÍTICAS

Voltaire dizia que a civilização paraguaia parecia ser o triunfo da humanidade. Há que se admitir que o trabalho dos jesuítas e a produção livreira dos guaranis são ímpares em vários aspectos. No que diz respeito aos livros, os bem desenhados tipos móveis confeccionados in loco, com caracteres completamente diferentes dos até então desenvolvidos em outros locais, é exemplo único.

No final do século 16 os jesuítas chegaram à região do Rio da Prata vindos do Peru e do Brasil. Três, dos cinco que foram do nosso país, falavam guaraní e foram destinados ao Paraguai. Outros a eles se juntaram com os anos. Apesar das dificuldades culturais e ambientais dos primeiros tempos, em 1610 os jesuítas criaram as Reduções Guaraníticas.

Havia aproximadamente 30 povoados e uma população de 100 mil pessoas na época em que lá surgiu a tipografia (por volta de 1700), como nos informa Furlong. A capacidade intelectual e maestria dos índios na escrita era tão impressionantemente de boa qualidade que ficava difícil saber se um livro havia sido copiado a mão por um indígena ou impresso em Roma.

A confecção de prensas a partir do uso da madeira local e de tipos móveis em metal (utilizando principalmente o estanho) é idéia atribuída ao padre Neumann, austríaco que chegou à região em 1690 e foi o fundador da primeira imprenta argentina, em conjunto com o padre Serrano.

Guillermo Furlong, em sua Historia y Bibliografia de las primeras imprentas Rioplatenses, enumera 23 incunábulos guaraníticos (segundo especialistas no assunto, um desses não foi impresso nas missões). Dos 22 restantes, são conhecidos exemplares de oito títulos apenas (muitos incompletos e em precário estado de conservação):

"De la diferencia entre lo temporal y eterno", de Nieremberg;
"Instrucción practica para ordenar santamente la vida", de Garriga;
"Manuale ad usum Patrum", do padre Restivo;
"Vocabulario de la lengua guaraní", de Ruiz de Montoya;
"Arte de la lengua guaraní", também de Montoya;
"Explicación de el catechismo", de Yapuguay;
"Sermones y exemplos", igualmente de Yapuguay; e
"Carta de Antequera", de J. de Palos y J. de Antequera y Castro.

Especializada em período colonial das Américas, a John Carter Brown Library, dos oito livros citados, possui quatro. Por enquanto, mas sem muitas chances (para não dizer nenhuma) de conseguir os oito.

O clima quente e úmido da floresta não colaborou para a preservação dos livros, e mesmo das prensas. As coroas portuguesa e espanhola também tiveram participação na destruição de alguns povoados indígenas após 1801. Em 1828, quase nada mais havia. Fundada em fins do século 17, início do século 18, as tipografias (eu acredito que eram várias, e não apenas uma) das missões produziram mais de 10 mil livros até a época em que os jesuítas foram expulsos, pelos idos de 1767, 1768.

O interesse em colecionar as poucas publicações das missões teve origem já no início do século 19. Um dos primeiros colecionadores dos impressos das missões foi o padre Saturnino Segurola (1776-1854), dono de um belo acervo de manuscritos, mapas e objetos de mineralogia argentina. Era dele o exemplar do "Manuale ad usum Patrum" que hoje se encontra na Biblioteca Nacional de Madrid. Dom Pedro de Angelis, outro grande colecionador, reuniu a mais valiosa biblioteca do gênero, tanto que excluiu, em seu catálogo de 1853, as obras dos índios guaranís (ele sabia a importância que tinham). De Angelis possuiu o "Manuale" do padre Restivo e o famoso livro de Nieremberg, "De la diferencia...". O general Bartolomeu Mitre e outros homens de saber constam igualmente na lista de bibliófilos com interesse no assunto. Mitre, aliás, viria a adquirir a biblioteca do padre Segurola no ano de morte deste.

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"Vayan y enciendan el mundo" era o lema do fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, que enviou jesuítas para todas as partes do mundo com a missão de aprender e conhecer a cultura dos que seriam evangelizados. Ao contrário da prática de domínio então vigente no século 16, a Companhia de Jesus se integrou aos povoados e sua gente. Talvez o exemplo mais significativo tenha acontecido nas Reduções Jesuítas onde, durante 150 anos (1609-1768), o encontro entre tão diferentes culturas permitiu erguer o índio ao patamar de cidadão livre, assim como vivia o homem branco.

Isso hoje seria considerado excelente. Na época então...

So long!

PS: Texto baseado no folheto impresso em 2004 "Un Incunable Rioplatense", pela Livraria argentina Fernandez Blanco, em edição especial de comemoração de seu 65o aniversário.


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VALERIA GAUZ

Mestra e doutora em Ciência da Informação pelo IBICT, bibliotecária de livros raros desde 1982, é pesquisadora em Comunicação Científica e Patrimônio Bibliográfico, principalmente. Ocupou diversos cargos técnicos e administrativos durante 14 anos na Fundação Biblioteca Nacional e trabalhou na John Carter Brown Library, Brown University (EUA), de 1998 a 2005 e no Museu da República até 12 de março de 2019.